Sergipe acordou pesado. Não é força de expressão, é sensação física mesmo, dessas que a gente sente no peito. Em menos de 48 horas, duas mulheres foram brutalmente assassinadas. Uma no povoado Pilunga, em Capela, morta na frente dos próprios filhos. Outra dentro de um hotel em Aracaju, Flávia Barros, executada a tiros por Tiago Sóstenes Miranda de Matos, que horas antes estava brindando, sorrindo, vivendo o “final de semana perfeito” das redes sociais. É o Brasil real invadindo o filtro do Instagram com sangue.
E aqui vai a parte que ninguém quer encarar, mas precisa ser dita. A mulher mudou. E mudou muito. A mulher hoje não pede mais licença para existir. Ela trabalha, decide, escolhe, vai embora quando quer, fica quando quer, fala o que pensa e não aceita mais viver dentro da caixinha de ninguém. E sabe qual é o problema? Tem homem que ainda está tentando entender isso com a cabeça de 1980 ou talvez 1960. E quando não entende, em vez de evoluir, surta.
Os relatos são claros, quase didáticos. O homem que não aceita o não. O homem que acha que amar é vigiar. O homem que acha bonito dizer “vou cuidar de você o tempo todo”, quando na verdade quer controlar, isolar, dominar. E a gente ainda canta isso como se fosse poesia. Só que não é amor, é posse com trilha sonora. E quando a mulher rompe esse ciclo, quando ela diz “não cabe mais”, alguns homens não sabem lidar com a própria fragilidade. E aí nasce o perigo.
Uma mulher resumiu isso de forma brutalmente honesta. O homem não quer trabalhar suas inseguranças, ele quer eliminar o que o confronta. É mais fácil tentar apagar a mulher forte do que encarar a própria fraqueza. É duro ouvir isso, mas é necessário. Porque não estamos falando de teoria, estamos falando de corpos, de vidas interrompidas, de crianças assistindo o fim da própria família.
E não, isso não é um caso isolado. O Brasil vive uma escalada silenciosa e assustadora. Só nos últimos meses, os números de feminicídio seguem em alta em diversos Estados. Sergipe, que muitas vezes aparece como estado mais tranquilo, entra agora nessa estatística com um choque coletivo. Porque quando dois casos explodem em menos de dois dias, não é coincidência, é sintoma.
A legislação existe. A Lei do Feminicídio, a Lei Maria da Penha, medidas protetivas, tudo isso está no papel. Mas o problema nunca foi só a lei. É a cultura. É o comportamento. É o tipo de homem que ainda acha que relacionamento é território, que mulher é propriedade e que rejeição é afronta. Não é. Nunca foi. E está na hora de dizer isso com todas as letras.
E nesse cenário, surge um debate que já vinha sendo levantado há meses. O ex-deputado André Moura vinha defendendo, lá atrás, a ideia de prisão perpétua para feminicidas. Foi criticado, foi questionado, foi ignorado por muitos. Agora, depois desses crimes brutais, começaram a aparecer vídeos, discursos, indignações públicas. Daniella Garcia, Capitão Samuel e outros nomes passaram a se posicionar. Mas o ponto é simples. O debate já estava posto. Só não quiseram ouvir.
E aqui entra o lado mais humano de tudo isso. O homem também está perdido. Só que ninguém fala disso com honestidade. Ele cresceu num modelo em que mandava, dominava, controlava. De repente, esse modelo acabou. Só que ninguém ensinou esse homem a se reconstruir. E aí ele fica entre dois mundos. Não é mais o antigo, mas também não sabe ser o novo. E quando não encontra caminho, alguns escolhem o pior deles.
Mas que fique claro. Explicação não é justificativa. Nada, absolutamente nada, justifica um feminicídio. Não é ciúme, não é dor, não é abandono, não é orgulho ferido. É crime. É covardia. É falência emocional transformada em violência. Sergipe está chocado. E precisa estar mesmo. Porque quando a gente começa a naturalizar essas histórias como “mais um caso”, é porque já perdemos a sensibilidade. E perder a sensibilidade é o primeiro passo para perder tudo.
Talvez esteja na hora de uma conversa mais séria, mais profunda, menos performática. Sobre o que é amar de verdade. Sobre o que é liberdade. Sobre o que é respeitar o outro como indivíduo e não como extensão do próprio ego. Porque no fim das contas, a pergunta que fica é simples e cruel ao mesmo tempo. Quantas mulheres ainda vão precisar morrer até que alguns homens entendam que amor não se impõe, não se controla e, definitivamente, não se resolve no gatilho ou na faca.




