A campanha de Sargento Vieira, candidato a deputado federal pelo PL, recebeu R$ 503 mil até a prestação parcial apresentada à Justiça Eleitoral. Foram R$ 500 mil do Fundo Eleitoral e apenas R$ 3 mil de doação privada. Em linguagem de quartel: o soldo dessa tropa eleitoral saiu quase inteiro do bolso do contribuinte. Portanto, é hora de entrar em forma, alinhar o pelotão das notas fiscais e apresentar continência à transparência. Dinheiro público não pode ficar marchando em círculos até o eleitor ficar tonto.
O primeiro número que grita “sentido!” na planilha é o aluguel de R$ 40 mil de um imóvel na Rua Paraíba, nº 906, no Novo Paraíso, destinado ao comitê de Sargento Vieira. O pagamento já foi efetuado, mas a base aberta não esclarece metragem, conservação, equipamentos ou qual operação especial justificaria o preço. Para se ter uma comparação militar de verdade, o prédio provisório que abriga todo o Quartel do Comando Geral da PMSE, na Travessa Sargento Duque, nº 85, foi contratado por R$ 120.311,60 mensais, depois reajustados para cerca de R$ 125,3 mil. É evidente que os imóveis têm dimensões, estruturas e finalidades diferentes, mas a comparação deixa a tropa da calculadora em alerta: por R$ 40 mil em menos de dois meses, o comitê de Vieira custa uma fração respeitável do aluguel de um comando inteiro da Polícia Militar. Sargento, assim o eleitor começa a desconfiar que o comitê não veio apenas com salas e cadeiras, mas com guarita, alojamento, pista de treinamento e talvez um general escondido no quintal. Antes que a conta seja promovida a coronel, é melhor colocar contrato, metragem e avaliação em posição de sentido.
A comparação com anúncios da região coloca a calculadora em posição de combate. No Siqueira Campos, casas e pequenos pontos comerciais aparecem entre R$ 850 e R$ 2.300 mensais. Na própria Rua Paraíba, existe anúncio de um prédio com 500 metros quadrados por R$ 4.500 ao mês. Até apartamentos com vista para o mar de Ipanema são oferecidos entre R$ 15 mil e R$ 25 mil mensais. É claro que imóveis diferentes não podem ser comparados como recrutas no mesmo pelotão. Mas R$ 40 mil exigem metragem, contrato, avaliação, benfeitorias e uma explicação que fique em posição de sentido sem tremer o joelho.
Depois surge a viatura de luxo da operação: uma Ford Ranger 2021/2022, placa RDM8H10, contratada por R$ 18.500. A campanha ainda contratou separadamente um motorista por R$ 4.800, mas no lançamento desse serviço registrou a placa como EDM8H10. Pode ter sido apenas um tiro de digitação que saiu pela culatra. O problema é que prestação de contas com dinheiro público não pode fazer ordem unida com as letras da placa. Até 15 de setembro, a Ranger estava contratada, embora ainda não aparecesse entre as despesas pagas. O carro pode não ter recebido, mas a dúvida já percorreu o estado com tanque cheio.
Também apareceu a história de que a placa seria de um Ford Ka 2009, mas isso não foi confirmado pela base oficial consultada. O documento eleitoral descreve uma Ranger, enquanto o Ford Ka entrou no enredo por meio de denúncia encaminhada por terceiros. Para encerrar essa patrulha motorizada, basta apresentar o CRLV, o contrato, o período da locação, a quilometragem, o seguro e a comprovação de uso. Sargento, é hora de colocar a documentação em forma, mandar a dúvida descansar e explicar se a campanha alugou uma Ranger ou se um Ford Ka apareceu fantasiado de blindado.
O Ministério Público Eleitoral e a Justiça Eleitoral precisam fiscalizar esses contratos com binóculo, farol alto e apito de comandante. As despesas contratadas somam R$ 506.848,51, superando em R$ 3.848,51 os recursos arrecadados até aquela prestação parcial. Isso, sozinho, não comprova irregularidade, mas coloca a contabilidade para pagar dez flexões e apresentar explicações. O Fundo Eleitoral sai do Orçamento da União, ou seja, do bolso coletivo. Se o povo paga o quartel general, a caminhonete e o motorista, pode perguntar quem recebeu, o que entregou e por que custou tanto. Transparência não é favor nem medalha no peito. É regra do serviço, e o eleitor está fazendo a chamada para conferir quem responde “presente”.




