Toda semelhança desta história com fatos, personagens, acontecimentos, decisões, reuniões, disputas institucionais, bichos conhecidos da floresta ou criaturas que circulam entre galhos, tribunais e palácios é mera coincidência, ou talvez apenas excesso de imaginação do leitor. Esta é uma obra de ficção fabulística, construída no velho estilo das fábulas clássicas, onde animais falam, pensam, conspiram, filosofam, fazem política, criam teses jurídicas, sustentam memoriais e, vez ou outra, ainda tentam parecer imparciais enquanto escondem as garras debaixo da mesa.
Nenhum Leão aqui representa rei algum. Nenhuma Leoa preside tribunal algum. Nenhum Pavão desfila por vaidade pessoal. Nenhum Búfalo sustenta teses robustas. Nenhuma Coruja dá aula mirando alguém específico. Nenhuma Cutia corre contra o tempo. Nenhum Pato ameaça hegemonias eleitorais. Nenhuma Muriçoca atrapalha decisões estratégicas. Nenhum Papagaio repete frases de efeito por conveniência política. Tudo aqui é pura ficção. Absolutamente ficção. Se, por acaso, o leitor reconhecer nomes, gestos, olhares, silêncios, vaidades, frases ou personagens semelhantes aos do mundo real, recomenda-se apenas uma boa xícara de café e a consciência tranquila de que, às vezes, a realidade é tão extravagante que acaba parecendo literatura. Ou pior: acaba parecendo fábula. Passemos:
Na Floresta das Togas, onde os cipós pareciam artigos, os galhos lembravam regimentos e até os ventos sopravam em linguagem formal, havia uma novela que já não era mais novela. Era coleção completa. O tal Quinto da Clareira, que deveria ter sido resolvido com a elegância de um voo de garça, já se arrastava havia tanto tempo que os filhotes nascidos no começo da disputa já estavam crescidos, opinativos e praticamente prontos para abrir banca na mata. Todo bicho comentava. No lago, na copa das árvores, nos tocos de madeira, nos grupos de mensagem da selva e até nas apostas clandestinas da Bet do Brejo. Uns juravam que o Pavão pisaria firme no pódio. Outros rosnavam que o Lobo ainda tinha dente para isso. Havia quem apostasse na Cutia, ligeira e resistente, e quem jurasse pela Garça, de fala mansa e pena respeitada. Também havia os que cochichavam sobre o Leopardo, cuja presença por si só já punha a mata para pensar. E a Caçadora ex-Can que ainda ouvia cochichos de possibilidades.
No centro de tudo estava a Leoa, presidente do grande Tribunal da Floresta. Não rugia por vaidade, nem andava fazendo pose para espelho d’água. Rugia quando precisava. E, quando precisava mais ainda, nem rugia, decidia. Foi ela quem, ao perceber que um assunto mal resolvido vinha se arrastando como cipó velho em perna de anta, resolveu puxar a questão para a luz. Não empurrou a poeira para debaixo da toca. Não fingiu que o problema era apenas um boato de tronco em tronco. Fez o que poucos fazem quando o ambiente está carregado: abriu a janela institucional. E nisso, diga-se, mostrou porque naquelas bandas não era apenas a rainha do rito, mas também guardiã da respeitabilidade da floresta.
O problema, porém, tinha peso e teimosia. Um Búfalo, robusto como tese de vinte páginas, surgiu sustentando que poderia participar da grande escolha. E a mata, que não perde uma boa intriga, parou para olhar. Uns diziam que o Búfalo apenas defendia o direito de permanecer na roda. Outros, com a malícia habitual dos bichos mais antigos, cochichavam que aquela permanência tinha mais espinho do que flor. O curioso é que a confusão não nasceu de fofoca de bebedouro. Nasceu de alerta institucional. E quando a própria Clareira da Justiça decide examinar se um casco pode ou não pisar no terreno da votação, não se está diante de frescura. Está-se diante de um assunto sério o bastante para interromper o desfile.
Enquanto isso, diante de toda essa confusão, o Leão do Executivo olhava para a decisão da floresta, para a decisão do Quinto da Clareira, que possivelmente seria resolvida no próximo dia 05, numa sessão extraordinária. Olhava também para o próximo dia 5 de maio, pensava, curiava com seus asseclas e fazia contas silenciosas dentro da própria juba. “Eu preciso colocar o meu preferido na floresta da justiça. Preciso. Mas há uma possibilidade de mudar tudo caso não haja a despenação de um Pato.” Ele pensava com ele mesmo. Não dizia aquilo em voz alta. Era apenas vibração, elucubração, uma viagem muito louca que o rei do Executivo fazia entre ele e si próprio, porque sabia que as eleições da floresta executiva estavam perto e ele estava perdendo, de certa forma, sua hegemonia na mata.
