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Alicerce de metal, de afeto e de cem excelentes

Há tesouros que o tempo não desgasta, porque não são feitos de metal, mas de sacrifício, amor, doação e promessa cumprida. A Monareta, bicicleta da marca Monark, do ano 1970, é considerada um divisor de águas e um dos maiores ícones da história do ciclismo nacional. Aquele ano marcou a transição da primeira para a segunda geração do modelo Monareta.

Olhar e pensar naquela Monareta, que ainda hoje tenho, é fazer o tempo recuar até a sala de aula da minha infância, no ano da minha alfabetização. Ela foi um sonho quase impossível de duas rodas. Aliás, foi muito mais! Cem vezes “excelente”. Cem pequenas marcas de tinta de uma amada professora no caderno de um menino. Para uma criança, o desafio parecia simples, mas a meta era gigante: cem anotações de “excelente” nas tarefas de casa. Era, também, o tempo que minha mãe precisava para se capitalizar, acreditava ela. E era muito, muito mais!

Filho de professora, curti, intensamente, a infância. A escola? Via como impossibilidade de brincar mais e mais  num dos turnos do dia. Eu estava sempre brincando… Adorava a liberdade (ainda a amo!). Os filhos dos demais professores, geralmente, entravam na escola já alfabetizados. Eu, não. Não tinha tempo… E minha avó dizia: “Agora, ele tem que brincar. Ele vai crescer.” Numa escola pública estadual em Barreiros, São José, SC, o futuro começava a se delinear por mãos sábias. Por isso, afirmo que, também, sou filho da Educação. Para muitos, poderiam ser, apenas, notas num caderno de atividades… Para mim, com sete anos, feitos em novembro do ano anterior, eram as pegadas de um caminho que desenhava o futuro. 

Cada atividade, chamada “Deveres”, feita, na porta da sala de casa, sem adentrá-la, ao chegar da escola, era um tijolo na construção de um sonho que parecia grande demais para os nossos bolsos vazios, mas nunca pequeno demais para o amor de minha mãe, Maria Stella, e da avó, Thomázia.  Mãe solo e filha única, mulher de recursos escassos e coragem infinita, olhava para aqueles cem “excelentes” não apenas como o sucesso escolar do filho, mas como uma promessa. Enxergava longe, apesar de a vida ter-lhe feito viver o aqui e o agora.

Ela cumpriu a promessa, mesmo quando o mundo lhe disse que, aparentemente, não havia como. Em agosto de 1970, a minha primeira e desafiadora grande meta foi batida. Meu coração acelerou. Lembro-me do dia: Dona Marilene, professora, vibrou comigo. Ganhei um beijo e um abraço. Aquele simples gesto de acolhimento, valorização e empatia norteou minha atividade como docente e coordenador de cursos superiores por onde passei profissionalmente. “Você conseguiu, Alcides”, destacou com os olhos cheios de lágrimas. Hoje sei que o mérito é, e foi, muito mais dela…Os docentes têm o divino poder de semear futuro e de mobilizar o aprendizado. São “mães e pais da Educação”, que muito se doam!

A conquista e um verdadeiro “milagre” não veio sem peso. Para transformar o esforço do meu lápis em metal reluzente, a minha desejada bicicleta, minha mãe estendeu a mão ao IPESC, Instituto de Previdência de SC, buscando, em um empréstimo pessoal, o que a realidade lhe negava. Cada parcela daquela dívida era, na verdade, uma prestação muito suada de fé no meu futuro. Era um investimento na minha capacidade de ir além, de desafiar-me.  E, então, chegou novembro. Com ele, o dia do meu aniversário, o abraço e beijo de minha mãe e de minha avó, o cheiro de bolo simples, feito e confeitado em casa mesmo… E, ali, a consagração: a bicicleta! E que bicicleta, lindíssima. Um troféu, hoje eu sei. E permanece assim!

Aquela bicicleta não era apenas um meio de transporte ou um brinquedo de infância: era a materialização física do respeito, da conquista, de esforços, de renúncias, de foco…. Ela guardava, em seu quadro e estrutura, o suor de Dona Stella, o auxílio imprescindível de minha avó, “Mainha”, a energia doce e o amor pela docência da Dona Marilene, que me inspirou, bem como meu foco de menino sonhador e já visionário.Nas pedaladas que dei pelas ruas da infância, aprendi as lições mais profundas que carrego até hoje, como o valor da consistência.

Entendi que os grandes prêmios da vida não vêm no primeiro acerto, mas na persistência do centésimo “excelente”. Na profissão e na vida pessoal, cada projeto bem-sucedido é filho daquela mesma disciplina de 1970. Eu entendi, ainda menino, que as grandes conquistas exigem constância, paciência e o cumprimento de etapas passo a passo. 

O equilíbrio e a resiliência foram aprendizados práticos no primeiro ano do Primário, hoje Ensino Fundamental: cair, levantar, ralar o joelho, ajustar o guidão, recolocar a corrente e seguir em frente. “E tá tudo certo”, como, hoje, diz minha terapeuta. A linda Monareta me ensinou a navegar pelas curvas difíceis e competitivas (nem sempre éticas) do mercado e da vida com a cabeça erguida, valorizando e agradecendo, com muita ética, justiça e respeito. Nem todos poderiam tê-la. Assim, eu a compartilhava para que outros tivessem a mesma alegria que eu desfrutava. 

Já a gratidão se fez norte. O motor daquela bicicleta nunca foi a corrente ou os pedais… Foi o amor sacrificial da minha mãe e de minha vó.  Hoje, a bicicleta mostra marcas no metal, as rugas do tempo que contam a nossa vitória, a nossa história.  Os cadernos de atividades diárias: tenho-os, visíveis. Sempre, os abro e dou uma folheada e visualizo os  “excelentes”, que traziam alívios e sorrisos, e os “bons” ou “satisfatórios” que me corrigiram. Todos, ensinaram e ensinam até hoje.

Todas, Dona Marilene, minha vó (que nunca visitou o nordeste e que era, carinhosamente, chamada “Mainha”) e minha mãe transformaram minhas primeiras letras em asas. Com elas e com minha Monareta, tudo começou e continua!  A educação, temperada com amor, afeto e mérito, tem o poder de nos levar a qualquer lugar do mundo, cada um com a sua Monareta a incentivar.

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