No dia 2 de março escrevi um texto no portal Fausto Leite com um título que já dizia muito sobre o que estava por vir. Tiffany na quadra, Érica na Comissão da Mulher. Quando a identidade vira regulamento e a biologia vira detalhe. Confesso que hesitei. Conversei com Faustinho antes de publicar. Ele pediu cautela. Pediu até que eu deixasse o tema quieto. Mas jornalista que tem inquietação no peito não consegue fingir que não está vendo o que está acontecendo.
Publiquei o texto mesmo assim. E o resultado foi quase um pequeno terremoto digital. Em poucos dias mais de 24 mil pessoas passaram pelo artigo. Recebi mensagens de mulheres que nunca tinham falado sobre o assunto. Algumas agradeceram. Outras discordaram com elegância. Algumas estavam com medo de se posicionar. Outras estavam francamente revoltadas. O curioso é que quase todas começaram suas mensagens com a mesma frase. Eu estou confusa.
Entre essas mensagens veio um convite inesperado. Uma palestra em Salvador no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Fui sem saber muito bem o que encontraria. Imaginava um auditório cheio. Na verdade, havia cerca de umas cinquenta, talvez menos mulheres. Um grupo pequeno, mas absolutamente intenso. Ali não havia discurso de rede social. Havia histórias reais.
Uma das participantes levantou a mão e fez um comentário que atravessou a sala como um raio silencioso. Ela disse que sempre acreditou que a geração dela já tinha nascido com os direitos das mulheres consolidados. Cresceu ouvindo que muitas batalhas já tinham sido vencidas pelas mães e avós. Mas agora sente algo estranho acontecendo, como se o próprio significado da palavra mulher estivesse sendo colocado em dúvida. E quando uma palavra tão essencial começa a perder contorno, a pessoa também passa a se perguntar onde exatamente está o seu lugar no mundo. O silêncio que tomou conta da sala naquele momento não foi de discordância. Foi de reflexão.
Outra participante trouxe à mesa um incômodo que vem aparecendo cada vez mais nas conversas entre mulheres. Ela disse que está cansada de ouvir a expressão “pessoas que gestam”, termo que foi utilizado pela deputada Erika Hilton, uma mulher trans, em debates públicos. Com muita calma, mas também com firmeza, ela explicou que não se reconhece nessa expressão. Eu sou mulher, disse ela. Tenho útero, tenho ciclo menstrual, tenho uma biologia que molda minha vida desde a adolescência. Para ela, substituir a palavra mulher por uma expressão neutra dá a sensação de que a experiência feminina está sendo diluída dentro de uma terminologia genérica. E naquele momento a sala voltou a ficar em silêncio, não por constrangimento, mas porque muitas ali pareciam refletir sobre a mesma inquietação.
No meio dessas conversas o debate inevitavelmente chegou à política. Algumas mulheres mencionaram a possibilidade de a deputada Erika Hilton, uma mulher trans, assumir a presidência da Comissão de Defesa da Mulher na Câmara dos Deputados. E ali houve algo curioso. Diferentemente do que costuma aparecer nas redes sociais, naquele pequeno auditório não surgiu divisão. Todas as mulheres presentes manifestaram desconforto com essa possibilidade. A avaliação delas era simples e direta. A Comissão de Defesa da Mulher foi criada para representar e discutir a realidade vivida por mulheres biológicas, suas experiências corporais, sociais e históricas. Para elas, colocar uma pessoa que não nasceu mulher à frente dessa pauta seria um deslocamento da própria finalidade do espaço. A pergunta que ecoou ali não foi de hostilidade, mas de lógica. Quem não vive biologicamente a experiência de ser mulher deveria liderar um espaço criado justamente para defender essa realidade.
O tema do esporte também apareceu. Uma atleta amadora falou sobre o caso de Lia Thomas, que saltou centenas de posições no ranking após competir na categoria feminina. Outra lembrou da jogadora Tifanny Abreu e da discussão que tomou conta do voleibol brasileiro. Uma delas resumiu com humor ácido. Hormônio não diminui caixa torácica nem largura de ombro.
À medida que a conversa avançava, o clima foi ficando mais denso, não de raiva, mas de sentimento. Em determinado momento uma das jovens falou algo que parecia representar o que muitas ali estavam sentindo, embora poucas tivessem colocado em palavras. Ela disse que o problema não era hostilidade contra ninguém, nem desejo de excluir pessoas. O que havia era uma sensação crescente de deslocamento. Quando tudo começa a ser redefinido e categorias femininas passam a ser tratadas como espaços totalmente abertos, algumas mulheres passam a se perguntar onde ainda existe um território que represente especificamente a experiência feminina que elas vivem no próprio corpo e na própria história. A fala não foi recebida com aplausos nem com protestos. Foi recebida com olhares de reconhecimento. Porque muitas pareciam estar pensando exatamente a mesma coisa.
Foi ali que lembrei da carta de Clarice Lispector para sua irmã, que publiquei no portal ontem. Clarice dizia que ninguém consegue viver uma vida que não parece com quem realmente é. Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com a nossa geração. Estamos tentando reorganizar palavras básicas da realidade sem entender o impacto psicológico disso.
E no meio desse debate apareceu também uma frase de cultura pop que parece simples, mas é cheia de ironia. Na música de Ana Carolina ela canta com leveza quase provocadora: “eu gosto de mulher, eu gosto de mulher”. A frase soa divertida, mas esconde uma verdade profunda. O universo feminino sempre foi complexo, intenso, múltiplo e cheio de nuances que não cabem em slogans.
Vou ser muito franca com vocês, mesmo sabendo que em tempos de internet qualquer frase pode virar um tribunal instantâneo. Levantar a discussão sobre espaços femininos não significa hostilidade contra ninguém. Significa apenas reconhecer que existem experiências específicas da vida feminina que nascem do próprio corpo, da biologia, da história e das lutas que as mulheres travaram ao longo de décadas. O respeito às pessoas trans é uma premissa básica de qualquer sociedade civilizada. Mas respeito não precisa vir acompanhado de silêncio absoluto sobre diferenças reais. Debate honesto não apaga direitos. Pelo contrário, é justamente o que permite que diferentes grupos convivam com dignidade e clareza.
Talvez a pergunta mais importante neste momento não seja quem está certo ou errado. A pergunta que realmente me inquieta é até que ponto uma sociedade pode começar a redefinir palavras tão básicas sem provocar confusão emocional nas novas gerações. Quando conceitos fundamentais começam a perder contorno, algo também se perde dentro das pessoas. Palavras como mulher, corpo, maternidade e identidade não são apenas termos acadêmicos, são parte da forma como cada ser humano entende o próprio lugar no mundo. E quando essas referências ficam turvas, muita gente começa a se sentir deslocada dentro da própria história.
Por isso escrevo este texto não apenas como jornalista, mas como mulher. Quero ouvir vocês. Quero saber o que vocês pensam e o que vocês sentem diante de tantas mudanças acontecendo ao mesmo tempo. Comentem, concordem, discordem, tragam suas experiências. Porque nenhuma sociedade amadurece no silêncio. E eu, sinceramente, não gostaria de sentir que estou sozinha neste oceano de transformações discutindo a dignidade da mulher. Vamos conversar. Talvez muitas pessoas estejam fazendo exatamente as mesmas perguntas, apenas ainda não tiveram coragem de dizê-las em voz alta.