O Pato avançava. E avançava com muita força. A Muriçoca, sempre ao lado do Leão, dava opiniões erradas, opiniões que confundiam ainda mais a cabeça do Leão. “Majestade, fique tranquilo, o Pato se afoga sozinho.” O Leão fechava os olhos. A Muriçoca tinha o raro talento de piorar qualquer tranquilidade. Então o Leão pensou e disse para si: “Não posso deixar de colocar o meu predileto na floresta da justiça. Isso é necessário. É necessário que eu coloque, porque caso continue da mesma forma, são casos muito parecidos. Pode chegar outra liminar.”
E, de repente, começou seu verdadeiro julgamento interno. “Se eu conversar com o Esquilo, que tem seus negócios jurídicos com o Pavão, ele vai pedir que eu recue, vai pedir que eu retroaja. não posso mais conversar com o Urso Belivas, porque ele já foi para o Pato com sua Ursinha.” O Leão caminhava em círculos. “A Onça dos Republicanos está cada vez mais com as garras para cima de mim. Devo estar perdido. A Cigarra fica cantando no meu ouvido, mas eu não faço nada, não ouço. O Corvo está pronto para me dar um bote. Meu Deus, o que eu vou fazer?” Parou diante da janela. “O Sabiá petista veio para cá nesse último momento compor a segunda vaga do Senado, mas também é uma pessoa em quem eu não posso confiar. O Camaleão já está candidato lá com o Gavião, com o Gavião, que é o segundo.”
Suspirou. “O que eu devo fazer? O que eu devo murmurar? O que eu devo pensar? Estou perdido.” Mas ainda havia uma convicção. “Eu sou uma pessoa que cumpro minhas palavras. Cumprirei minha palavra com o meu preferido, porque visitarei novamente a floresta jurídica. Conversarei com eles e falarei sobre a minha intenção. Mas o que será decidido pela floresta jurídica, eu não sei.” E concluiu, quase sorrindo: “Eu só sei que, caso o meu preferido lá não esteja, escolherei qualquer outro, pois acho que isso será um afronto a minha autoridade executiva.” E saiu em silêncio. Porque, na floresta, às vezes o silêncio do Leão faz mais barulho do que o próprio rugido.
Cerca de vinte dias antes, quando a floresta jurídica ainda fervia com as primeiras faíscas daquela confusão e o Quinto da Clareira parecia mais um labirinto do que um caminho entre as pedras, foi que o Leão do Executivo começou a carregar esse peso dentro da própria juba. Não era um pensamento solto, nem um capricho de ocasião. Era consequência direta dos acontecimentos recentes, das sessões tensas, das suspeitas levantadas, das movimentações silenciosas e da percepção cada vez mais clara de que aquela decisão da floresta da justiça poderia alterar profundamente o equilíbrio de poder em toda a mata. Foi ali, naquele intervalo entre a crise e a decisão que o Leão passou a observar cada passo com mais cautela, cada nome com mais desconfiança e cada silêncio com mais preocupação. O avanço do Pato, a fragilidade da própria hegemonia e a necessidade de garantir seu preferido dentro da floresta jurídica transformaram sua rotina num verdadeiro tribunal interno, onde ele já não conversava apenas com seus assessores, mas principalmente com seus próprios medos.
A conversa começou porque a demora já havia deixado de ser burocracia e virado desconforto. Os dois se sentiam observados por uma floresta inteira e queriam entender se o atraso tinha causa jurídica ou cheiro de preferência disfarçada. A Cutia respirou fundo e falou: “Leopardo, nós estamos no Quinto da Clareira. Nós somos negros, nós representamos a minoria. Quando é que isso vai sair? Será que estão preterindo a gente?” O Leopardo olhou para os lados, como quem confere se não há papagaio demais por perto, e respondeu: “Minha amiga, nesta floresta, quando a demora é grande demais, ela nunca vem sozinha. Vem acompanhada de medo, cálculo, vaidade e aquele silêncio que todo mundo chama de prudência para não chamar de outra coisa.” A Cutia franziu os olhos. “Mas o problema é jurídico ou é político?” O Leopardo sorriu com a elegância de quem já entendeu mais do que gostaria. “Na mata, quando dizem que é só jurídico, pode procurar, já tem política deitada atrás da moita, abanando o rabo.”
