Começou! A camisa da Seleção, durante anos associada ao bolsonarismo e evitada por parte da esquerda, voltou ao guarda-roupa petista. André Janones convocou apoiadores de Lula a vestir verde e amarelo e fazer o famoso L. Lula, artistas e militantes entraram na passarela digital. Em Sergipe, as postagens também chamaram atenção. A ironia é irresistível: a peça que provocava discussões ideológicas agora virou uniforme de campanha. Na política brasileira, até a coleção muda conforme a estação eleitoral. E desta vez o lançamento veio pelo WhatsApp. Quem imaginava que a moda nacional teria tanto trabalho para reconciliar uma camisa de futebol com a liberdade de escolha de seus torcedores?
O curioso é que ninguém precisou alterar a bandeira, o hino ou a Seleção. Mudou a disposição de exibir suas cores. Para muitos, o amarelo havia se tornado uma identificação bolsonarista; outros deixaram de usá-lo para evitar rótulos. Agora os petistas querem disputar o símbolo, e têm todo o direito. O verde e amarelo pertence ao país inteiro. Mas fica a pergunta: foi preciso chegar à reta final da eleição para descobrir que patriotismo não tem proprietário? O que ontem causava constrangimento hoje rende fotografia sorridente. O problema nunca esteve nas cores da camisa, mas na facilidade com que cada grupo tentou transformar símbolos coletivos em certificados partidários.
A novidade ganhou requintes de tecnologia: houve quem recorresse à inteligência artificial para aparecer com a camisa da Seleção. Nem foi preciso entrar numa loja. Um comando, alguns segundos e pronto: patriotismo em alta resolução, sem passar pelo provador. A mobilização às vésperas do segundo turno, em 25 de outubro, mostra que o figurino também entrou no planejamento de campanha. A política chegou a um ponto em que o brasileiro precisava explicar seu voto antes de vestir uma camiseta. Agora tenta corrigir esse absurdo com a mesma velocidade com que o alimentou.
Que a mudança sobreviva às urnas. O bolsonarismo não é dono da bandeira, e a esquerda não precisa pedir licença para usá-la. Mas patriotismo não deveria ser fantasia eleitoral, guardada assim que termina a propaganda. Nesse ritmo, logo haverá campeonato para saber quem canta o Hino Nacional mais alto e quem consegue fazer o L sem tirar a mão do peito. Seria ótimo se parte desse entusiasmo fosse dedicada a emprego, saúde, educação e contas públicas. Mudar a camisa é fácil. Difícil é mostrar que, por baixo dela, existe algo além de marketing.




