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Valadares Filho: secretário no governo, soldado na guerra contra Valmir

A Federação Renovação Solidária, formada pelo Solidariedade e pelo PRD, protocolou, na noite de segunda-feira, 3 de agosto, uma ação para tentar impugnar o registro de Valmir de Francisquinho ao Governo de Sergipe. A peça, com cerca de 36 páginas, chegou ao TRE no processo nº 0600373-69.2026.6.25.0000. Até aí, exercício regular do direito eleitoral. O detalhe curioso é que a petição já mencionava a decisão do ministro Sérgio Kukina antes de sua publicação oficial. Em Sergipe, pelo visto, algumas decisões ainda estão calçando os sapatos enquanto certas petições já cruzaram a linha de chegada, tomaram banho e deram entrevista.

É verdade que o prazo para a impugnação terminava naquela segunda-feira e que a federação precisava agir para não perder a oportunidade processual. Também é correto reconhecer que parte da ação já poderia estar preparada, especialmente a tese sobre a suposta ausência de afastamento material de Valmir da Prefeitura de Itabaiana. O problema começa quando a própria petição demonstra conhecimento seguro de uma decisão ainda não publicada. Pode haver uma explicação absolutamente regular. Mas, até que ela apareça, a velocidade continuará chamando mais atenção do que motoboy em noite de eleição.

No centro desse roteiro está Antônio Carlos Valadares Filho, presidente da federação em Sergipe e secretário especial da Cultura do governo Fábio Mitidieri. Valadares Filho já foi deputado federal por três mandatos, candidato a prefeito, governador, vice e senador. Currículo eleitoral não lhe falta. Faltou apenas combinar com o eleitor. Depois de tantas urnas ingratas, encontrou finalmente estabilidade política no Diário Oficial. Hoje, seu tamanho parece ser exatamente aquele autorizado pelo Palácio: nem um centímetro acima do cargo, nem uma palavra além do contracheque.

A situação é politicamente constrangedora. De um lado, o dirigente partidário que assina a ofensiva jurídica contra Valmir. Do outro, o secretário do governo que seria diretamente beneficiado pela retirada do principal adversário de Fábio Mitidieri. Não há prova pública de que o governador tenha dado uma ordem. Mas também não é preciso ser formado em Harvard para perceber que a independência fica um pouco acanhada quando mora dentro do mesmo governo, recebe salário do mesmo chefe e trabalha pelo mesmo projeto eleitoral. É a autonomia com crachá, gabinete e folha de pagamento.

Valadares Filho, que já enfrentou máquinas políticas e pediu ao povo uma oportunidade para derrotá-las, agora aparece ao lado de uma tentativa de resolver no tribunal aquilo que deveria ser decidido nas urnas. A política realmente transforma. Ontem, ele reclamava do peso do poder. Hoje, ajuda a carregar o peso. Antes, queria enfrentar o sistema. Agora, parece satisfeito em ser uma peça decorativa dele, dessas que ficam bonitas na fotografia oficial e não fazem barulho sem autorização superior.

A ação possui pontos que precisarão ser provados, não apenas repetidos com entusiasmo governamental. Fotografias, presença em eventos e influência política não demonstram, por si, exercício de função administrativa. Liderança não é decreto, prestígio não é assinatura e proximidade com o sucessor não significa permanência no cargo. A tese da improbidade também terá de ser confrontada com os requisitos atuais da Lei de Inelegibilidades. A federação apresentou sua costura. Agora será preciso descobrir se usou linha jurídica ou apenas o tecido fornecido pelo Palácio.

Valadares Filho tem todo o direito de defender a ação e assumir sua autoria política. O que não pode é esconder-se atrás da federação como quem fecha a cortina da Secretaria de Cultura e espera que o público esqueça quem está no palco. Se a iniciativa foi independente, que explique quando soube da decisão, quem tomou a iniciativa e como a informação chegou antes da publicação oficial. Porque, na democracia, o tamanho de um político deveria ser medido pela coragem de enfrentar o eleitor. No caso de Valadares Filho, cresce a impressão de que sua estatura passou a ser calculada pelo cargo que Fábio Mitidieri lhe concedeu e pelo limite que o Palácio determinou que ele não ultrapassasse.

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