Mais adiante, perto da pedra onde os candidatos costumavam andar em círculos fingindo naturalidade, a Garça com seu olhar professoral encontrou o Pavão. Ela tinha a serenidade das aves que pensam antes de abrir o bico. Ele, o brilho de quem nasceu para ser visto até quando tenta disfarçar. A conversa surgiu porque a Garça já não aguentava mais o relógio enguiçado da floresta. O Pavão, embora vaidoso, também sabia que candidatura que demora demais começa a ganhar poeira nos próprios enfeites. A Garça ajeitou as penas e disse: “Pavão, nós precisamos resolver isso.” O Pavão abriu a cauda só um pouquinho, no volume exato entre a confiança e a conveniência. “Resolver, minha cara, todos queremos. O difícil é descobrir se a floresta quer resolver ou apenas prolongar o drama para ver quem se cansa primeiro.” A Garça inclinou a cabeça. “Drama demais estraga até sua plumagem bonita.” O Pavão suspirou. “Pois é. E eu já estou achando que nessa peça cada um quer ser protagonista, narrador e crítico de teatro ao mesmo tempo. Mas eu sigo com as minhas conspirações”
Enquanto isso, o Lobo rondava o assunto com aquela cautela típica de quem sabe que qualquer palavra mal colocada vira manchete no minuto seguinte. Foi então que a Garça, aproveitando a passagem dele, resolveu apertar mais um pouco o nó da questão. Esse diálogo aconteceu porque havia no ar a sensação de que alguém sempre pedia mais tempo, mais exame, mais cautela, mais alguma coisa. E a Garça, apesar da educação, já estava com a paciência bicando o próprio limite. Ela perguntou: “Lobo, por que isso não se resolve agora?” O Lobo, com a frieza dos que conhecem bem o frio, respondeu: “Porque não pode se resolver nesse momento. Tem que esperar uma decisão.”A Garça apertou os olhos. “Decisão sobre o quê? Sobre a decisão de decidir?” O Lobo não perdeu a pose. “Às vezes, na floresta jurídica, minha cara, antes de decidir quem entra, querem primeiro decidir quem pode olhar a porta.” A Garça soltou um riso curto. “Então estamos discutindo a fechadura enquanto a casa envelhece.” O Lobo, seco: “Pior. Estamos discutindo a chave, a maçaneta e a genealogia de quem encostou na dobradiça.”
Do outro lado da clareira, o Rinoceronte andava de um lado para o outro, bufando impaciência. Tinha o temperamento dos que preferem caminho aberto e conversa reta. Foi abordado pelo Elefante, que carregava memória, faro de bastidor e o peso de quem sabe que demora excessiva sempre conta uma história. Essa conversa surgiu porque a mata inteira cochichava teorias, e os bichos mais atentos queriam saber se ali havia apenas formalismo ou um enredo com dedos mais fundos. O Elefante se aproximou dançando e perguntou: “Amigo… o papo que rola na floresta é que esse atraso não é só atraso… será? Será que tem um eixo político dançando escondido atrás dessas árvores? Será que o Búfalo saiu da roda porque a música mudou e ninguém avisou? Será que existe uma coreografia secreta no grande tribunal da mata para empurrar o Pavão até o centro do palco? Porque, sinceramente, isso aqui já deixou de ser sessão solene e está parecendo trend de rede social: todo mundo olhando, todo mundo comentando e no final alguém solta um ‘será?’ com cara de quem já sabe a resposta.” O Rinoceronte olhou para o Elefante, balançou a cabeça no ritmo da moda da floresta, deu dois passos curtos para o lado, levantou o casco como quem já sabia de tudo e respondeu com aquele ar de dancinha inevitável: “Será… será que isso é só demora mesmo? Será que não tem um eixo político sambando por trás dessas árvores? Será que o Búfalo saiu do páreo porque a música mudou e alguém trocou a banda no meio da festa? Será que o tribunal da floresta está afinando o palco para o Pavão fazer sua entrada triunfal? Será… porque aqui, meu amigo, quando todo mundo começa a dizer que é apenas técnica, eu já começo a ouvir a sanfona da política tocando baixinho no fundo da mata…” Todos da floresta riram pois os dois dançando tremeram até o Palácio Florestal.
