A pré-campanha de 2026 em Sergipe está ensinando uma lição que deveria virar disciplina obrigatória em curso de ciência política: acabou o tempo da candidatura romântica. Ninguém mais faz campanha por amor ao projeto coletivo, por espírito de sacrifício ou por paixão ideológica de novela das oito. Agora é cada um com seu CPF eleitoral, sua calculadora na mão e sua mala pronta para embarcar. Senador quer se reeleger, deputado quer sobreviver, governador quer manter poder e quem disser que está fazendo tudo isso apenas pelo povo merece, no mínimo, um prêmio de melhor ator coadjuvante do ano.
Fernandinho Franco entendeu isso antes de muita gente. Ex-prefeito de Muribeca por dois mandatos, herdou de Cacau Franco não apenas o sobrenome, mas o jeito leve, brincalhão e politicamente inteligente de circular. Fernandinho não faz política de cara amarrada, faz política sorrindo, conversando, ouvindo e fotografando. Rodou o Palácio do Governo, conversou com Fábio Mitidieri, passou por Cláudio Mitidieri, sentou com Alessandro Vieira, dialogou com André Moura, foi ouvir Valmir e Edivan, observou Rodrigo, tomou café onde precisava e saiu sorrindo de todos os lugares. Ele não estava procurando amor, estava procurando viabilidade.
Quando percebeu que no PSD a conta era pesada demais e que para sair deputado estadual seria preciso quase abrir uma fábrica de votos, fez o que político inteligente faz: mudou de estrada antes do engarrafamento. Correu para o PL de Rodrigo Valadares, onde a matemática é menos cruel e a chance de eleição é mais realista. E não há pecado nisso. Pecado seria insistir no erro por vaidade. Fernandinho não está preocupado em salvar o sistema solar, está preocupado em ser eleito. E sinceramente, está certíssimo. Quem entra em campanha para resolver o problema dos outros termina segurando bandeira enquanto o outro toma posse sorrindo.
Ao ser entrevistado sobre o Senado, aliás, Fernandinho deu uma verdadeira aula de desconvite elegante. Confirmou o primeiro voto em Rodrigo Valadares, o que era óbvio, porque legenda não nasce em árvore, legenda se negocia. Quando perguntaram o segundo voto para o Senado, ele fez igual político experiente em dia de fiscalização: desapareceu. Citou Miro, lembrou Ricardinho, brincou com George Magalhães, sorriu, desviou e saiu pela tangente com a leveza de quem pisa em lama usando sapato branco. E deixou no ar o que todo mundo já percebeu: o segundo voto muito provavelmente caminha para André Moura.
E aqui entra um ponto importante. André Moura continua fazendo política como se faz política de verdade: presença, articulação e memória longa. Enquanto muitos ainda estão escolhendo a legenda da selfie, André já está construindo pontes há meses. Ele conversa com todos, escuta todos e entende que eleição majoritária não nasce no ano da urna, nasce no café discreto, no telefone atendido e no compromisso mantido. André faz campanha de governador, ajuda composição e continua sendo peça central do tabuleiro. O curioso é que ele ajuda muito mais o governo do que o governo ajuda sua própria construção senatorial. Isso é fato, não é maldade.
Do outro lado, Valmir de Francisquinho também mostra algo que a oposição aprendeu rápido: campanha hoje é individual e disciplinada. A oposição está mais organizada justamente porque cada um sabe onde pisa. Eduardo Amorim pede voto para ele, para André Davi e para Valmir. O delegado André Davi faz o mesmo. É uma campanha mais honesta, mais reta, sem aquela maquiagem institucional de quem finge neutralidade enquanto janta em dois palanques diferentes. Valmir carrega esse peso popular de quem fala com a base e mantém uma musculatura eleitoral que muita gente em Aracaju subestima por pura soberba de gabinete.
E aí chegamos ao capítulo mais divertido: Marcos Franco, o autoproclamado candidato da família. A pergunta é simples e quase cruel: qual família? Porque até agora ninguém viu desfile dos Francos, carreata dos primos ou aquele abraço cinematográfico de apoio coletivo. Quem já recebeu apoio concreto foi Fernandinho, que já contou com o peso político de Zé Franco, prefeito de Socorro por três mandatos, homem que ainda mantém recall forte em Socorro, Areia Branca e em boa parte da engrenagem política do interior. Zé Franco sabe mexer no tabuleiro. Já Marcos segue dizendo que é o candidato da família, mas até agora parece mais candidatura de PowerPoint do que candidatura de sangue.
Nem Walter Franco, nem Oswaldo Franco, nem o próprio Zé Franco fizeram até aqui aquele gesto público robusto que transforma discurso em voto. Até agora, Marcos fala sozinho sobre esse apoio familiar, como quem anuncia uma festa de aniversário e ainda espera confirmação dos convidados. Política não funciona no campo da suposição. Apoio ou aparece ou não existe. E enquanto Fernandinho já garantiu o tio no jogo, Marcos ainda está tentando descobrir onde exatamente senta a família na arquibancada.
E no meio desse tabuleiro ainda surge Rogério Carvalho com a célebre frase de que não está na chapa do governador, mas sim na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva. A declaração, além de curiosa, carrega uma sinceridade quase involuntária. Afinal, Lula disputa a Presidência da República, não o Governo de Sergipe. Não é candidato ao Palácio de Despachos, não pede voto em Lagarto para governador e não resolve a equação local da sucessão estadual. Rogério deixou claro o que muitos já percebiam: ali não existe aliança política de convicção, existe um casamento arranjado, daqueles em que os noivos aparecem sorrindo na foto, mas cada um dorme olhando para um lado da cama. Nem a própria família do governador vota em Rogério, e muito menos Rogério vota politicamente em Fábio Mitidieri com qualquer paixão. Cada um quer apenas sobreviver até a próxima eleição. Enquanto isso, Edvaldo Nogueira foi mais honesto e disse logo que faria sua campanha sozinho. Às vezes, a verdade, mesmo dura, é muito mais elegante do que a ginástica verbal.
No fim, Fernandinho Franco talvez tenha dado a melhor aula prática dessa temporada. Política não é casamento por amor, é condomínio em assembleia permanente, e cada um primeiro protege seu próprio apartamento antes de discutir a cor da fachada. Fernandinho entendeu isso cedo, calculou, rodou, conversou, analisou e foi para onde a chance de vitória era mais concreta. Carlinhos de Brejo Grande deveria ter observado melhor essa movimentação. Confiou demais no projeto de governo, entrou no PSD acreditando mais na promessa coletiva do que na própria matemática eleitoral e agora, mesmo com todo o investimento pesado que vem fazendo, pode descobrir da pior forma que entusiasmo não soma voto sozinho. Política não premia fidelidade cega, premia estratégia. Valmir de Francisquinho entendeu isso, André Moura domina isso há muito tempo e Fernandinho aplicou isso com precisão cirúrgica. Alguns ainda estão tentando descobrir onde fica a portaria do prédio. E Marcos Franco, coitado, ainda está esperando a família confirmar presença no grupo da candidatura.





Uma resposta
Bom dia.!
Rio São Francisco e seus afluentes.
Foi o que entendi nesse comentário.