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Adeus Clarinha, você sempre será luz

O jornalismo sergipano amanheceu neste domingo mais silencioso e mais pobre culturalmente. Morreu Clara Angélica Porto, a eterna Clarinha, jornalista, cronista, cantora, tradutora e uma das mulheres mais sofisticadas intelectualmente da comunicação sergipana. Clara pertenceu à geração que fazia jornalismo na rua, no telefone fixo, na máquina de escrever barulhenta e no olho no olho. Começou ainda adolescente como colunista da Gazeta de Sergipe, participou da chegada da televisão ao Estado e atravessou décadas da comunicação mantendo algo raro nos dias atuais: elegância intelectual, profundidade e humanidade. Enquanto hoje muita gente aprende comunicação em vídeo de quinze segundos, Clarinha ajudou a construir o jornalismo sergipano com leitura, repertório e sensibilidade.

Mas Clara nunca foi apenas currículo bonito. Era personagem viva da cena cultural aracajuana. Quem viveu Aracaju das décadas de 70, 80 e 90 certamente cruzou com Clarinha em algum sarau, roda artística, mesa de bar ou apresentação musical. E quase sempre ela surgia sorrindo, com os olhos brilhando e uma história inteligente pronta para transformar qualquer conversa simples em espetáculo cultural. Admiradora de Spinoza, carregava uma inteligência inquieta e uma delicadeza rara. Em tempos de redes sociais histéricas e opiniões fabricadas em série, Clara parecia pertencer a uma geração que pensava antes de falar e lia antes de opinar.

Sua relação com a música também ajudou a transformá la em figura afetiva da cultura sergipana. “Jambalaya” virou quase uma assinatura emocional nas noites aracajuanas onde Clarinha aparecia cantando, contando histórias e iluminando ambientes com presença leve e sofisticada. Ao lado da irmã Lília, dos filhos Sasha e Vanessa e de uma geração inteira de artistas, jornalistas e intelectuais, construiu uma trajetória marcada por afeto, inteligência e permanência. Não fazia barulho para existir. Não precisava disso. Sua presença preenchia naturalmente qualquer espaço.

A morte de Clara Angélica representa mais do que a despedida de uma grande jornalista. Representa a saída gradual de uma geração que ajudou Sergipe a pensar culturalmente. Uma geração que entendia comunicação como construção humana e não apenas como algoritmo. Clarinha deixa textos, memórias, música, afeto e uma ausência difícil de preencher. Porque algumas pessoas passam pela vida apenas ocupando espaço. Outras, como Clara Angélica Porto, iluminam o ambiente inteiro enquanto estão nele.

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