Na beira do lago, onde os conselheiros costumavam observar a floresta como quem lê mapas invisíveis, o Conselheiro Águia pousou ao lado do Conselheiro Leão. Um via de cima. O outro via de dentro. Juntos, os dois eram praticamente um editorial com garras. A conversa nasceu porque ambos assistiam havia anos ao mesmo atraso ganhar novas roupas sem mudar de corpo. E, para quem observa poder, poucas coisas são tão reveladoras quanto a demora. A Águia falou primeiro, seca como sentença bem escrita: “Esse Quinto da Clareira está difícil. Ninguém sabe, não sai há mais de três anos. Vai completar o quarto ano sem nada.” O Conselheiro Leão soltou um meio sorriso. “Na floresta, quando uma vaga demora demais, ela começa a criar raiz. E depois aparece bicho querendo usucapião do galho.” A Águia abriu as asas: “O mais curioso é que todo mundo diz querer solução. Mas uns querem solução depois da chuva, outros depois da lua cheia, outros depois da próxima estação.” O Leão respondeu: “E há ainda os que só querem solução quando ela coincidir com seus interesses. O resto chamam de prudência.”
Todos aqueles pensamentos, tanto os do Leão do Executivo quanto os cochichos, inquietações e estratégias dos demais bichos da floresta, não nasceram do acaso nem de mera paranoia florestal. Tudo aquilo era consequência direta das três grandes reuniões que aconteceram sobre o Quinto da Clareira, três encontros que mais pareceram capítulos de uma novela jurídica do que simples sessões administrativas. A cada reunião, a tensão aumentava, os olhares mudavam de direção, as alianças se redesenhavam e os silêncios passavam a dizer mais do que muitos discursos. Foi ali que o medo ganhou forma, a vaidade ganhou voz e a política resolveu sentar à mesa vestida de técnica. Mas foi no grande plenário da mata que o espetáculo realmente começou. A Leoa presidia tudo com firmeza. Não fazia teatro de autoridade, tinha autoridade de verdade. Sabia ouvir, sabia cortar quando necessário, mas sobretudo sabia não fugir do embate. E isso, numa floresta acostumada a muito bicho querendo parecer neutro enquanto afia as unhas debaixo da mesa, era qualidade rara.
O Aranha abriu a roda. Era meticuloso, articulado e gostava de tecer raciocínios como quem arma teias milimétricas entre uma premissa e outra. Seu entendimento era objetivo: se o Búfalo havia sinalizado que se afastaria, então talvez a discussão já estivesse esvaziada. Falou com a solenidade dos que acreditam ter encontrado o fio exato da lógica: “Aqui não estamos brigando por sombra de árvore nem disputando quem senta no melhor galho. O que está no centro da clareira não é vaidade de bicho, mas o choque entre caminhos, pensamentos e escolhas. Não é uma briga de dentes ou de penas, é a floresta tentando decidir qual trilha merece ser seguida.”Alguns animais assentiram. Outros franziram a testa. O Cão, leal ao rito e atento ao funcionamento do colegiado, não deixou a frase se instalar confortável no ambiente. Esse embate surgiu porque o plenário já não discutia apenas um nome. Discutia o próprio modo como se decide algo na floresta. E bicho que respeita rito sente arrepio quando tenta-se resolver no atalho o que nasceu para ser colegiado.
O Cão ergueu a cabeça e respondeu: “Debate de ideias, sim. Mas ideia, nesta floresta, não é passarinho solto que voa sozinho. Quando ela entra na clareira, ela vira assunto de todos, senta no tronco grande e mexe com o destino da mata inteira. O que foi colocado diante de todos não pode ser recolhido por um só, como se fosse cipó velho que se enrola no galho e ninguém mais vê. Aqui, quando a palavra ganha o centro da roda, ela deixa de ter dono e passa a pertencer à floresta.” A Aranha esticou uma pata. “Mas se o bicho que estava no meio da confusão resolve sair da clareira, será que a confusão também vai embora com ele? Se o casco deixa a lama, a lama deixa de existir? Ou será que as marcas continuam no chão, lembrando a todos por onde ele passou?” O Cão rebateu: “Nem sempre. Há coisas que, depois que são jogadas no centro da clareira, deixam de ser de um bicho só e passam a ser assunto de toda a floresta. Aqui não estamos olhando apenas para um casco pisando no barro. Estamos olhando para a forma como a mata inteira escolhe enfrentar suas próprias pegadas, seus próprios rastros e suas próprias dúvidas.” Foi então que o Corujão pediu a palavra. E quando o Corujão pedia a palavra, até os bichos mais afoitos baixavam um pouco a poeira. Havia nele um ar professoral que não era pose, era natureza. Falava como quem organiza o caos alheio em parágrafos mentais. Não gritava, iluminava. E naquela tarde, iluminou.
