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Quando o ano acaba, mas a violência não tira férias

Este é o texto que eu não queria escrever em 2025. Nenhuma jornalista quer. Mas o jornalismo sério não escolhe conforto, escolhe responsabilidade. Escrevo com dor, com indignação e com luto. Em Aracaju, quatro mulheres tiveram suas vidas arrancadas pela violência misógina em poucos dias. Quatro mortes que não cabem em retrospectiva, nem em balanço de fim de ano. Estamos encerrando o ano. As pessoas fazem listas, promessas, dietas imaginárias e brindes otimistas. Enquanto isso, em Sergipe, mulheres estão sendo enterradas. Sem metáfora. Sem exagero. Literalmente enterradas.

Treze mulheres assassinadas por feminicídio em 2025. Treze. Não é um número. É um retrato. É um atestado de falência coletiva. É o Estado chegando atrasado, a sociedade fingindo surpresa e o agressor agindo com a tranquilidade de quem sabe que, historicamente, quase nada acontece. Em apenas três dias, quatro mulheres foram mortas. Quatro. Isso não é uma “onda”. É um colapso. É o tipo de dado que deveria suspender agendas, discursos protocolares e selfies institucionais. Mas seguimos. Sempre seguimos.

Luciene Silva morreu no dia 18 de dezembro, em Santa Maria. Ivonete Balbina de Oliveira foi assassinada a facadas no dia 26, em Nossa Senhora do Socorro. Allana Stefany foi encontrada morta dentro de casa no dia 28, no bairro Aruana. Yasmin Santos, 23 anos, morreu no dia 29, no bairro Cidade Nova. Quatro dias. Quatro mulheres. Quatro silêncios definitivos. Reparem no detalhe cruel: duas morreram dentro de casa. Aquele lugar vendido como “lar”, “porto seguro”, “refúgio”. Para muitas mulheres, a casa é apenas o CEP do risco. O agressor não arromba a porta. Ele tem a chave. E, frequentemente, o aval tácito de uma cultura que minimiza sinais, relativiza ameaças e romantiza controle como “ciúme”.

Não são casos isolados. Essa frase já virou um clichê porque é verdadeira. São episódios conectados por um mesmo fio condutor: a naturalização da violência contra a mulher. Quando o espanto dura menos que a manchete. Quando o luto vira rotina. Quando a pergunta não é mais “como isso aconteceu?”, mas “de novo?”. No meio desse cenário, surge a proposta do ex-deputado André Moura de apresentar um projeto de lei que prevê pena perpétua para homens que cometem feminicídio. A discussão é polêmica, jurídica, constitucional. Ótimo. Que seja. O que não dá é fingir que o debate é exagerado. Exagerado é enterrar 13 mulheres em um único estado em um ano.

A proposta não nasce do desejo de vingança, mas de proteção. É o grito de uma sociedade que cansou de contar corpos enquanto aguarda políticas públicas que funcionem antes do crime, não depois. Porque cadeia não ressuscita ninguém, mas impunidade enterra mais uma. E aqui vai a parte que alguns acham desconfortável, mas que o jornalismo sério precisa dizer: a omissão também mata. O silêncio também mata. A piada machista, o “ele é nervoso”, o “isso é briga de casal”, o “melhor não se meter”. Tudo isso constrói o caminho até o caixão.

Mulheres precisam denunciar. Sim. Denunciar salva vidas. Mas denunciar só funciona quando o sistema acredita nelas, protege, acolhe e age. Não adianta empurrar coragem para quem está em risco e oferecer burocracia como resposta. Esse texto não é sobre tristeza. É sobre indignação. Não é sobre o fim do ano. É sobre o fim de vidas interrompidas cedo demais. Não é sobre números. É sobre nomes que não deveriam estar em colunas policiais.

Enquanto o feminicídio continuar sendo tratado como rodapé de noticiário, ele seguirá acontecendo como manchete diária. E não adianta desejar um “feliz ano novo” enquanto mulheres seguem morrendo no velho roteiro de sempre. Chega. Não se silenciem. Não se omitam. Não normalizem. Violência contra a mulher é crime. E combatê-la não é pauta identitária. É obrigação moral. E, francamente, não deveria ser tão difícil escolher de que lado da história queremos estar.

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