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Quem só semeia dúvida não informa: confunde

Há uma moda perigosa no rádio político brasileiro, e Sergipe, infelizmente, entrou nesse baile de máscaras com entusiasmo de quem descobriu um brinquedo novo: a notícia em forma de pergunta sem resposta. Dois adversários se encontram, tomam um café, trocam amenidades, falam de eleição, de futebol, de família ou até do preço do café, e logo aparece o comunicador com o microfone em punho, a sobrancelha arqueada e o suspense de novela das nove: “Será que houve traição?”, “Será que fulano mudou de lado?”, “Será que beltrano já está fechado com o grupo A ou com o grupo B?”. A pergunta, em si, é legítima. O problema é quando ela substitui a apuração. A dúvida jornalística é ponto de partida, não ponto de chegada. O jornalista pode e deve perguntar. Mas depois precisa trabalhar. Precisa ligar, ouvir, conferir, checar agenda, buscar fonte, confrontar versões, mostrar o que é fato, o que é hipótese, o que é bastidor e o que é pura espuma de WhatsApp com cheiro de maldade requentada. A Folha, em seu projeto editorial, declara compromisso com confirmar a veracidade da notícia antes da publicação, abordar assuntos com disposição crítica, cultivar pluralidade e garantir contraditório quando publicar acusação. Portanto, transformar desconfiança em produto final pode até render audiência, comentário, corte de vídeo e barulho no grupo da política, mas não necessariamente rende jornalismo.

Um caso recente no rádio político sergipano ajuda a ilustrar esse fenômeno, sem que isso autorize linchamento pessoal, exposição individualizada ou julgamento moral sem prova. Trata-se de uma prática cada vez mais comum: chamadas e comentários construídos no terreno da dúvida política, com perguntas sobre possíveis renúncias, alianças, traições ou mudanças de lado, sem que o público receba, na mesma proporção, a base factual necessária para compreender o assunto. A fórmula prende a atenção porque joga o ouvinte dentro de uma sala escura e entrega uma lanterna sem pilha. Esse formato pode ser aceitável quando vem acompanhado de apuração sólida: quem se encontrou, onde, quando, por quanto tempo, quem confirmou, quem negou, qual o contexto político da relação, qual a consequência possível e qual o limite real da informação disponível. Sem isso, vira truque de palco. O comunicador pergunta, a audiência imagina, o grupo político adversário espalha, o aliado se irrita, o eleitor fica confuso e o fato verdadeiro desaparece no nevoeiro. É o velho “não estou afirmando, estou apenas perguntando”, que no jornalismo sério é uma bengala fraca, mas no palanque disfarçado de microfone vira foguete.

A escola brasileira de jornalismo, quando levada a sério, não ensina o profissional a ser fabricante de interrogações eternas. Ensina a ser mediador qualificado da realidade. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros afirma que a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação, que a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e que o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato, mediante precisa apuração e correta divulgação. O Estadão, no seu Manual de Redação e Estilo, valoriza o “português objetivo e correto, mas sem pedantismos”, além de jornalismo investigativo, pluralista, analítico, interpretativo e voltado ao interesse do cidadão. O Globo, em seus princípios editoriais, trabalha com a tríade isenção, correção e agilidade, além de lealdade com a notícia e rejeição ao sensacionalismo. A síntese é simples: perguntar é permitido; insinuar sem concluir é perigoso; levantar suspeita sem base é irresponsável; deixar o ouvinte perdido de propósito é transformar jornalismo em cassino narrativo. O público entra com a boa-fé, o comunicador gira a roleta e, no fim, quem paga a conta é a verdade.

Em Sergipe, esse método produz um estrago específico: ele transforma a política local, que já é pequena, intensa e cheia de parentescos, encontros e reaproximações, numa máquina de suspeição permanente. Aqui, dois adversários se cumprimentam numa missa e já nasce uma tese de aliança. Dois deputados conversam num corredor e já aparece a manchete invisível: “tem coisa aí”. Um ex-prefeito cruza com um governador e meia cidade jura que houve pacto, traição, acordo, senha, bilhete, abraço secreto e ata lavrada no guardanapo. É engraçado até a página dois. Depois vira problema democrático. O eleitor deixa de receber informação e passa a consumir ansiedade. O ouvinte não sabe mais se houve reunião, conversa informal, aliança real ou apenas a velha cordialidade de quem vive no mesmo tabuleiro político. Pior: quando a dúvida é plantada sem resposta, cada grupo escolhe a versão que lhe convém. A notícia deixa de ser ponte e vira trincheira. E aí o comunicador, que deveria iluminar a praça, passa a vender neblina em horário nobre, com vinheta, patrocinador e pose de investigador.

O jornalismo de verdade não tem medo da pergunta, mas tem vergonha da pergunta vazia. A pergunta boa abre caminho para a resposta. A pergunta ruim abre caminho para a fofoca. Se um radialista quer saber se houve traição, que apure. Se quer saber se houve acordo, que diga quem confirmou. Se quer saber se houve conversa política, que detalhe o contexto. Se não conseguiu confirmar, que diga com honestidade: “não há prova até agora”. Esse simples gesto separa o jornalista do animador de boato. A Folha exigiria verificação e contraditório. O Estadão cobraria precisão e sobriedade. O Globo pediria correção, isenção e cuidado contra o sensacionalismo. O Código de Ética exigiria compromisso com a verdade e apuração precisa. Portanto, a crítica que precisa ser feita a parte de boa parte da imprensa política sergipana não é contra a opinião, nem contra a ironia, nem contra o estilo popular. É contra a dúvida usada como arma, a insinuação vendida como análise e o suspense tratado como notícia. Porque jornalismo não é deixar o povo perguntando para sempre. Jornalismo é perguntar melhor que o povo, apurar mais que o boato e entregar ao ouvinte aquilo que ele merece: fato, contexto, resposta e responsabilidade.

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