O ambiente ficou em silêncio porque todos sabiam que viria aula. E veio. Daquelas aulas que humilham a desordem sem precisar levantar a voz. O Corujão abriu as asas com calma e disse: “Nesta floresta, há pegadas que já nascem tortas. E quando o caminho começa errado, não adianta enfeitar o trilho com flores: ele continua levando para o lugar errado.” A mata inteira se mexeu. Ele continuou: “Vamos acabar o Código de Processual Florestal.” A Aranha tentou interromper o fio. Mas o Corujão, sem perder a serenidade, emendou: “Se toda vez que um problema chega ao centro da clareira ele puder desaparecer no primeiro vento de conveniência, então isto aqui não é regra da floresta, é truque de mágico de feira. E justiça que some com o problema em vez de enfrentá-lo deixa de ser justiça e vira apenas ilusão bem ensaiada.” Alguns bichos cochicharam aprovação. O Macaco GG quase bateu palma antes de lembrar onde estava. O Corujão, aproveitando o embalo, seguiu: “Aqui não estamos olhando retrato pendurado em árvore nem contando quem sentou junto no almoço de domingo. O que se discute é a confiança no caminho percorrido. Porque, quando a trilha já nasce cercada de desconfiança, até o jeito de caminhar importa tanto quanto o destino final.”
A Leoa ouviu tudo sem pressa, e esse era um dos seus méritos. Em ambiente de calor, não trocava firmeza por afobação. Ela deixava o raciocínio amadurecer no próprio fogo e só então conduzia a mata, mesmo estando a Aranha na frente do feito. Logo depois, a Ursa, de voz institucional e espírito agregador, tentou amarrar os galhos que o debate ia espalhando. Não era tarefa simples. Em plenário dividido, costurar sem parecer superficial exige mais do que boa vontade. Exige tino. Sua fala veio porque a sessão já mostrava dentes demais. E alguém precisava lembrar que colegiado também é convivência, não apenas placar. A Ursa falou com doçura grave: “Aqui não estamos olhando retrato pendurado em árvore nem contando quem sentou junto no almoço de domingo. O que se discute é a confiança no caminho percorrido. Porque, quando a trilha já nasce cercada de desconfiança, até o jeito de caminhar importa tanto quanto o destino final.” O Papagaio, que adorava repetir o que ressoava bonito, murmurou a frase em eco. Mas o Corujão, com sua elegância habitual, inclinou a cabeça e disse: “Sim, Ursa. Juntos somos mais fortes. Mas fortes mesmo somos quando conseguimos divergir sem chamar a divergência de desunião.” A Ursa assentiu. “Concordo. União que não suporta diferença é só verniz de madeira molhada.”
Em seguida, a Gata, técnica, precisa e observadora, trouxe o debate para o terreno das categorias. Gostava de separar aparência de regra como quem separa fios de um novelo emaranhado. Ela falou porque via muitos bichos tratando impressão moral como se fosse norma escrita, e outros tratando norma escrita como se pudesse dispensar a moral. E em tribunal sério, nem uma coisa nem outra pode passear sozinha. A Gata disse: “Nesta floresta, nem todo bicho que divide sombra de árvore pode ser chamado de família, mas também nem toda trilha aparentemente limpa está realmente livre de pegadas suspeitas. Às vezes, o caminho parece correto aos olhos, mas ainda assim deixa no ar aquele cheiro de desconfiança que nenhuma folha consegue esconder.” O Polvo, com seus muitos braços mentais para segurar a civilidade da sala, concordou: “Numa floresta viva, cada bicho pode rugir, cantar, chiar ou piar do seu jeito, porque pensar diferente faz parte da mata. O que não se pode é transformar a clareira do debate em campo de caça, onde a divergência deixa de ser conversa e vira tentativa de devorar o outro.”A Gata completou: “O difícil, nesta mata, é que uns querem certeza absoluta onde só há prudência possível. E outros querem prudência onde já seria hora de gesto.”
