O prefeito Samuel Carvalho parece ter confundido a Prefeitura de Nossa Senhora do Socorro com um resort all inclusive. Sabia, sim, desde o começo do ano, que uma decisão sobre o contrato do cemitério La Pace estava pronta para sair do forno. Era questão de dias. Talvez horas. E o que fez o gestor público diante do previsível escândalo? Arrumou as malas, reuniu a família e saiu de férias. Porque enfrentar crise não rende foto bonita, nem legenda otimista, apenas: “… se for chorar… grave um vído”.
Enquanto Samuel curtia a viagem, quem ficou para segurar o caixão foi o vice-prefeito ElmoPaixão. Um coitado político que, dizem nos bastidores, perdeu o pouco cabelo que restava tentando explicar um contrato funerário de mais de R$ 5 milhões que não se sustenta nem com vela acesa. É a velha política do “deixa que o vice resolve”, desde que o desgaste não respingue no titular bronzeado.
O mais constrangedor é que nada disso era novidade. O Portal publicou duas matérias, uma em 20 de outubro e outra em 13 de novembro, detalhando com documentos, números e nomes a arapuca administrativa que agora o Ministério Público de Sergipe resolveu escancarar. Não foi surpresa. Foi teimosia institucional. Foi aposta na impunidade.
E lá estamos nós, mais uma vez, pedindo socorro em Socorro. O MPSE recomendou a rescisão do contrato com o cemitério privado, apontando aquilo que qualquer cidadão atento já havia percebido. Ausência de estudos técnicos conclusivos, dúvidas sobre a vantajosidade econômica e o clássico dos clássicos da política brasileira: conflito de interesses. O cemitério La Pace tem ligação direta com familiar do secretário de infraestrutura. Traduzindo para o português claro: o dinheiro público virou carpete para o conforto do privado.
As denúncias levadas ao MPE pelos vereadores Luiz Paulo do Panzuá e Charlys de Gel são ainda mais perturbadoras. Máquinas públicas, servidores e estrutura da prefeitura teriam sido usados para atender interesses de um empreendimento particular. Particular, mas tratado como prioridade absoluta, enquanto bairros inteiros vivem abandonados, com fossas estouradas, mato tomando conta e a resposta padrão da gestão. “Não tem verba.”
Não tem verba para o povo. Para o La Pace, curiosamente, sempre aparece. É aí que a ironia vira tragédia. Cemitérios públicos interditados, famílias impedidas de enterrar seus mortos, e um único endereço funcionando a pleno vapor, amparado por contrato milionário. O descanso eterno virou produto. O luto virou mercado. A administração pública virou balcão.
Quando alguém diz que Samuel Carvalho evita pauta negativa, é preciso esclarecer. Pauta negativa não é crítica política. Pauta negativa é indício de crime, de improbidade, de violação aos princípios constitucionais da moralidade e da impessoalidade. E isso não está apenas em texto de jornal. Está em recomendação formal do Ministério Público, com fatos e documentos.
Enquanto o prefeito descansava à sombra de coqueiro, o MP trabalhou. Enquanto a prefeitura fingia normalidade, a Justiça avançou. E, finalmente, depois das duas matérias publicadas e ignoradas, o contrato foi colocado sob escrutínio público, como deveria ter sido desde o início.
Leitor, antes de seguir para o próximo vídeo inútil no Instagram, leia novamente os textos de 20 de outubro e 13 de novembro. O que parecia denúncia isolada hoje se confirma como padrão de gestão. Até que enfim o Ministério Público tomou a posição correta. Até que enfim a verdade saiu do subterrâneo.
Em Socorro, a viagem do prefeito é sempre estratégica. Sempre longe quando a tempestade se aproxima. Mas o enterro da ética administrativa não viajou. Ficou. Está aqui. Documentado. O que está sendo enterrado não são apenas mortos. É a dignidade da gestão pública, soterrada por contratos suspeitos e férias convenientes. A cidade merece respostas. Não álbuns de viagem. E nem tudo que está enterrado merece descanso. Leiam os textos. Cobrem. Porque silêncio, nesse caso, é cumplicidade.
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