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Antes da roda gigante, Sergipe precisa fazer girar o essencial

Há projetos que fazem a cidade olhar para o céu. Outros fazem o cidadão voltar a olhar para o chão. A proposta da roda gigante para Aracaju tem potencial turístico, pode atrair visitantes, movimentar a economia e dar um novo cartão-postal à capital. Tudo isso é legítimo. O problema começa quando a roda gira tão alto que parece fazer alguns gestores perderem de vista aquilo que continua acontecendo no asfalto: estradas esburacadas, comunidades sem água regular, escolas precisando de investimentos e uma saúde pública que ainda convive com reclamações frequentes. Como já cantava Chico Buarque, “roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião”. A pergunta é simples: enquanto a roda gira, o que realmente está andando em Sergipe?

O chamamento público lançado pela Desenvolve-SE mostra que o Estado sabe construir modelagens modernas para atrair investimentos privados. Excelente. Isso demonstra capacidade técnica, criatividade jurídica e disposição para buscar alternativas. Mas aí nasce uma provocação inevitável: se existe inteligência para estruturar uma parceria de trinta anos para uma roda gigante, por que essa mesma engenharia institucional não aparece com a mesma velocidade para hospitais, escolas, centros tecnológicos, habitação popular, recuperação de rodovias e sistemas de abastecimento de água? A criatividade administrativa não deveria escolher apenas paisagens bonitas; deveria visitar também os problemas mais antigos.

Não há qualquer demérito em investir no turismo. Pelo contrário. Turismo gera emprego, renda, arrecadação e desenvolvimento. O erro seria imaginar que desenvolvimento se mede apenas pela altura de uma roda gigante. O verdadeiro gigantismo de um governo é visto quando o cidadão encontra um posto de saúde funcionando, uma estrada segura para escoar a produção, uma escola equipada e água chegando à torneira sem depender de promessa política. O sergipano gosta de novidade, mas gosta muito mais de solução.

Talvez a Desenvolve-SE pudesse liderar um movimento ainda mais ousado. Que tal lançar modelagens para construção e gestão de hospitais regionais, novas escolas técnicas, moradias populares, parques industriais, centros de inovação e grandes projetos de infraestrutura? Se a iniciativa privada pode ajudar a transformar um ponto turístico em realidade, também pode contribuir para acelerar investimentos que mudem a vida de quem acorda às cinco da manhã para trabalhar e não de quem apenas procura um bom cenário para fotografia nas redes sociais.

A política, às vezes, sofre da chamada síndrome da inauguração fotogênica. Uma roda gigante rende imagens bonitas, drone, vídeo institucional e postagem elegante. Já uma estação de tratamento de água dificilmente vira cartão-postal, embora transforme muito mais vidas. Um hospital funcionando plenamente não produz selfies emocionadas, mas salva famílias inteiras. Uma escola de qualidade talvez não renda tantos cliques, mas muda gerações. É justamente aí que mora a diferença entre governar para a fotografia e governar para a história.

Chico Buarque escreveu que “a gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar”. O sergipano também quer. Quer participar da construção do futuro, mas sem precisar escolher entre desenvolvimento econômico e dignidade social. Uma roda gigante pode muito bem dividir espaço com uma saúde eficiente, uma educação forte e uma infraestrutura moderna. Uma coisa não exclui a outra. O que não pode é a roda girar enquanto a sensação de espera continua parada.

É preciso reconhecer o mérito da iniciativa privada quando ela aposta em Sergipe. Investimento sempre merece ser celebrado. Mas também é papel da sociedade perguntar quais são as prioridades do Estado. A Desenvolve-SE foi criada para desenvolver Sergipe, e desenvolvimento não é apenas turismo. Desenvolvimento também tem cheiro de sala de aula, de hospital equipado, de estrada recuperada, de indústria instalada e de água chegando às casas do interior. É isso que transforma estatística em qualidade de vida.

No fim das contas, ninguém é contra a roda gigante. Ela pode se tornar um belo símbolo da nova Aracaju. Mas o povo sergipano espera algo ainda maior: quer ver girar a roda do desenvolvimento de verdade. A roda da saúde funcionando, da educação avançando, da infraestrutura crescendo e da economia produzindo oportunidades. Porque uma roda gigante encanta os olhos. Um Estado eficiente conquista o coração. E, convenhamos, antes de subir para admirar a paisagem lá do alto, o sergipano só pede que o caminho até lá tenha estrada boa, água na torneira e esperança no futuro.

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