Foi então que o Papagaio, sempre atento ao valor simbólico das coisas, resolveu comentar a atitude do Búfalo. Fez isso naquele tom de quem enxerga nobreza na retirada, mas não deixa de notar a hora em que ela acontece. Esse diálogo surgiu porque a saída do Búfalo, embora relevante, carregava um detalhe impossível de ignorar: poderia ter vindo antes. E na vida pública, gesto e tempo formam casal inseparável. O Papagaio falou: “Às vezes, o maior sinal de força não está em permanecer no centro da clareira, mas em saber a hora de recuar para que a floresta não adoeça junto. Há honra em sair quando ficar passa a ferir mais do que proteger.” O Macaco, pendurado num galho lateral, soltou: “Há. Mas se tivesse saído antes, a nobreza vinha de capa e banda de música.” A clareira riu. O Papagaio prosseguiu: “Mesmo assim, saiu grande.” O Corujão ajeitou os óculos naturais do olhar e respondeu: “Grande, sim. Lendário, se o tempo tivesse ajudado. Porque há atrasos que chegam tão bem vestidos que alguns quase esquecem que continuam sendo atrasos.” A Leoa conteve um sorriso curto. Sabia que a frase merecia moldura.
Em outro canto da floresta, o Super Mouse (ABES), paciente e metódico, observava tudo com aquele jeito de quem demora a falar, mas, quando fala, enfia o focinho exatamente onde a poeira esconde o essencial. Ao seu lado, a Preguiça acompanhava a sessão no seu próprio tempo, com aquela calma quase filosófica de quem parece lenta, mas enxerga tudo antes dos outros. A conversa entre os dois nasceu porque ambos percebiam que a mata já não discutia apenas a escolha, e sim o constrangimento de ter demorado tanto para escolher. O Super Mouse murmurou: “Estamos diante de uma vaga ou de uma peça em cartaz?” A Preguiça, depois de um silêncio respeitosamente demorado, respondeu: “De… uma… vaga… encenada… por… animais… demais… e… relógios… de… menos…” O Mouse emendou: “E o pior é que, de tanto adiar, a vaga já aprendeu até o caminho de casa sozinha.” A Preguiça levantou os olhos devagar, quase como quem assinava um parecer invisível, e disse: “Do… jeito… que… vai… qualquer… dia… o… substituto… pede… usucapião… da… cadeira… e… ainda… aparece… quem… ache… razoável…”
Nisso, o Girafão, que nunca perdia a oportunidade de fazer graça no momento mais solene possível, levantou a mão e perguntou em voz alta: “Vamos discutir exatamente o quê nesta clareira? O rastro da pegada, a sombra do galho ou o eco do rugido que já passou? Porque, sinceramente, nesta floresta já se debateu tanto o vento que já ninguém sabe mais se estamos caçando a onça ou apenas discutindo o barulho das folhas.” Houve um instante de silêncio. Ele mesmo respondeu, antes que alguém o repreendesse: “Se o velho Corvo Kafka voasse por esta clareira hoje, sentaria num galho, balançaria a cabeça e diria que até para o absurdo existe limite. Porque aqui já não se sabe se estamos julgando o bicho, a sombra do bicho ou apenas a lembrança da pegada que ele deixou no barro.” Até a Leoa precisou esconder o riso na juba. A Aranha franziu a teia. O Girafão continuou: “Porque, sinceramente, nesta floresta já debatemos o caminho da dúvida, a dúvida do caminho, a árvore genealógica do galho e até a honestidade do poleiro onde cada um pousa. Falta apenas abrir uma grande assembleia para decidir se até o silêncio, quietinho no canto da clareira, também tem direito de levantar a pata e votar.” O Polvo, sem perder a compostura, advertiu: “Girafão, abaixe esse pescoço e pouse um pouco na terra. Nem toda verdade precisa vir saltando de galho em galho como se fosse espetáculo de circo na praça da floresta.” O Girafão curvou-se: “Excelência de muitos braços, eu juro pelas folhas desta mata que não estou fazendo acrobacia nenhuma, estou apenas colocando em palavras o barulho que a própria floresta já anda sussurrando entre os galhos.”
