Sabe aquela música que pergunta “quer andar de carro velho, amor”? Pois é. O problema é que o governo federal ouviu o refrão e respondeu com um carnê. A nova ideia que ronda Brasília é simples no discurso e indigesta na prática. Todo carro com mais de cinco anos vai ter que passar por vistoria técnica periódica. Provavelmente todo ano. Não é poesia. É protocolo. E não é aquela vistoria romântica de lápis no chassi e tchau. Aqui o amor acaba.
A coisa é completa. Freio, suspensão, pneu, iluminação, emissão de fumaça, barulho, itens de segurança. Um check-up digno de carro de Fórmula 1 aplicado naquele possante 2008 que já sobreviveu a buraco, lombada, combustível batizado e mecânico criativo. Se o carro falar, pede aposentadoria. Se não passar, pede socorro.
E aqui o tutorial vira alerta, quase sirene de patrulha. Se isso virar lei e o seu carro não passar na vistoria, não tem “volta depois”. Pode virar multa, pontos na CNH e retenção do veículo. Traduzindo para o português claro. Comprou um carro velho, muito louco, incrementado, mas agora vai ter que provar para o Estado que ele merece existir.
A justificativa oficial vem embalada em duas palavras mágicas. Segurança e meio ambiente. Sempre elas. Só que a realidade brasileira é outra. A gente sabe que tem carro rodando hoje que não passaria nem na vistoria do bom senso do próprio dono. Isso é fato. Mas também sabe que tem milhões de brasileiros que mantêm seus carros funcionando por necessidade, não por hobby, enquanto o governo transforma necessidade em oportunidade de arrecadação.
Aí surge a pergunta que ninguém em Brasília responde olhando no olho do contribuinte. Isso é política pública séria ou mais uma forma criativa de cobrança? Porque quando você soma o custo da vistoria, os reparos exigidos e o risco de multa, o resultado não é trânsito mais seguro. É imposto novo com nome bonito. E quem paga não é quem anda de Audi. É quem anda no carrão preferido das gatinhas, mas só até a próxima taxa.
E não adianta romantizar. Um belo domingo você enche o carro de moças, acha que é campeão no volante, mas quando dispara pelas ruas da cidade, a patrulha encosta do lado. A diferença é que agora a sirene não é só do trânsito. É do Estado dizendo que além do vexame, o carro pode ser recolhido. Nunca mais quero correr, diz a música. Nunca mais quero pagar, diz o brasileiro. Mas não adianta.
Antes que alguém grite que já virou lei, calma. Ainda não. O projeto passou por comissão e vai enfrentar outros degraus no Congresso. Nada está sacramentado. Ainda dá tempo de debate, pressão e bom senso. Pouco provável, mas possível.
Mas é impossível ignorar o pano de fundo. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, toda boa intenção costuma vir acompanhada de um custo adicional. Nunca falha. Quando você acha que acabou, aparece mais uma taxa no retrovisor, piscando mais que farol de carro velho à noite.
No fim das contas, fica a pergunta que realmente importa. Isso é mais segurança para o trânsito e para o meio ambiente ou é só mais um boleto criativo para o brasileiro pagar enquanto canta Amado Batista no rádio e tenta não chorar? Pensa nisso. Porque o carro pode até ser velho, mas a conta é sempre nova.




