As últimas 24 horas da eleição sergipana pareceram uma mistura de convenção partidária, sessão de tribunal, programa de auditório e brincadeira de procurar candidato escondido. Fábio Mitidieri acendeu as luzes e colocou a máquina governista para desfilar. Valmir de Francisquinho passou o dia cercado de decisões, recursos e opiniões jurídicas, mas manteve uma serenidade que merece reconhecimento. Ricardo Marques tentou convencer o eleitor de que continua candidato, enquanto a própria direção do PL parece conferir diariamente a política de cancelamento da passagem. Emanuel Cacho e Dr. Helton Monteiro, por sua vez, enfrentaram o adversário mais cruel da política moderna: ninguém falando deles.
Fábio Mitidieri foi o dono da agenda. A convenção oficializou Jeferson Andrade como vice e apresentou André Moura e Rogério Carvalho ao Senado, reunindo partidos que, em condições normais de temperatura e pressão, dificilmente aceitariam sentar na mesma mesa sem um mediador e dois seguranças. Houve prefeitos, deputados, vereadores, caravanas, luzes, bandeiras e tanta liderança no palco que o eleitor comum poderia pensar que todos já haviam sido eleitos e só faltava escolher quem ficaria com a chave do Palácio. A fotografia foi poderosa, mas a unidade senatorial continua precisando de assistência técnica: André e Rogério aparecem juntos, porém alguns aliados ainda guardam um segundo voto particular no bolso. A chapa foi montada. O manual de fidelidade ainda está na gráfica. A composição entre Fábio, Jeferson, Rogério e André já havia sido anunciada após articulação política com o presidente Lula.
Valmir de Francisquinho não teve fogos, telão nem convenção nova para produzir imagens. Teve algo mais difícil: um incêndio jurídico para administrar sem sair correndo pelo corredor com o extintor na mão. A decisão envolvendo o ministro Sérgio Kukina alimentou pedidos de impugnação e discursos de adversários, enquanto a defesa sustenta que outras decisões e efeitos suspensivos preservam sua elegibilidade. A questão ainda dependerá da Justiça Eleitoral e não permite sentença política antecipada. O que chama atenção é a postura de Valmir: em vez de transformar a campanha num velório preventivo, reafirmou que continua candidato, deixou o jurídico trabalhar e manteve a voz no mesmo volume. Serenidade não ganha processo, mas evita que o candidato transforme o próprio palanque numa sala de pânico. Seus aliados, entre eles Priscila Felizola, André David e Eduardo Amorim, também sustentaram publicamente a continuidade do projeto. O Republicanos já havia oficializado Valmir e sua chapa em convenção realizada no bairro Santa Maria.
Valmir ainda recebeu uma pesquisa favorável justamente quando os adversários esperavam que ele aparecesse politicamente deitado numa maca. O levantamento INOR citado no dossiê colocou-o com 46,07%, contra 37,94% de Fábio, oferecendo combustível para a narrativa de que a batalha judicial não retirou sua competitividade eleitoral. Pesquisa não é urna, e outros levantamentos mostram cenários diferentes, mas, para quem passou o dia ouvindo a palavra “impugnação”, terminar a noite liderando um levantamento é quase sair de uma audiência e encontrar uma carreata na porta. Valmir conseguiu fazer algo politicamente importante: não controlar a pauta jurídica, mas impedir que ela engolisse completamente sua candidatura. Enquanto seus adversários tentavam escrever o epitáfio, ele permaneceu sentado, calmo, provavelmente perguntando se alguém já havia terminado de ler todos os recursos.
Ricardo Marques viveu a situação mais constrangedora. Está oficialmente na disputa pelo PL, com Pastora Salete como vice, mas sua candidatura parece funcionar com a observação “sujeita a alteração sem aviso prévio”. O presidente estadual do partido, Rodrigo Valadares, deixou claro que a prioridade é o Senado, o que transforma Ricardo no primeiro candidato ao governo que precisa pedir voto e, ao mesmo tempo, acompanhar as negociações para saber se continuará existindo até o fim da semana. Já Emanuel Cacho e Helton Monteiro passaram as 24 horas sem agenda pública capaz de disputar espaço com o espetáculo de Fábio ou a novela jurídica de Valmir. Emanuel representa o PSDB e o Cidadania; Helton, o PSOL e a Rede. Ambos possuem candidaturas legítimas, mas estão em modo avião: ligados, oficialmente disponíveis e sem sinal suficiente para chegar ao eleitor. No fim do dia, Fábio ganhou a manchete, Valmir preservou a resistência, Ricardo perdeu autonomia e Emanuel e Helton perderam até o fotógrafo.