Do lado de fora, a Cabra, o Tucano, a Lebre, a Preguiça, o Rato e o Caçador CAN trocavam impressões sobre o que viam. Eram personagens paralelos, mas em mata política até personagem lateral tem informação privilegiada, opinião pronta e alguma ironia guardada. Essa roda surgiu porque toda grande decisão da floresta gera um subplenário informal, aquele onde os bichos comentam com mais sinceridade do que fariam diante da tribuna. A Cabra falou: “Isto já deixou de ser demora e virou árvore com raiz funda. O que era para ser apenas um caminho curto já se transformou numa trilha tão longa que até os bichos mais pacientes começaram a esquecer onde ficava a chegada.” O Tucano, sempre eloquente, emendou: “Passou do razoável, fez ninho no atraso e ainda parou pelo caminho para tomar água no brejo. A demora aqui já não anda, ela passeia com tranquilidade de quem acha que é dona da própria trilha.” A Lebre perguntou: “Mas será que a Leoa, com seu rugido de ordem, e a Aranha, com sua teia de argumentos, vão conseguir guiar essa floresta sem deixar que cada bicho saia correndo para um lado diferente?” O Caçador CAN respondeu: “Já estão conduzindo, e diga-se de passagem, se não fosse a firmeza da Leoa, esta clareira já teria deixado de ser tribunal para virar desfile de egos, com cada bicho estacionando sua vaidade bem no meio do caminho e impedindo qualquer passagem.” A Preguiça, como sempre, levou um tempo para entrar na conversa: “Eu… que… vivo… no… tempo… das… árvores… e… converso… com… o… vento… sem… pressa… nenhuma… já… comecei… a… achar… que… esta… espera… está… caminhando… mais… devagar… do… que… eu…” Todos olharam para ela. O Rato ABES soltou: “Quando até a Preguiça, que conversa com o tempo como velha amiga, começa a reclamar da demora, é porque esse processo já não está apenas parado — ele criou raiz, estendeu a rede e resolveu morar de vez na própria sombra.”
Mais tarde, já com a sessão pesando nas patas de todos, espalhou-se pela mata a notícia de que o Búfalo resolvera se retirar da disputa sobre sua própria participação. E isso mudou o ar. Não resolveu tudo, mas afrouxou o nó principal. A clareira respirou como quem tira o sapato depois de atravessar estrada de pedra. A reação foi imediata. Havia alívio, havia comentário elogioso e havia também aquela observação maliciosa que toda floresta madura sabe fazer sem precisar aumentar o tom. O Búfalo apareceu com a dignidade de quem tenta devolver ao gesto a grandeza que o tempo lhe tirou um pouco. E disse, em expressão que se espalhou pelos galhos: “Vou me afastar um pouco da clareira, não por fraqueza, mas para que a floresta continue em pé. Às vezes, preservar a mata vale mais do que insistir em permanecer no centro dela.” O Conselheiro Águia, ouvindo de longe, comentou: “Bela fala. Dessas que pousam leves no ouvido, mas deixam peso de reflexão em toda a floresta.” O Conselheiro Leão completou: ““Boa e necessária. Porque há momentos em que a floresta não precisa de mais rugidos, mas de um passo sensato para que a mata volte a respirar em paz.” O Corujão, sempre calibrado, acrescentou: “A fala foi bonita, o gesto teve grandeza, mas o tempo… ah, o tempo na floresta também cobra seu preço. Há passos que, se dados mais cedo, viram lenda; quando chegam tarde, ainda são nobres, mas já vêm acompanhados da pergunta que ninguém consegue calar.”A Leoa encerrou a observação com justiça: “O que realmente importa é que a floresta volte a respirar. Porque uma mata em paz vale muito mais do que um orgulho teimoso ocupando sozinho o centro da clareira e sufocando tudo ao redor.”
Naquela mesma noite, já sem o calor da sessão, a Garça voltou a encontrar o Pavão. A tensão havia baixado, mas a incerteza ainda rondava como morcego em telhado de sítio antigo. Esse novo diálogo surgiu porque, quando a poeira baixa, os candidatos deixam de falar com a floresta e voltam a falar consigo mesmos através do outro. A Garça disse: “Talvez agora a trilha finalmente volte a sair do lugar, e o que estava preso entre galhos e sombras encontre coragem para seguir adiante sem tropeçar no próprio atraso.” O Pavão respondeu: “Talvez… mas nesta floresta até a esperança precisa pedir licença, reunir folhas, ouvir testemunhas e esperar autorização no tronco grande. Aqui, até o ‘talvez’ só consegue caminhar depois que alguém carimba a trilha e autoriza o voo dos sonhos.” A Garça riu. “Você leva jeito para suportar demora.” O Pavão levantou o pescoço com elegância. “Não confunda vaidade com resistência. Vaidade gosta de aplauso, de pena brilhando ao sol e de plateia admirando o desfile. Resistência é outra coisa: é atravessar a neblina sem precisar abrir a cauda para lembrar ao mundo que ainda está ali.” A Garça, generosa, reconheceu: “Justo. E, diga-se, você atravessou essa novela sem perder a plumagem.” O Pavão respondeu: “Na floresta, minha cara, perder a plumagem é fácil. Difícil é não perder a compostura quando todo mundo quer arrancar uma pena para levar de lembrança.”
