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Editorial: O erro de Fábio fortaleceu os Republicanos e empurrou Valmir para o centro do jogo

A política tem uma regra simples, quase primitiva, mas que continua sendo ignorada por quem chega ao poder com pressa e pouca leitura de grupo, ninguém governa sozinho e ninguém desmonta a própria base sem pagar a conta depois. O caso dos Republicanos em Sergipe é um exemplo didático disso. Um partido que sempre foi coletivo, estruturado em grupo, com liderança distribuída, virou, no meio do caminho, um projeto concentrado, quase personalista, e o resultado já começa a aparecer no horizonte eleitoral.

Os Republicanos nunca foram um partido de ocasião. Desde a era de Marcelo Déda, Jackson Barreto e  Belivaldo Chagas  o partido ocupou espaços estratégicos, construiu presença institucional e, principalmente, formou uma base política sólida, com nomes que sustentaram o crescimento com trabalho e fidelidade. Não era um partido de gabinete, era de campo, de articulação, de gente que conhecia voto, território e liderança. E é exatamente essa essência que foi sendo deixada de lado ao longo do atual governo.

O governador Fábio Mitidieri, por escolha ou talvez por aquele clássico excesso de confiança de quem acha que política se resolve só com caneta e cargo, resolveu apostar tudo em um modelo quase solitário. Ao concentrar forças em torno de Gustinho Ribeiro, transformou um partido que sempre viveu de grupo, conversa e articulação, em algo muito mais parecido com condomínio fechado, entra um, sai outro e o síndico decide tudo. O que antes era mesa grande virou cadeira cativa. O que era base virou plateia. E política, quando deixa de ser roda de conversa e vira show solo, normalmente termina com aplauso de poucos e vaia de muitos.

E aí começa o problema de verdade. Porque os chamados republicanos raiz, gente como Heleno Silva, Jony Marcos, Raimundinho de Porto da Folha, Francisco de Assis Dantas, Fausto Leite, Aristóteles Fernandes, Léo Jackson, Sargento Morais não desapareceram. Eles continuam filiados, continuam vivos politicamente, continuam com base. O que faltou não foi presença deles, foi reconhecimento do governo. E quando o político deixa de ser ouvido, ele não some, ele se reposiciona.

Nesse vácuo, surge o movimento mais interessante do tabuleiro. A prefeita Emília Corrêa entendeu o que o governo não quis entender, política se faz com soma, não com substituição. Emília faz o básico bem feito, ouve a velha guarda, acolhe a nova, mistura experiência com renovação e reconstrói o partido como ele sempre foi, coletivo. Não é genialidade, é fundamento. Mas em tempos de erro, o básico bem feito vira estratégia vencedora.

E não para por aí. Valmir de Francisquinho cresce exatamente onde houve abandono. Ocupa espaço, consolida base, articula com naturalidade e aparece como alternativa real. E ao lado dele, Edivan Amorim demonstra leitura fina de cenário, trazendo os Republicanos para perto com inteligência, com timing e com visão de grupo. Não é acaso, é estratégia bem executada.

Agora vem o ponto que mais dói para qualquer governo. Tudo isso poderia ter sido evitado. Bastava dividir, bastava reconhecer, bastava equilibrar. Bastava deixar a base antiga na Segrase. Mas o governador preferiu concentrar, preferiu ignorar, preferiu apostar que política se sustenta apenas com estrutura de governo. Não se sustenta. Política se sustenta com gente. E gente, quando não é valorizada, muda de lado.

E aí a pergunta que fica no ar, com aquele sorriso de quem já entendeu o jogo, se os Republicanos ainda estivessem dentro do governo, quem estaria hoje com a oposição? Talvez um partido menor, talvez uma sigla sem força real. Mas não. Hoje o número 10 é protagonista, é base de oposição, é estrutura forte. E isso não é obra do acaso, é consequência direta de um erro político grave.

No fim das contas, o governador pode até não admitir, mas vai sentir. Porque eleição não se ganha só com máquina, se ganha com grupo. E quem transforma um partido de grupo em partido de uma pessoa só, no fundo, está fazendo o serviço mais perigoso da política, está construindo o próprio adversário.

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