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Quando o tapete vermelho vira tapete pago pelo contribuinte

A derrota de Wagner Moura no Oscar reacendeu um debate que o Brasil adora fingir que não existe. O ator brasileiro estava na corrida com O Agente Secreto, mas quem levou a estatueta de melhor ator foi Michael B. Jordan, premiado pela atuação em Pecadores. E aqui não tem muito mistério. O Oscar é uma premiação artística, não é assembleia de sindicato nem congresso partidário. A Academia vota, escolhe e pronto. Desta vez decidiu que o melhor da noite era Michael B. Jordan. A vida segue, o tapete vermelho foi enrolado e o brasileiro voltou para casa com a lembrança da indicação.

Mas a derrota trouxe à tona outra pergunta bem brasileira. Quanto dinheiro público está envolvido nessas produções que depois dizem representar o país no exterior. O cinema precisa de incentivo, claro que precisa. O problema começa quando o contribuinte olha para a tela e percebe que pagou o ingresso antes mesmo de o filme estrear. Entre Lei Rouanet, fundos culturais e outras linhas de incentivo, o dinheiro público entra pesado no roteiro. E aí surge a dúvida que sempre aparece na mesa do almoço de domingo. Esse filme foi feito para o público ou para convencer júri de festival europeu que adora um drama tropical cheio de discurso político.

A polêmica ficou ainda mais apimentada por uma frase famosa de Wagner Moura que circula até hoje nas redes sociais. Em defesa da Lei Rouanet ele disse que não dá para explicar a lei para quem não assimilou a Lei Áurea. A frase virou meme instantâneo no país onde o brasileiro tenta explicar o preço do arroz, do feijão e da gasolina todo mês. Para muita gente soou como aula de moral vinda de quem vive num circuito cultural muito distante da vida real do cidadão que paga imposto e tenta entender por que está financiando um filme que talvez nunca veja.

E existe ainda um detalhe curioso nesse debate. Grande parte das produções financiadas com dinheiro público acaba girando sempre em torno do mesmo cardápio ideológico. Ditadura, militância, denúncia política, manifesto cultural. Nada contra cinema político, ele sempre existiu e sempre vai existir. O problema é quando o público brasileiro quer dar risada, ver aventura, ver história leve e acaba recebendo um seminário cinematográfico de duas horas e meia sobre revolução social. O espectador compra pipoca e recebe palestra.

No fim das contas o Oscar deste ano deixou uma lição bem simples. Michael B. Jordan ganhou porque entregou uma atuação que a Academia considerou melhor. O cinema brasileiro continua talentoso e cheio de gente criativa. O que talvez precise mudar é a lógica que separa quem financia de quem assiste. Porque quando o público começa a sentir que está pagando a conta sem participar da festa, o aplauso vira silêncio. E nenhum filme, por mais ideológico que seja, sobrevive muito tempo sem plateia.

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