Mais de 26 mil chamados à PM e feminicídios em alta revelam que a violência doméstica em Sergipe não dá trégua — mesmo com rede de proteção em expansão. O que ainda falta?
Um grito abafado por trás dos números
Em 2025, Sergipe recebeu mais de 26 mil chamadas relacionadas à Lei Maria da Penha. Repetindo: vinte e seis mil. O suficiente para lotar a Arena Batistão — e ainda ficar gente de fora. A maioria desses chamados aconteceu em Aracaju, geralmente à noite e aos domingos. Coincidência? Claro que não. A violência doméstica tem hora marcada: quando a porta se fecha e ninguém mais vê.
Ainda assim, os dados não escandalizam como deveriam. Talvez porque já estejamos anestesiados com a rotina do terror doméstico — ou talvez porque a conta, quase sempre, fecha nas costas da vítima.
Feminicídio: a última etapa de um ciclo ignorado
O dado mais brutal do balanço de 2025 é o que deveria gerar manchetes diárias: 15 mulheres foram assassinadas em Sergipe simplesmente por serem mulheres. E o padrão se repete: elas já estavam presas em ciclos contínuos de violência. Não conseguiram ou não conseguiram a tempo denunciar. O alerta dos especialistas é direto: não dá para esperar a agressão virar tragédia.
A engrenagem da denúncia ainda emperra
O canal Ligue 180 recebeu 7.908 ligações no estado — praticamente o mesmo número de 2024. No entanto, as denúncias formalizadas caíram: foram 1.027 em 2025 contra 1.172 no ano anterior. Sabe o que isso significa? Que muitas mulheres ligam, mas poucas seguem até o fim. Seja por medo, seja por falta de acolhimento, seja por descrença no sistema.
Segundo o Governo de Sergipe, o aumento dos registros policiais estaria ligado à expansão da rede de proteção e ao atendimento mais humanizado. É verdade que houve avanços, mas ainda é impossível comemorar qualquer estabilidade enquanto os feminicídios seguem firmes — e silenciosos.
DAGV reage e números disparam
O Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) teve crescimento de quase 50% nos registros de ocorrências em 2025. Foram cerca de 700 mandados de prisão cumpridos, além de mais de duas mil medidas protetivas representadas à Justiça. Em paralelo, a Delegacia Plantonista (Deplan) registrou 3.920 boletins de ocorrência e 720 prisões em flagrante.
Quem lidera esse processo é a delegada Mariana Diniz, diretora do DAGV, que credita o crescimento à capacitação da equipe e ao acolhimento. “A empatia no atendimento é o que encoraja a mulher a romper o ciclo”, afirmou.
Tecnologia e proteção caminham juntas
Outro trunfo em 2025 foi a expansão do uso da plataforma Devir Mulher, no site da Polícia Civil. A ferramenta permite que mulheres solicitem medidas protetivas diretamente pela internet, sem precisar sair de casa — ou antes que o agressor perceba.
Somente a DEAM (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) solicitou 1.947 medidas protetivas ao longo do ano. Na Deplan, outras 1.923 medidas foram representadas. Ou seja: a resposta existe — mas precisa ser acionada a tempo.
Atendimento especializado: números que falam
Além do foco nas mulheres, o DAGV também entregou resultados expressivos nas outras frentes:
- DEACAV (Criança e Adolescente): 1.328 BOs e 648 inquéritos concluídos.
- DEAIPD (Idoso e Pessoa com Deficiência): 1.159 BOs e 340 inquéritos enviados à Justiça.
- DEACHRI (Crimes de ódio): 349 ocorrências e 149 inquéritos finalizados.
A atuação integrada é real. Mas ela só funciona quando a denúncia chega.
Denunciar cedo é salvar vidas
A violência não começa no tapa. Ela começa no grito, no controle, na chantagem. E quando a mulher percebe, está isolada, machucada e desacreditada. Denunciar no primeiro sinal é, muitas vezes, a única chance de sair viva.
Canais disponíveis:
- 190 – Polícia Militar (emergência e flagrante)
- 181 – Polícia Civil (denúncia anônima)
- 180 – Central de Atendimento à Mulher
- Devir Mulher – Solicitação online de medidas protetivas
A cada chamada ignorada, uma nova estatística ganha nome e sobrenome. A cada silêncio, um novo feminicídio se aproxima.
Você conhece alguma mulher em situação de violência? Não espere por um “sinal mais claro”. Compartilhe essa matéria, fale sobre isso e ajude a romper o ciclo. O silêncio nunca protegeu ninguém.
Fontes Principais:
- Polícia Civil de Sergipe
- Governo do Estado de Sergipe
- Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV)
- Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM)




