Aracaju voltou a encarar o horror de frente com a tragédia da Farolândia, onde, segundo a cobertura local, um homem matou a companheira ao arremessa-la do nono andar, atacou outras pessoas com faca e depois morreu ao se jogar do prédio. O caso é tratado como feminicídio seguido de suicídio e expõe, mais uma vez, o tamanho da brutalidade que se esconde dentro de apartamentos, casas e relações que já vinham adoecidas muito antes da sirene chegar. A notícia choca, revolta e paralisa. E precisa, sim, provocar reação pública. Mas não pode virar espetáculo.
Os dados que circularam nas últimas horas apontam para um cenário ainda mais grave: Sergipe teria registrado três feminicídios em um intervalo de 72 horas. Não é apenas estatística, é um grito. É a repetição de uma violência que deixou de ser exceção para se tornar alerta máximo. E, mesmo que os números ainda exijam consolidação oficial detalhada, o fato concreto é que o caso da Farolândia, por si só, já exigiria uma resposta firme do Estado, da imprensa e da sociedade.
Porque feminicídio não é episódio isolado, não é azar, não é coincidência trágica. É um crime estrutural, alimentado por machismo, sentimento de posse e pela incapacidade coletiva de interromper sinais claros de violência antes que eles terminem em morte. E é justamente por isso que a cobertura não pode se limitar ao impacto do sangue. Ela precisa ir além, explicar, alertar e, principalmente, provocar reflexão.
Também é preciso corrigir uma tentação perigosa que sempre aparece nessas horas. O caminho não é proibir a divulgação. O caminho é divulgar com responsabilidade. No caso do suicídio, há consenso em diretrizes internacionais e materiais de prevenção de que a imprensa deve evitar detalhes sobre método, imagens da cena, linguagem alarmista e tratamento sensacionalista, justamente para reduzir riscos de contágio e imitação. A OPAS divulgou em 2025 uma versão em português de manual para profissionais da mídia, e o próprio CVV orienta que não se trate suicídio como “epidemia” nem se explore o caso como espetáculo.
No feminicídio, a lógica é parecida, ainda que não idêntica. Não se trata de esconder o crime, mas de cobri-lo sem romantização, sem transformar o agressor em protagonista, sem empilhar requintes mórbidos e sem reduzir a vítima a mais uma manchete policial. O Instituto Patrícia Galvão e estudos sobre cobertura jornalística têm insistido nisso há anos: quando a imprensa noticia mal, ela desinforma, reforça estereótipos e perde a chance de orientar sobre proteção, rede de apoio, medidas legais e sinais anteriores de risco. Em português claro, não basta dizer que aconteceu. É preciso mostrar por que acontece, como prevenir e onde buscar ajuda.
Sergipe precisa pensar nisso com a cabeça fria e o coração acordado. Polícia, Ministério Público, Judiciário, rede de saúde, assistência social e imprensa têm de construir um pacto mínimo de inteligência institucional. Menos corrida por clique, mais protocolo. Menos fascínio pela cena, mais proteção à mulher viva que ainda pode ser salva hoje. Porque, quando um crime desses vira apenas assunto do dia, o Estado fracassa duas vezes: antes, por não prevenir, e depois, por não aprender. E leitor, pense nisso mesmo. Não para alimentar pânico, mas para exigir seriedade. Se houver risco imediato, a mulher pode procurar a polícia, a rede local de atendimento e, em situação de emergência, o 190. Para sofrimento psíquico e risco de suicídio, o CVV atende pelo 188.




