Na votação que reduziu os prazos da Ficha Limpa, Sergipe mostrou sua cara no Senado. De um lado, Laércio Oliveira e Rogério Carvalho, que acharam ótimo dar desconto na punição de políticos cassados, como se ética fosse produto de liquidação. Do outro, Alessandro Vieira, solitário e firme, dizendo não ao retrocesso. Foi o único dos três a erguer a voz contra a manobra que transforma o castigo em prêmio.
Laércio, empresário de longa data, votou “sim” como quem assina contrato de negócios: rápido, sem hesitar, quase oferecendo brinde no pacote. Para ele, reduzir o tempo de inelegibilidade pareceu uma oportunidade comercial, compre hoje a sua cassação e volte mais cedo para concorrer. Já Rogério Carvalho, médico de formação e político calejado, também embarcou na mesma canoa. Se na medicina o correto é manter o paciente em observação até a cura, no Senado sua receita foi outra: dar alta antecipada para a doença da impunidade. Ambos, cada um a seu jeito, ajudaram a empurrar o Brasil para mais perto da lógica do “errou, mas já pode voltar”.
E foi nesse cenário que Alessandro Vieira brilhou. Delegado, investigador e senador que não tem medo de nadar contra a maré, foi o único de Sergipe a votar contra a redução da Ficha Limpa. Não cedeu a pressões nem a discursos de conveniência. Enquanto os colegas aplaudiam a modernização da lei como se fosse avanço civilizatório, Vieira lembrou que o espírito da norma sempre foi afastar da política quem se sujou e por tempo suficiente para que o eleitorado respirasse. Seu “não” foi mais do que um voto: foi uma declaração de princípios, uma raridade num plenário que costuma preferir o atalho.
Assim, Sergipe entregou ao Brasil uma fotografia emblemática: dois senadores dispostos a flexibilizar a moralidade e um disposto a defendê-la. Laércio e Rogério saíram da sessão com a marca de quem patrocinou o desconto da ética; Alessandro saiu como a prova de que ainda existe resistência contra o cinismo institucionalizado. No fim, se a política fosse série de espionagem, os créditos seriam claros: dois cúmplices da impunidade e um herói solitário, que insistiu em manter sua ficha tão limpa quanto o eleitor sergipano merece.




