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Sergipe no divã: o governo ri no outdoor, mas a economia chora no balcão

Sergipe virou uma comédia fiscal com roteiro de drama econômico. O governo Fábio Mitidieri diz que o Estado vai bem, que tem caixa, que tem arrecadação recorde, que tem obra, que te água na torneira, que tem futuro e que está tudo sob controle. Bonito no papel. Lindo no release. Mas, na rua, o enredo é outro. Pequenos, médios e grandes empresários estão sendo espremidos por juros altos, carga tributária pesada, consumo fraco, crédito caro e um ambiente econômico que exige fôlego de maratonista e fé de romeiro. O comércio sente. A indústria sente. O trabalhador sente. Só a propaganda oficial não sente nada. 

A Nortista e a Sisa entram nessa história como símbolos de um Sergipe que já produziu, empregou, movimentou famílias e ajudou a construir a memória econômica do Estado. Empresas históricas não são apenas CNPJ. São pedaços da vida de trabalhadores, bairros, fornecedores, caminhoneiros, costureiras, técnicos, vendedores e famílias inteiras. A antiga Sergipe Industrial carrega mais de cem anos de história. É bonito, elegante, quase uma cena de novela das seis com visita imperial e fotografia envelhecida na parede. Mas visita do Império não paga folha. Tradição não deposita FGTS. Brasão antigo não segura emprego quando o caixa está respirando por aparelhos.

O problema é maior do que uma empresa, um setor ou uma crise isolada. Quantas lojas já fecharam as portas em Aracaju? Quantos comerciantes do centro estão sobrevivendo no fiado emocional? Quantos empresários pagam imposto parcelado, fornecedor atrasado e funcionário na base da oração? Quantos estão sorrindo para o cliente de dia e fazendo conta desesperada de noite? O governo deveria olhar para isso com seriedade, não com legenda de Instagram. Empresário não é inimigo. Empresário gera emprego, renda, consumo e ICMS. Sem empresa viva, não existe arrecadação forte. Sem arrecadação forte, não existe Estado sustentável. Sem Estado sustentável, sobra empréstimo. E empréstimo, meu amigo, não é presente de São João. É boleto vestido de bandeirola.

É aqui que a frase entra como tapa na mesa: Sergipe nunca chegará a decisões diferentes usando os mesmos gestos, os mesmos métodos e as mesmas formas de administração. Não adianta trocar a trilha sonora do vídeo institucional se o roteiro continua velho. Não adianta chamar de modernização aquilo que continua preso ao velho hábito de anunciar empréstimo como se fosse milagre, obra como se fosse redenção e propaganda como se fosse política econômica. Governar não é repetir gesto bonito para câmera. Governar é mudar método, enfrentar problema, sentar com quem produz e agir antes que a crise vire demissão, porta fechada e cidade esvaziada.

É aí que entra a matemática criativa do governo Fábio Mitidieri. Se Sergipe está tão bem, por que tanto apetite por empréstimo? Se o caixa está tão saudável, por que empurrar conta para o futuro? Se há tanta solidez fiscal, por que o setor produtivo parece pedir oxigênio na porta do Palácio? Empréstimo é fácil de anunciar. Difícil é pagar. E quem paga não é o vídeo bonito, nem a trilha emocionante, nem a foto de capacete em obra. Quem paga é o povo, o servidor, o consumidor e o empresário que já está sendo espremido como limão em feira de sábado.

Freud explicaria isso com certa elegância: quando a realidade fica reprimida demais, ela volta em forma de chiste. Em Sergipe, a piada virou diagnóstico. O governo fala em desenvolvimento; o comerciante mostra o boleto. O governo fala em futuro; o empresário pergunta pelo capital de giro. O governo fala em responsabilidade fiscal; o povo pergunta quem vai pagar a próxima fatura. O riso, nesse caso, não é alegria. É sintoma. É o inconsciente coletivo dizendo que tem algo muito errado entre o discurso oficial e a vida real.

Enquanto isso, o Estado segue cobrando como leão e ajudando como gato gripado. Para arrecadar, a máquina pública funciona com precisão suíça. Para dialogar com quem produz, vira telefone de repartição antiga: chama, chama, chama e ninguém atende. O pequeno comerciante fecha a loja. O médio corta funcionário. O grande renegocia dívida e entra em recuperação judicial. E o governo aparece dizendo que está tudo indo muito bem. Está mesmo. Sergipe é Dubai. Para quem paga boleto, está mais para purgatório com ICMS.

A crítica é direta: Sergipe não precisa apenas de 60 dias de festa, propaganda e obra financiada por empréstimo. Precisa de governo sentado à mesa com quem produz. Banese, Sefaz, Fies, Fecomércio, Assembleia, sindicatos e setor bancário deveriam estar discutindo uma agenda emergencial para salvar empresas, preservar empregos e impedir que a crise vire epidemia econômica. Isso não é favor a empresário. É proteção ao trabalhador. Porque quando uma fábrica fecha, quem sofre não é apenas o sobrenome tradicional. É o empregado que esperava o salário. É a família que dependia daquele contracheque. É o comércio em volta que perde movimento. É o bairro que empobrece junto.

No fim, a pergunta é simples e cruel: o governo quer ser parceiro da economia ou apenas sócio invisível do imposto? Porque aparecer para cortar fita é fácil. Difícil é chegar antes do cadeado na porta. Governo forte não é o que mais arrecada, mais toma empréstimo ou mais aparece em propaganda. Governo forte é o que protege emprego, respeita quem produz e entende que empresa viva vale mais do que discurso bonito.

Sergipe não precisa de mais maquiagem fiscal. Precisa de menos pose, menos propaganda, menos autoelogio e mais vergonha econômica. Porque nunca se chegará a decisões diferentes usando os mesmos gestos, os mesmos vícios e as mesmas formas de administração. Isso não é inovação. É reprise. É administração em modo avião. É governo rodando em círculo e chamando tontura de planejamento estratégico. E quando o povo começa a rir da administração, governador, é porque a realidade já subiu no palco, tomou o microfone e começou o espetáculo. A diferença é que, dessa vez, quem paga o ingresso é o contribuinte. E quem sai no prejuízo é Sergipe.

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