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Zé Miúdo, grande na piada, pequeno no decoro parlamentar

Confesso que acordei em Itacaré com o barulho do mar, mas quem me tirou da contemplação não foi a ressaca da Bahia e sim a ressaca moral que veio de Sergipe. Bastou abrir as redes sociais para tropeçar, não em uma onda, mas em um vereador de Itabaianinha que resolveu transformar o mandato popular em um número de stand up de gosto duvidoso, daqueles que fazem rir por constrangimento e não por inteligência. E aqui começo dizendo o óbvio que parece ter se perdido no caminho: vereador não é palhaço, mandato não é palco e dinheiro público não é cachê de comédia barata.

Itabaianinha não é uma piada. Nunca foi. A cidade entrou para a história da medicina, da genética e do jornalismo internacional por abrigar uma comunidade rara de pessoas com nanismo proporcional, estudada com seriedade por pesquisadores do mundo inteiro. Ali há história, dignidade, famílias, trabalho e identidade. O que não há é autorização moral para transformar essa singularidade em chacota institucionalizada. Quando um vereador, eleito para legislar, fiscalizar e representar, prefere fazer gracinha, rir de si mesmo e usar gestos de duplo sentido em entrevistas públicas, ele não se diminui apenas enquanto indivíduo. Ele diminui o cargo, a Câmara, a cidade e o estado inteiro.

E aqui entra a parte que mais me incomoda, talvez mais grave do que o próprio personagem folclórico que se instalou na Câmara Municipal. Cabe ao delegado da cidade de Itabaianinha, diante da reiterada exposição pública de gestos obscenos e de falas de duplo sentido proferidas dentro e fora da Câmara, instaurar inquérito para apurar possível constrangimento ilegal às mulheres, porque liberdade de expressão não autoriza indecência institucional nem normaliza o desrespeito. Da mesma forma, cabe ao presidente da Câmara dos Vereadores cumprir o seu papel e abrir imediatamente procedimento na Comissão de Ética para avaliar, julgar e punir condutas que ferem o decoro parlamentar. Não se trata de censura, mas de zelo pela instituição, pela dignidade do mandato e pelo respeito devido às mulheres, à população de Itabaianinha e à própria democracia local. Quando a Câmara se cala, ela consente. E quando consente, ela se torna cúmplice.

Quando um vereador não sabe pronunciar captação de água, confunde conceitos básicos de gestão pública e ainda acha isso engraçado, não estamos diante de um personagem folclórico. Estamos diante de um sintoma grave da banalização da política. Quando ele faz um gesto obsceno disfarçado de coração em uma entrevista, ele não está sendo irreverente. Está sendo ofensivo. Ofensivo às mulheres da cidade, às mulheres de Sergipe, às mulheres do Brasil e, ironicamente, aos próprios anões de Itabaianinha, que lutaram por décadas para serem vistos como cidadãos plenos e não como caricaturas.

O humor inteligente questiona o poder. O humor rasteiro se alia à ignorância. E o que vemos aqui é o riso vazio, o riso de quem não tem argumento, não tem preparo e não tem noção do papel que ocupa. O problema é que esse riso ecoa dentro de uma Câmara Municipal e respinga em todo o sistema político. E quando a sociedade assiste calada, passa a mensagem de que está tudo bem. Não está.

Não se trata de perseguição pessoal, tampouco de preconceito. Ao contrário. Trata se de exigir que alguém que ocupa um cargo público aja como tal. A estatura física nunca foi e nunca será o problema. O problema é a pequenez institucional, ética e simbólica. Itabaianinha merece ser conhecida por sua história, não por seus memes. Sergipe merece ser respeitado, não viralizado pelo ridículo. E o Brasil, cansado de palhaçadas políticas, merece representantes que entendam que governar, legislar e representar não é fazer graça, é ter responsabilidade.

Se o vereador quiser ser comediante, o país tem muitos palcos, muitos bares e até leis de incentivo à cultura. Que vá fazer rir onde o riso é bem vindo. Mas enquanto ocupar uma cadeira no Legislativo, que se comporte como legislador. E se o presidente da câmara quiser ser mesmo presidente de fato, que entenda que omissão também comunica. E comunica muito mal. Aqui fica meu desabafo e minha indignação. Porque respeito não é opcional. E política não é circo.

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