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Quando o raio cai e Maju ri

Eu sou feminista. Daquelas chatas, incuráveis, sem possibilidade de reabilitação. Feminista que defende mulher quando a mulher está certa e puxa a orelha quando ela escorrega de salto alto no próprio discurso. Porque feminismo não é fã-clube. É bússola moral. E bússola, quando funciona, aponta o norte mesmo quando o vento sopra progressista.

Dito isso, vamos conversar seriamente, mas com humor porque ninguém é de ferro, sobre a Rede Globo e sobre Maju Coutinho. Sim, a mesma Maju que foi atacada de forma criminosa, racista, nojenta, covarde. Naquele momento, o Brasil civilizado fechou fileira. Eu fechei. A imprensa fechou. Quem não fechou deveria rever caráter e CPF moral. Racismo não se relativiza, não se contextualiza, não se “entende”. Combate-se. Ponto.

Mas a vida não é uma militância em linha reta, e o jornalismo muito menos. Nos episódios do “choro é livre” e, agora, do riso ao noticiar um raio que caiu sobre pessoas reais, Maju tropeçou. E a Globo deixou escorregar como se fosse um detalhe de figurino, não uma falha ética transmitida em HD.

Vamos ao raio. Eu estava lá. Não fisicamente, graças aos deuses da meteorologia, mas simbolicamente. Porque quando você ri, mesmo que aquele risinho nervoso, educado, quase tímido, ao falar de um acidente com feridos, você atinge mais gente do que o raio. Atinge a credibilidade. Atinge a empatia. Atinge aquele pacto silencioso entre quem informa e quem confia.

E não adianta dizer que foi espontâneo. Espontâneo também é bocejar, coçar o nariz ou revirar os olhos, e nem por isso essas reações são aceitáveis no altar sagrado do telejornalismo. Jornalismo não é reflexo patelar. É escolha consciente. A expressão corporal também escreve texto. E nesse caso, escreveu errado.

A Globo, essa velha senhora que sabe tudo sobre linguagem, enquadramento, silêncio dramático e trilha sonora emocional, fingiu não perceber. Talvez porque o raio caiu num ato organizado por Nikolas Ferreira. Talvez porque, quando a vítima tem endereço ideológico errado, a empatia entra em modo economia de energia. Mas aviso aos distraídos: raio não vota. Raio não segue deputado. Raio cai. E quando cai, a notícia pede seriedade, não ironia involuntária.

O mesmo roteiro vale para o “choro é livre”. Uma frase espirituosa? Talvez numa mesa de bar, depois do segundo vinho. Num jornal, em plena pandemia, virou símbolo de distância emocional. Jornalismo não precisa ser fofo, mas precisa ser humano. Dá para defender políticas públicas sem soar como quem manda o público engolir seco e não reclamar.

Aqui entra a parte que costuma irritar até aliados. Defender Maju quando ela foi atacada foi dever civilizatório. Criticá-la agora é coerência. Mulher em posição de poder comunicacional carrega responsabilidade ampliada. Não porque seja mulher, mas porque chegou onde chegou abrindo caminho para muitas outras. Cada deslize vira munição para quem adora dizer “está vendo como não sabem se comportar”.

A Rede Globo erra quando protege o gesto em vez de discutir o significado. Erra quando age como se linguagem fosse só texto lido e não corpo, rosto, entonação. Erra quando acha que pedir desculpas só é necessário quando a pressão vem do lado certo do espectro político.

Como vítima simbólica do raio, deixo meu depoimento final. Não quero linchamento virtual, nem cancelamento performático, nem nota protocolar escrita por advogado. Quero jornalismo melhor. Quero consciência de palco. Quero lembrar que humor, sarcasmo e ironia são ferramentas finas, não martelos para usar em qualquer situação. O choro pode até ser livre. O riso, naquele momento, foi desnecessário. E o jornalismo, quando escorrega, precisa admitir o tombo antes de seguir desfilando como se nada tivesse acontecido.

Uma resposta

  1. Embora fique evidente que a reação da jornalista está relacionada com a matéria sobre o ator, o sorriso no rosto durante a transição foi interpretado por internautas como uma resposta ao que aconteceu com os militantes e também um “desrespeito”.

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