Plenário em chamas: escândalos, discursos e bebedouros salvadores
Na democrática 29ª sessão ordinária da Câmara de Aracaju, os vereadores se revezaram entre denúncias, promessas, torneios e um Pantanal de problemas. Teve quem falasse de buraco como se fosse cratera lunar e quem exaltasse bebedouro como se fosse plano de governo. Vem comigo que o espetáculo foi digno de série da Netflix – se a série fosse escrita por um roteirista cínico e baseado em fatos reais.
Bigode do Santa Maria: o profeta do buraco – Subiu à tribuna como quem carrega as tábuas da lei, ou pelo menos o mapa dos buracos do Vale do Amanhecer de Aracaju. Alertou para o caos iminente das chuvas, com a firmeza de quem já sabe que o asfalto, ali, é lenda urbana. Foi cobrança direta, mas com cara de “a gente sabe que nada vai mudar, né?”. O poder público, claro, segue em silêncio… talvez tenha caído em algum dos buracos.
Joaquim da Janelinha: mestre de cerimônias da paz social – Resolveu trocar o verbo “fiscalizar” por “convidar”. Divulgou dois eventos: a posse do conselho de segurança (alô, Farolândia!) e o ilustre “3º Torneio do Tio Paulão”. Se não resolver a segurança pública, pelo menos distrai com bola rolando. Afinal, onde o Estado falha, o esporte entra com troféu de consolação.
Miltinho Dantas: quando o discurso deixa de ser política e vira humanidade – Em vez de cair na velha ladainha do buraco na rua, Miltinho Dantas (PSD) fez o que poucos têm coragem: falou de feminicídio com respeito, seriedade e coração. Num plenário onde muita gente grita e pouca gente sente, ele entregou um discurso sóbrio, forte e necessário. Sim, elogiou a Emsurb também, porque ninguém é santo em ano pré-eleitoral , mas mostrou que ainda existe espaço pra empatia de verdade na política. E isso, num mar de promessas vazias, vale mais do que mil requerimentos. Miltinho foi menos político e mais humano. E isso, por aqui, é quase um ato revolucionário.
Pastor Diego: um sermão de R$ 6 bilhões – Fez o sermão da manhã. Tema: corrupção no INSS. Valor do dízimo desviado? Seis bilhões de reais, ou um PIB inteiro de município pequeno. Apontou o dedo pro governo Lula, citou a gestão como cúmplice da farra e ainda encontrou tempo pra falar sobre autismo. Missão dada, missão pregada. Pena que justiça divina não faz licitação.
Sônia Meire: vassoura na mão, crítica afiada – Não deixou barato: rebateu Diego com gosto e deixou claro que, se corrupção apareceu, é porque o governo atual permite investigação. Comparou com gestões passadas, onde o cinismo era institucionalizado. Ainda sobrou energia pra defender educação pública, escolas dignas e uma marcha pela educação. Se o debate fosse UFC, esse round era dela.
Thannata da Equoterapia: bebedouro, o novo SUS – Resolveu mirar no básico e acertou onde mais dói: sede. Propôs bebedouros públicos como solução de saúde, cidadania e cuidado animal. Genial ou desespero de quem tenta cavar um legado no cano da DESO? O tempo dirá. Por ora, a proposta pelo menos refresca o debate.
Camilo Daniel: do lamaçal ao Vaticano – Estreou no Grande Expediente com uma lista de problemas que faz qualquer gestor suar: moradores pagando por esgoto inexistente no Pantanal, festas tradicionais esquecidas e a bomba-relógio da Maternidade Lourdes Nogueira. No meio disso tudo, ainda homenageou o Papa e mandou um recado sobre a Palestina. O plenário virou púlpito e pauta internacional. Amém.
Elber Batalha: CPI verbal e crítica calibrada – Subiu à tribuna não pra fazer discurso, mas pra fazer autópsia política em tempo real. Foi direto no escândalo do INSS, cobrou investigação sem teatrinho e lembrou que indignação seletiva não cola, principalmente quando alguns colegas só lembram de corrupção quando é conveniente pro time. E como quem conhece bem a cartilha da velha esperteza institucional, Elber também mirou nos contratos emergenciais da gestão de Emília Corrêa, contratos caros, sem licitação e com aquele cheirinho de pressa mal explicada. Resultado? A prefeitura, sentindo o calor, agora corre pra fazer licitação. Pressão funciona. E ele sabe disso.
Fábio Meireles: entre a lama e a praça – Fez um discurso meio eco, meio faxina. Cobrou drenagem e pavimentação pro bairro Pantanal, onde carro rebaixado é condenado à extinção — e elogiou a limpeza da praça Formosa. Também pediu coleta de lixo no Santos Dumont e lamentou o escândalo do INSS. Equilibrado, sim. Mas com firmeza: a política começa no bueiro e termina no orçamento.
Iran Barbosa: livros, memória e PF solta – Fechou os trabalhos com poesia e pancada. Lembrou o Dia Mundial do Livro, cobrou bibliotecas funcionando e valorização de escritores locais, tudo isso enquanto comemorava uma Polícia Federal que finalmente pode trabalhar sem mordaça. Reforçou que denunciar corrupção não era possível “no governo anterior”. Recado dado. Se alguém se doeu, talvez tenha motivo.
Mais uma sessão onde as palavras voaram alto e as soluções rastejaram. Mas é isso aí: enquanto alguns vereadores ainda vivem no expediente pequeno das promessas, a cidade grita por um expediente grande de verdade. E, como sempre, a plateia somos nós, obrigados a aplaudir ou vaiar com o IPTU em dia.
Quer receber os textos do Portal Faustoleite.com direto no seu WhatsApp? Salva aí: (79) 9 99676-7448. Manda um “oi” e fique por dentro dos bastidores da política sergipana, com análise afiada, ironia na medida e zero filtro. Jornalismo com coragem. E sem paninho.




