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“Se for chorar, faz um áudio.”: respondeu Samuel Carvalho

Há frases que dizem muito mais sobre quem as pronuncia do que sobre a situação que pretendem comentar. Foi o caso da resposta do prefeito de Nossa Senhora do Socorro, Samuel Carvalho, ao editorial publicado por este portal. Diante de uma crítica contundente, porém fundamentada, o prefeito preferiu desdenhar: “Se for chorar, faz um áudio.” A frase, saída direto dos trends do TikTok, pode até render curtidas entre os mais jovens, mas revela uma face preocupante da gestão: a superficialidade com que se trata o debate público.

Curioso que a frase venha justamente de quem mais chorou em praça pública nos últimos anos. Durante a campanha, foi flagrado em lágrimas nos palanques. Quando o então aliado Padre Inaldo pediu para que ele descesse do palco, Samuel sentou no chão e chorou, um gesto que, à época, indignou inclusive parte do eleitorado evangélico. Chorou na posse. Chorou ao lado da esposa em agradecimentos públicos. E, mais recentemente, chorou nos braços do governador Fábio Mitidieri ao falar das obras no Guajará. Nada contra o choro, ele é humano, legítimo, até necessário. Mas torna-se frágil quando usado como arma emocional na conquista de votos e, depois, motivo de escárnio para desqualificar críticas institucionais.

A resposta do prefeito a um editorial sério, publicado por um veículo de imprensa comprometido com a análise dos fatos, não foi apenas infeliz. Foi reveladora. Mostrou um governo que não sabe receber críticas, que responde com meme onde deveria haver argumento, que debocha onde deveria prestar contas. Governar uma cidade como Socorro não é administrar um perfil de redes sociais. É liderar pessoas, equipes, projetos, sonhos. E isso exige escuta, humildade e seriedade, especialmente diante de uma população que, como dissemos, está exausta de poses e vazia de ações.

O que dói na gestão Samuel Carvalho não é apenas a ausência de comando. É a presença constante da encenação. O que se vê em Socorro é uma espécie de república de improviso, onde secretários governam por conta própria, candidatos se multiplicam como personagens de reality político e o eleitorado assiste atônito ao que parece mais um episódio de comédia improvisada do que uma administração pública. A crítica não é pessoal, é institucional. E se incomoda tanto assim, talvez seja porque acertou em cheio.

Não é papel da imprensa poupar gestores públicos de cobranças. É, sim, seu dever questionar, investigar e apontar rumos. Um prefeito que responde com deboche demonstra não apenas despreparo, mas desconexão com o que se espera de um líder. Espera-se que, diante de uma crítica, ele assuma seus erros, defenda suas escolhas ou, no mínimo, apresente propostas de correção. Mas jamais que fuja da responsabilidade escudando-se em frases feitas.

A cidade está pedindo socorro. E não é com hashtag. É com obras, com ordem, com presença. Não se governa com filtro, nem com ironia, nem com lágrimas performadas. Se o choro é verdadeiro, que venha acompanhado de resultados. Se não for para governar, que ao menos não se atrapalhe tanto ao tentar responder. Porque, prefeito, a gestão pode até estar fora dos trilhos, mas o respeito à crítica e à imprensa não pode sair dos trilhos também. Segue abaixo alguns recortes do editorial:

Recorte 1 – “Se for chorar, faz um áudio” – Ah, prefeito, com todo respeito ao seu feed… Essa frasezinha de TikTok pode até funcionar em um reels com maquiagem borrada e filtro de drama, mas não quando se trata de responder à imprensa séria. Especialmente a um editorial que critica a gestão, ou melhor, a ausência dela. Governar não é influenciar. Não é vídeo de humor, nem ironia vazia. É responsabilidade pública. Responder uma crítica jornalística com um meme de internet é como trocar o regimento interno por figurinhas no WhatsApp. Prefeito, com todo respeito: se for governar, faça um plano. Se for responder à imprensa, faça com decoro. Se quiser viralizar, aí sim… faz um áudio.

Recorte 2 – Quem chora é ele – “Durante a campanha chorou no palanque, chorou sentado no chão, chorou na posse, chorou no Sergipe Mais.” A ironia é gritante, mas o choro… é real. E documentado. O mesmo gestor que desdenha do choro dos outros é quem mais chorou na praça pública. Teve choro no chão, no palanque, no altar, no gabinete e até nos braços do governador. A pergunta que fica: por que quando o choro é do prefeito, é sinal de sensibilidade; mas quando é do povo, é frescura? Chorar, prefeito, é humano. Mas debochar de quem denuncia os descaminhos da gestão é desumano e profundamente contraditório com sua própria trajetória lacrimosa. Governar com empatia é ouvir até quem está chorando. Principalmente quando é a cidade inteira.

Recorte 3 – Influencer de gabinete –“Acorda, prefeito: é hora de largar o ring light e pegar no batente.” Esse trecho do editorial acerta em cheio no ponto cego da gestão Samuel: parece mais preocupado em performar do que governar. A pose virou política, o like virou legado, e a legenda substituiu a liderança. É compreensível que um prefeito jovem queira estar conectado com os novos tempos. Mas ser “digital” não justifica ser superficial. E muito menos despreparado. Falta plano, falta comando, falta um pouco menos de selfie e um pouco mais de CPF com serviço prestado, até poque seu salário é maior ou está entre os maiores do Estado.

Recorte 4 – A república do improviso – “Socorro virou uma espécie de república parlamentarista de fachada, cada secretário com seu próprio reinado.” Quando ninguém manda, qualquer um se acha rei. O descontrole administrativo descrito no editorial é mais preocupante do que engraçado. A falta de comando central está custando caro à cidade e tudo isso não se resolve com stories ou frase feita. Se fosse uma série, seria tragicômica. Mas é a vida real de mais de 180 mil pessoas. O improviso na política tem prazo de validade. E, ao que tudo indica, o do prefeito Samuel está vencendo antes mesmo do primeiro capítulo acabar.

Conclusão – A crítica não é pessoal, é institucional – Quando uma gestão responde à imprensa com deboche, sinaliza algo muito maior: fragilidade política, despreparo emocional e ausência de rumo administrativo. A frase-tapa de TikTok revela a dor que doeu porque a crítica acertou. Se Socorro está pedindo socorro, como grita o editorial, a última coisa que precisa é de um prefeito que usa o feed para rebater manchetes e ignora o buraco da rua. É hora de trocar o drama de campanha pelo drama da realidade. E, se quiser chorar, prefeito, chore. Mas chore com ação e de preferência, com plano de governo na outra mão.

Leia: https://faustoleite.com.br/editorial-socorro-esta-pedindo-socorro/

Uma resposta

  1. Excelente texto (construído com palavras ricas com significados diretos e necessários)

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