Em Nossa Senhora do Socorro, até os mortos entraram na fila da política. O contrato milionário firmado com o cemitério privado La Pace deixou de ser apenas uma denúncia de oposição e virou caso formal de Ministério Público e Tribunal de Contas. Quando o MPE/SE recomenda a rescisão imediata de um contrato superior a R$ 5 milhões de reais e o TCE, sob relatoria do conselheiro José Carlos Felizola, abre apuração com base em falhas técnicas, ausência de estudos conclusivos e possível conflito de interesses, já não se trata de narrativa política. Trata-se de cheiro forte de improbidade administrativa. E convenhamos, quando até cemitério começa a feder politicamente, o problema já passou da superfície.
O prefeito Samuel Carvalho parece ter confundido gestão pública com pacote turístico. Sabia que a bomba estava armada, que o Portal Fausto Leite já havia denunciado desde janeiro, que vereadores como Luiz Paulo do Panzuá e Charlys de Gel vinham apontando documentos, nomes e vínculos perigosos, e mesmo assim preferiu a estratégia clássica do governante em apuros: pegar a mala, reunir a família e sair de férias. Enquanto isso, quem ficou tentando segurar o caixão político foi o vice-prefeito Elmo Paixão, tentando explicar o inexplicável. Porque justificar um contrato dessa magnitude com tantas inconsistências é quase pedir ao povo que assine o próprio atestado de ingenuidade.
O ponto mais grave e mais indigesto está justamente onde mora o conflito. O sócio majoritário do cemitério é irmão do atual secretário municipal de Infraestrutura e Urbanismo, Rosman Pereira, que anteriormente integrou o próprio grupo empresarial e ainda é responsável direto pela estrutura dos cemitérios públicos do município. Traduzindo para o português que o povo entende: quem cuida dos cemitérios públicos também gira em torno do privado que passou a receber milhões. Isso não é coincidência administrativa, isso é roteiro de improbidade com trilha sonora de sirene. E quando os cemitérios públicos aparecem interditados, abandonados e tomados pelo mato, enquanto o privado floresce com contrato robusto, a pergunta não é se há problema. A pergunta é há quanto tempo isso vinha acontecendo.
O MP foi cirúrgico ao apontar ausência de estudos técnicos conclusivos, falta de comprovação da vantajosidade econômica, inexistência de ato formal de interdição dos cemitérios públicos e até ausência de comprovação de obras de adequação que já possuíam contrato próprio. Em resumo: pagou-se caro por uma solução privada sem provar que o problema público exigia aquilo. É como contratar bufê de luxo porque ninguém quis lavar a louça de casa. A Controladoria foi chamada, a Câmara foi provocada e o Tribunal de Contas entrou no circuito. Quando tanta instituição séria bate na mesma porta, não é perseguição. É procedimento.
Aqui cabe aplauso institucional ao Ministério Público do Estado de Sergipe, especialmente à 2ª Promotoria de Justiça de Nossa Senhora do Socorro, que fez o que se espera de uma instituição republicana: recomendou, fundamentou e agiu. Também merece reconhecimento o conselheiro José Carlos Felizola, que no TCE não tratou o caso como fofoca de corredor, mas como possível dano ao erário. Em tempos em que muita gente prefere o silêncio confortável, é importante registrar quem decidiu enfrentar o barulho necessário. Fiscalizar não é atacar governo. Fiscalizar é impedir que a prefeitura vire balcão de negócios com placa oficial.
Também é justo reconhecer o papel dos vereadores Luiz Paulo do Panzuá e Charlys de Gel, os mesmos que alguns aliados de Samuel tentaram ridicularizar chamando de Patati e Patatá, numa tentativa infantil de transformar denúncia séria em piada de corredor de prefeitura. O problema é que, dessa vez, os “palhaços” chegaram com documento na mão, protocolo assinado e denúncia que saiu do plenário direto para o Ministério Público e para o Tribunal de Contas. Enquanto uns faziam graça, eles estavam mostrando contrato, conflito de interesse e possível improbidade administrativa. No fim, Patati e Patatá colocaram foi o circo inteiro da gestão no palco da Justiça. E agora o riso mudou de lado. Porque quando a investigação começa, a maquiagem derrete, a fantasia cai e o picadeiro vira sala de audiência.
Agora o povo de Socorro espera mais do que recomendação, espera resultado de verdade. Espera o cancelamento definitivo desse contrato, espera responsabilização real e espera, sim, a abertura de uma ação de improbidade administrativa caso tudo isso se confirme integralmente. Mas espera também algo ainda mais humano e mais urgente: que os cemitérios públicos do município sejam reconstruídos, ampliados e tratados com dignidade, para que as famílias possam sepultar seus entes perto de casa, perto da própria história, e não sejam empurradas para um sistema onde o luto vem com prazo de validade e boleto na mão. Ninguém aceita ver pai, mãe, avô ou filho enterrado com prazo de três anos para depois correr atrás de ossos como se memória fosse contrato temporário. Não basta rescindir e fingir que nada aconteceu. É preciso apurar quem autorizou, quem se beneficiou e quem fechou os olhos. O que está em jogo não é apenas um cemitério, é a dignidade da administração pública e o respeito ao último adeus de uma família. E se a ética foi enterrada com recibo assinado, está na hora de a Justiça começar a escavar ouviu pastor Samuel Carvalho?




