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Que país é esse?: o Brasil dos dois pesos e duas medidas

Olá, meus lindos! Preciso dividir uma novidade com vocês. Minha última matéria sobre a médica Daniele foi um sucesso absoluto, daquelas coisas que nem eu, com meus anos de estrada, poderia imaginar. Até o Faustinho, meu editor rabugento (que normalmente só me liga para reclamar de atraso), me telefonou com a voz embargada de emoção: “Bia, você bombou! Sua matéria foi a mais lida do Portal em quatro meses. Quase 1 milhão e meio de acessos!”

Sim, vocês leram certoquase um milhão e meio de pessoas. É como se eu tivesse enchido o Maracanã onze vezes seguidas só com leitores atentos, curiosos, debatendo, elogiando e, claro, criticando. Para uma simples avó de primeira viagem que ainda se lembra do barulho das máquinas de escrever ver tanta gente conectada ao meu texto é, confesso, emocionante. Puts!

Pois é. Eu aqui, no interior da Bahia, dividida entre a fralda da minha neta Maitê e o café coado na hora, virei assunto nacional. Não vou negar: fiquei feliz. Quem não ficaria? A vaidade da gente é danada, e eu, que já passei dos cinquenta (não insista, idade de mulher é segredo de Estado), senti o ego mais brilhante que sapato de laca.

Mas, como tudo na vida, junto com os aplausos vieram as pedradas. Fui chamada de machista, bolsonarista, quase me colocaram no paredão do Big Brother. Teve até quem mandou eu “ir para aquele lugar” e … olhem foi pela segunda vez (risos). O problema é que o lugar sugerido não era Paris… que pena!

Meu ponto nunca foi a médica em si, mas a encenação da Justiça. No tribunal de Aracaju, Daniele entrou como estrela de passarela, cercada de advogados como staff de celebridade, enquanto seus cúmplices pobres surgiram algemados e uniformizados, numa cena que mais parecia sátira, mas era apenas o retrato cru da desigualdade brasileira.

E essa novela não se passa apenas em Sergipe. Basta lembrar quando Lula, então preso, foi liberado para o velório do neto. Saiu de helicóptero, de terno, tratado pela imprensa como herói shakespeariano: “lá vai o ex-presidente, firme, com semblante carregado, encontrar a família.” Uma crônica romântica de dor e poder.

Agora, corte seco: entra em cena Lucas Brasileiro, jovem advogado preso nos eventos de 8 de janeiro. Nada de helicóptero, nada de terno. Foi levado algemado, de uniforme simples, cercado por homens armados até os dentes, como se fosse vilão de filme de ação. No roteiro, nenhum traço de drama humano, só a encenação grotesca do perigo inventado.

Percebem a diferença de figurino? Lula de protagonista trágico, Daniele de diva do tribunal, e Lucas e os cúmplices de Dani de bandidos de aluguel. O mundo jurídico brasileiro tem uma mania curiosa: além de julgar, também escala elenco. Aos ricos, papéis de protagonistas glamourosos. Aos pobres, o papel de figurantesalgemados.

E eu, que sou do tempo da Legião Urbana, não consigo deixar de ouvir na cabeça aqueles versos que marcaram minha juventude: “… Nas favelas, no senado … sujeira pra todo lado ….  ninguém respeita a constituição mas todos acreditam no futuro da nação …  e me pergunto se não é exatamente isso que parte da sociedade espera, o espetáculo da tragédia, desde que o sangue não respingue nos tapetes caros. “… que país é esse?”.

No fim, o espetáculo deixa uma pergunta no ar, com a melancolia de um romance mal resolvido: até quando vamos aceitar que a Justiça troque a venda clássica por lentes Ray-Ban? Até quando veremos helicópteros para uns e algemas para outros, vestidos sob medida para uns e uniformes de presidiários desbotados para tantos?

Enquanto não respondemos, o show continua. O problema é que, nessa peça, a tragédia é real, e nós seguimos como plateia involuntária, rindo do absurdo para não chorar de indignação. “… que país é esse?”.

Vide: https://faustoleite.com.br/a-passarela-da-justica-quando-o-tribunal-vira-desfile-e-o-crime-espetaculo/

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