A sessão da Câmara Municipal de Nossa Senhora do Socorro, segundo relatos que circularam após os acontecimentos, deixou uma reflexão importante sobre os limites entre a função institucional da Presidência e o direito de manifestação política dos vereadores. O presidente Betinho teria utilizado a palavra para defender a gestão do prefeito Samuel Carvalho e destacar ações do governador Fábio Mitidieri. Fazer política não é problema. O problema começa quando a autoridade da Presidência é confundida com espaço privilegiado para discurso político. A cadeira da Mesa Diretora não amplia direitos. Ao contrário, exige ainda mais equilíbrio, imparcialidade e respeito às regras da Casa.
Foi justamente nesse ponto que os vereadores Panzuá e Charlys de Gel chamaram a atenção. Independentemente das posições políticas de cada um, a cobrança feita por eles traduz um princípio básico do Parlamento: quem deseja defender governo, oposição ou qualquer pauta política deve fazê-lo na condição de vereador, utilizando o espaço destinado ao debate parlamentar. Ao defenderem essa separação entre a função institucional da Presidência e a atuação política do vereador, os dois parlamentares exerceram um papel que fortalece o funcionamento da própria Câmara. Fiscalizar a condução dos trabalhos também é uma forma de proteger a instituição.
O episódio ganha contornos ainda mais delicados quando, segundo os relatos, o clima se deteriorou e a discussão passou a ser marcada por expressões incompatíveis com o ambiente parlamentar. A Câmara não pertence ao presidente da vez. Não pertence à base, nem à oposição. Não pertence ao prefeito, muito menos a qualquer grupo político. A Câmara pertence aos cidadãos de Nossa Senhora do Socorro, que delegam temporariamente aos vereadores a missão de legislar e fiscalizar. O mandato passa. A instituição permanece.
Se a sessão terminou em bate-boca, quem perdeu não foi apenas um lado político. Perdeu a própria imagem do Legislativo municipal. O cidadão espera firmeza nos debates, mas também espera respeito às regras, serenidade na condução dos trabalhos e compromisso com o interesse público. Quando a Mesa Diretora se transforma em espaço de disputa política, a percepção de imparcialidade da Presidência fica comprometida. E, sem uma Presidência respeitada, todo o Parlamento perde autoridade perante a população.
Betinho ainda tem tempo para transformar o episódio em aprendizado institucional. Presidir uma Câmara exige mais do que abrir e encerrar sessões. Exige saber ouvir, administrar divergências e garantir igualdade de tratamento entre situação e oposição. Da mesma forma, a postura de Panzuá e Charlys de Gel, ao defenderem que cada vereador utilize o espaço adequado para o debate político, reforça um princípio essencial da democracia: instituições fortes não dependem da vontade de quem ocupa a cadeira de presidente, mas do respeito às regras que garantem que essa cadeira continue pertencendo, acima de tudo, ao povo de Socorro.




