Ontem, domingo, passei quase uma hora no telefone com Faustinho discutindo sobre as pautas que estão chamando atenção. E como estão chamando. Há quem critique, há quem elogie, há quem prefira que a gente fale apenas de moda e brunch de domingo. Mas escrevemos sobre vitimização, sobre o caso Vinícius Júnior e o limite entre racismo estrutural e instrumentalização narrativa. Escrevemos sobre os penduricalhos indecentes que drenam dinheiro público como se fossem benefícios naturais da fauna institucional. Tocamos na Universidade Federal de Sergipe, cutucamos política local. E, claro, mexemos naquilo que ninguém quer tocar sem luvas cirúrgicas: sexo biológico, identidade, esporte, poder.
Faustinho me contou que uma jornalista amiga disse a ele que não se sente confortável para falar sobre racismo ou sobre o caso de Vinícius Júnior. Eu entendo. Conforto é um luxo raro quando se pisa no limiar da água, naquela linha em que qualquer frase vira manchete distorcida. Mas se o jornalismo só falar do que é confortável, vira boletim de condomínio. Estamos mexendo em temas que fazem barulho porque tocam em identidades profundas, em ideologias inflamadas, em disputas simbólicas que definem quem fala e quem cala.
E então chegamos ao tema que deixa até feminista experiente com a respiração curta. Tiffany, jogadora trans no vôlei feminino. A polêmica da Copa do Brasil em Londrina, a lei municipal proibindo atletas trans em competições oficiais, a Confederação Brasileira de Vôlei contestando, o caso chegando ao Supremo, e a ministra Cármen Lúcia concedendo liminar para que a atleta jogue. E aí a pergunta que ecoa nos corredores de qualquer faculdade de Direito que ensine hierarquia das normas: desde quando resolução de confederação esportiva se sobrepõe à lei municipal? Foi uma canetada elegante, mas a Constituição não é acessório de desfile.
Eu fui aluna de Carlos Britto na Universidade Federal de Sergipe. Aprendi que existe uma pirâmide normativa, que leis têm peso, que resoluções não são coroas reais. Quando se relativiza isso por causa de uma pauta identitária, abre-se precedente. E precedente, minha gente, não é só detalhe jurídico. É rachadura institucional. Pode ser que a decisão tenha sido tecnicamente fundamentada. Pode ser. Mas politicamente, ela acende um debate que ninguém quer enfrentar com honestidade.
Vamos ao ponto delicado, aquele que faz gente desligar o vídeo antes do final. A questão do esporte feminino e da diferença biológica. Não é homofobia perguntar se há vantagem física acumulada pela testosterona ao longo da vida. Não é preconceito discutir se categorias esportivas foram criadas justamente para equilibrar competição. A ciência não é militante, ela é descritiva. E qualquer pessoa que já assistiu a um jogo entre equipes masculinas e femininas entende que força, explosão e densidade muscular não são detalhes cosméticos.
E por que não vemos o caminho inverso? Quantas mulheres transicionam para o masculino e disputam espaço no vôlei masculino de alto rendimento? A pergunta não é para excluir, é para compreender a assimetria. Se a lógica é inclusão plena, ela deveria funcionar nos dois sentidos. Mas a realidade biológica impõe limites que não se resolvem apenas com identificação subjetiva.
E então surge outro capítulo: a Comissão da Mulher presidida por uma parlamentar trans. O discurso é que é avanço. Que experiência é identificação. Que representatividade se ampliou. Mas quando o próprio campo progressista fala tanto em lugar de fala, por que esse conceito se torna maleável quando convém? Se experiência corporal feminina envolve menstruação, gravidez, menopausa, câncer de mama, violência obstétrica, como se dá essa mediação? É legítimo perguntar. Perguntar não é perseguir.
Há quem diga que estamos forçando a barra. Que o mundo mudou e que quem não acompanha vira fósforo apagado. Talvez. Mas há também mulheres que se sentem deslocadas, que veem espaços simbólicos sendo redefinidos sem que suas inquietações sejam ouvidas. Feminismo que ignora mulheres biológicas em nome de uma narrativa mais ampla corre o risco de perder sua base histórica.
Nada disso invalida a dignidade da pessoa trans. Nada disso retira o direito de existir, trabalhar, amar, competir. A questão é estrutural. É sobre categorias, regras, equilíbrio, justiça competitiva. Quando uma atleta que nasceu biologicamente homem passa a dominar competições femininas, a pergunta sobre equidade é inevitável. Fingir que não existe diferença é negar a própria razão pela qual o esporte é dividido por sexo.
E volto ao ponto inicial. Estamos mexendo em pautas com marca d’água. Racismo, vitimização, penduricalhos, universidade pública, hierarquia das leis, identidade de gênero. São temas que fazem amigos virarem críticos e críticos virarem inimigos. Mas jornalismo que evita conflito vira assessoria de imprensa da unanimidade.
No fim, a pergunta que fica não é se você concorda comigo. É se estamos dispostos a discutir com maturidade. Porque se o debate vira grito, perde-se a nuance. E nuance é o que separa análise de panfleto. Podemos discordar. Devemos discordar. Mas não podemos interditar o pensamento.
Faustinho me disse no domingo que talvez fosse melhor evitar esse tema. Eu respondi que justamente por ser delicado é que precisa ser enfrentado. Se a sociedade não consegue discutir esporte, biologia e direito sem transformar tudo em guerra moral, então temos um problema maior do que Tiffany ou qualquer decisão do Supremo.
Não é uma questão de direita ou esquerda, é uma questão de princípio. O debate é necessário, mesmo quando causa desconforto, porque estamos falando de justiça, representação, biologia e direitos. Silenciar por medo não fortalece ninguém, apenas empobrece a democracia. Quando uma sociedade tem receio de fazer perguntas difíceis, ela começa a abrir mão das respostas. Discordar não é odiar, questionar não é perseguir. Se ninguém mais quer falar, alguém precisa começar, não para impor verdades, mas para garantir que pensar em voz alta continue sendo um direito. Mulher é mulher…




