É inacreditável, mas aconteceu. E aconteceu dentro de uma universidade federal (UFS), sustentada com dinheiro público, com a missão constitucional de formar cidadãos, produzir ciência e servir à sociedade: a Universidade Federal de Sergipe (UFS) ofertou como atividade de extensão curricular um evento da Juventude Petista, com direito a filiações partidárias dentro do campus.
Sim, caro leitor, não é exagero. Está nos autos do Ministério Público Federal, que já abriu investigação e denunciou a prática: a universidade chancelou, via seu sistema acadêmico (SIGAA), a contagem de oito horas de atividade complementar para quem participasse do encontro político. De extensão acadêmica, aquilo não tinha nada. De palanque eleitoral, tinha tudo.
O episódio é tão grave que já ultrapassou as fronteiras de Sergipe. O jornalista Lauro Jardim, em sua coluna na VEJA, foi categórico: estamos diante de um caso surreal, que projeta o estado de Sergipe no noticiário nacional não pela excelência acadêmica, mas pela submissão da universidade a interesses partidários. É a pior propaganda possível para a UFS e para Sergipe.
E não se enganem: as consequências desse ato vão muito além de uma “atividade equivocada”. Elas ferem diretamente a imagem institucional da universidade, expõem alunos e professores à manipulação política e maculam a credibilidade de um espaço que deveria ser plural, crítico e independente. Ao permitir que uma atividade de partido político fosse mascarada de extensão acadêmica, a UFS transformou-se, ainda que temporariamente, em trincheira eleitoral.
O Ministério Público Federal já se posicionou e exige providências: a suspensão imediata desse tipo de prática, publicação oficial de recomendação e respostas formais da reitoria. E aqui não basta apenas “cumprir tabela” com notas frias ou burocráticas. É preciso responsabilizar quem aprovou, quem carimbou, quem deu validade e quem participou da farsa. Se houve professores, gestores ou servidores que usaram suas funções para legitimar proselitismo, que sejam exemplarmente punidos.
Porque universidade não é partido, não é sindicato, não é comitê eleitoral. Universidade é, ou deveria ser, lugar de debate livre, onde diferentes visões políticas podem ser discutidas, mas nunca patrocinadas oficialmente. A partir do momento em que uma instituição pública se curva a um partido, qualquer que seja ele, perde a legitimidade para se dizer espaço de pensamento crítico.
Sergipe já sofre o suficiente com a falta de investimento em educação, ciência e tecnologia. Não precisa agora carregar a pecha de transformar a sua única universidade federal em laboratório de militância. Esse tipo de mancha leva anos para ser apagada e prejudica, sobretudo, quem não tem nada a ver com isso: os estudantes, que dependem da instituição para ter um futuro e agora veem seu diploma ameaçado pela sombra do aparelhamento ideológico.
Que fique claro: o que aconteceu na UFS é um divisor de águas. Ou a universidade reencontra o caminho da sua missão constitucional, ou será lembrada como a casa onde se confundiu ciência com campanha, extensão acadêmica com filiação partidária. E que o Ministério Público Federal vá até o fim porque, em tempos de erosão institucional, exemplos firmes são o que ainda resta para salvar o mínimo de confiança no serviço público.