Em outro trecho do bosque, a Cutia tornou a procurar o Leopardo. Queria saber se agora, depois do recuo do Búfalo, a mata finalmente pisaria em terreno menos movediço. A conversa recomeçou porque há momentos em que a retirada de um obstáculo não elimina a desconfiança de quem passou tempo demais diante dele. A Cutia perguntou: “E agora?” O Leopardo respondeu: “Agora a floresta tem menos desculpa.” Ela insistiu: “Você acredita que vai?” O Leopardo olhou para o céu escuro entre os galhos. “Acredito no seguinte: quando a desculpa principal cai, as secundárias começam a ficar feias.” A Cutia cruzou as patas. “E quanto a nós?” O Leopardo respondeu com firmeza: “Quanto a nós, seguimos. Porque representação não pode depender do humor da fila.”
Já o Rinoceronte e o Elefante retomaram a conversa da tarde, agora com menos conspiração e mais avaliação de danos. O Elefante abriu: “Então era isso mesmo? Bastava um gesto?” O Rinoceronte respondeu: “Às vezes, bastava. Outras vezes, bastava mais cedo.” O Elefante assentiu: “É curioso como certos conflitos passam semanas se alimentando de formalidade e morrem de um simples passo para trás.” O Rinoceronte, seco como sempre: “É porque há batalhas que não pedem vitória. Pedem saída honrosa.” O Elefante sorriu. “Você devia escrever.” O Rinoceronte bufou: “Já basta aguentar quem escreve demais e resolve de menos.”
Na manhã seguinte, a mata amanheceu comentando duas figuras com especial respeito. A Leoa, por ter colocado o tema na mesa e não ter fugido da responsabilidade, foi tratada como quem entendeu que autoridade não é esconder crise, é conduzi-la. E o Corujão, pela aula pública de raciocínio, ganhou a admiração até de bichos que discordavam dele, porque há falas que convencem menos pelo lado escolhido e mais pela densidade com que se apresentam. Mas, apesar de toda a poeira baixar, uma pergunta ainda continuava voando de galho em galho, pousando em cada roda de conversa, em cada café improvisado e em cada aposta da Bet do Brejo: afinal, quem subiria para a tão falada lista sêxtupla?
O Pavão seguia desfilando suas penas como quem já ensaiava o retrato oficial. O Lobo observava em silêncio, porque há animais que falam mais quando não dizem nada. A Cutia corria de um lado para o outro, com a firmeza de quem sabe que resistência também é candidatura. A Garça mantinha a elegância serena de quem prefere convencer pelo voo e não pelo barulho. O Leopardo surgia como presença forte, daquelas que entram na clareira e obrigam até o silêncio a prestar atenção. E a Coruja, sempre técnica, seguia lembrando a todos que, na floresta jurídica, até o sonho precisa vir acompanhado de jurisprudência. Ninguém sabia ao certo. E talvez esse fosse o verdadeiro retrato da floresta.
Porque ali, mais importante do que saber quem entraria, era entender quem realmente conseguiria permanecer sem ser devorado pela própria vaidade ou pela fome política dos outros bichos. Foi então que, ao final de tudo, um velho Conselheiro Leão reuniu alguns jovens animais e lhes contou a moral da história: Na Floresta das Togas, meus filhos, há pavões, lobos, leopardos, cutias, corujas, elefantes, rinocerontes e búfalos. Todos têm sua natureza, seus talentos e seus excessos. O problema nunca foi haver diferença entre eles. O problema começa quando a vaidade quer mandar mais do que a prudência, quando o tempo da instituição vira moeda de troca e quando a clareira deixa de buscar justiça para começar a disputar espelho. E lembrem-se: numa floresta séria, nem sempre vence o bicho mais barulhento, o mais bonito ou o mais temido. Às vezes, vence justamente aquele que soube esperar sem se perder, caminhar sem atropelar e chegar sem precisar empurrar ninguém do galho. Agora… sobre quem vai para a lista tríplice… ah, meus filhos… isso até os ventos da mata ainda estão tentando descobrir.”




