Enquanto o Brasil fecha 2025 com 1.470 feminicídios e uma média cruel de quatro mulheres mortas por dia, Sergipe aparece com taxas menores e comemoração tímida nos relatórios. Só que quem lê relatório não sente luto. Quem sente luto é mãe, filha, vizinha, amiga. O problema de se acostumar com número pequeno é achar que ele não grita. Grita sim. Grita baixo, mas grita dentro de casa, no quarto, na cozinha, no silêncio da madrugada.
Aqui, a violência não costuma chegar já de punho fechado. Ela começa no controle do celular, no ciúme travestido de cuidado, na ameaça disfarçada de brincadeira. Quando explode, todo mundo diz que foi surpresa. Não foi. Foi ignorada. Sergipe conhece bem essa história. Conhece porque o telefone do Ligue 180 toca mais, porque as denúncias crescem, porque as delegacias especializadas seguem cheias e porque as medidas protetivas ainda chegam tarde para algumas mulheres.
O Estado fez avanços, é verdade. Ronda Maria da Penha, políticas de proteção, redução percentual. Tudo isso merece registro. Mas não merece acomodação. Redução não é imunidade. Redução é apenas um aviso de que dá para fazer mais. E fazer mais não é só com polícia, lei ou tornozeleira. É com escola, família e sociedade parando de tratar violência doméstica como assunto alheio, problema do outro ou briga de casal.
Sergipe é pequeno, mas o machismo aqui é do mesmo tamanho do resto do país. A cultura que mata mulher não respeita fronteira nem densidade demográfica. Ela se instala onde há silêncio, tolerância e normalização. E quando o estado comemora estatística antes de garantir proteção total, corre o risco de virar comentarista de tragédia em vez de agente de prevenção.
O Brasil criou leis mais duras, aumentou penas, tipificou o feminicídio como crime autônomo, colocou o tema no centro do debate nacional. Tudo correto. Mas lei não entra sozinha em casa violenta. Quem entra é a rede de proteção. E essa rede só funciona quando sociedade e poder público agem juntos, sem romantizar agressor, sem relativizar ameaça e sem esperar o pior para agir.
Em Sergipe, cada caso evitado é vitória. Cada caso ocorrido é derrota coletiva. Não adianta dizer que somos um dos estados com menor taxa se ainda enterramos mulheres por razões de gênero. A estatística não consola família. Não abraça filho. Não devolve vida.
O combate ao feminicídio não se faz apenas com discurso em data simbólica nem com campanha pontual. Se faz com vigilância diária, com resposta rápida, com acolhimento real e com uma sociedade que entenda que amor não controla, não ameaça e não mata. Quando mata, não é amor. É crime.
Sergipe ainda pode escolher qual papel quer cumprir nessa história. Pode ser o Estado que reduziu números ou o estado que enfrentou o problema até o fim. Porque enquanto houver uma mulher vivendo com medo dentro de casa, o problema não é estatístico. É moral. E nisso, nenhum Estado pode se dar ao luxo de fingir que está tudo sob controle.




