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Na emergência de Jorginho, a ambulância vem na caixa de brinquedo

A política tem dessas cenas que parecem ter saído da imaginação de uma criança. Basta um carrinho de brinquedo, algumas fotos, muitos sorrisos e a realidade ganha contornos de fantasia. Foi exatamente essa sensação provocada pela entrega de uma miniatura de ambulância feita pelo deputado estadual Jorginho Araújo ao prefeito Samuel Carvalho, de Nossa Senhora do Socorro. O problema não é o carrinho. O problema é quando a fantasia tenta ocupar o lugar da realidade. O cidadão não adoece em escala reduzida. O infarto não espera a versão de brinquedo da ambulância chegar. A vida acontece em tamanho real.

A cena lembra inevitavelmente o universo infantil. Um carrinho aqui, uma fotografia ali, uma solenidade acolá e, de repente, parece que a política entrou definitivamente na pista da Hot Wheels. Só falta alguém anunciar que a próxima inauguração será uma caixa de blocos de montar representando um hospital, seguida por um helicóptero de plástico simbolizando o transporte aeromédico. Enquanto isso, quem aguarda atendimento nas filas do SUS continua esperando pela ambulância verdadeira, aquela que tem motor, combustível, maca, oxigênio, profissionais e capacidade de salvar vidas. Porque brinquedo, por mais bonito que seja, continua sendo brinquedo.

Há uma velha lição na administração pública que parece ter sido esquecida: comunicar não é criar uma realidade paralela. O parlamentar tem todo o direito de anunciar que destinou recursos, informar que apresentou emenda ou esclarecer que determinado equipamento está em processo de aquisição. Isso é transparência. O que causa estranheza é transformar uma promessa futura numa cerimônia que transmite ao cidadão a sensação de entrega consumada. A diferença entre anunciar e entregar não é semântica. É ética. É administrativa. É respeito com quem paga impostos.

É justamente nesse ponto que cabe uma reflexão institucional. O Ministério Público, guardião da ordem jurídica e fiscal do interesse público, existe também para acompanhar situações em que a comunicação oficial possa induzir a população a uma percepção diferente da realidade. Não se trata de condenar previamente ninguém nem de afirmar a existência de irregularidade. Trata-se de perguntar, com serenidade, se esse tipo de encenação atende aos princípios da publicidade, da moralidade e da transparência previstos no artigo 37 da Constituição Federal. Quando a política começa a brincar com símbolos, cabe às instituições separar a fantasia dos fatos.

A própria legislação eleitoral estabelece limites para a promoção pessoal de agentes públicos e para o uso da máquina administrativa em benefício de projetos eleitorais, especialmente em períodos sensíveis. Cada caso exige análise concreta, e somente os órgãos competentes podem concluir se houve ou não qualquer irregularidade. Mas uma democracia madura vive justamente dessas perguntas. Afinal, se a ambulância ainda está em processo de aquisição, por que realizar um ato que visualmente se aproxima de uma entrega? A comunicação pública deve esclarecer, não confundir.

Há outro detalhe que merece ser repetido até cansar. A emenda parlamentar não pertence ao deputado. Não sai do bolso de Jorginho Araújo, nem de qualquer outro parlamentar. O recurso pertence ao povo brasileiro e sergipano. É dinheiro público. O deputado exerce uma função constitucional importante ao indicar sua destinação, mas não se torna proprietário da verba. A ambulância, quando efetivamente chegar, será patrimônio da população de Nossa Senhora do Socorro e ou de outros muncípios, não troféu político de quem a indicou. Em uma República, quem financia tudo isso continua sendo o contribuinte.

A cena, curiosamente, lembra o espírito da clássica “Aquarela”, de Toquinho. Na música, um simples desenho ganha vida, navios cruzam oceanos, aviões surgem do papel e o mundo inteiro cabe na imaginação. É uma obra-prima justamente porque pertence ao universo da fantasia. O problema começa quando a política resolve trocar a realidade pela aquarela, substituindo veículos por miniaturas, obras por maquetes e entregas por fotografias. Na canção, imaginar é poesia. Na administração pública, imaginar não transporta pacientes nem salva vidas.

O povo sergipano já amadureceu demais para confundir propaganda com resultado. Não precisa de carrinho, precisa de ambulância rodando; não precisa de miniatura em gabinete, precisa de saúde pública funcionando na rua, no povoado, na emergência e na porta de quem sofre. Jorginho parece ter levado a política para dentro de uma “aquarela” particular: “numa folha qualquer”, desenha uma ambulância, pinta uma solenidade, coloca Samuel sorrindo para a foto e pronto, acha que o socorro chegou. Só que a vida real não cabe no papel colorido da fantasia. Quando a sirene precisa tocar, ninguém chama Hot Wheels, chama SAMU, chama motorista, chama maca, chama oxigênio, chama responsabilidade. A política pode até brincar de carrinho por alguns minutos diante das câmeras, mas quando as luzes se apagam e o povo continua esperando, a aquarela descolore. E aí fica claro: Jorginho segue sendo Jorginho brincando de entrega, não Jorge legislando com seriedade.

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