O último debate presidencial realizado ontem na TV Globo. Mediados por César Tralli, Lula e Flávio Bolsonaro enfrentaram três blocos temáticos e um bloco livre. O formato conteve parte do confronto pessoal que dominara o encontro anterior na Band. Salário-mínimo, endividamento, saúde, segurança pública, apostas e infraestrutura receberam atenção, embora discussões sobre denúncias e personagens da campanha frequentemente tenham substituído respostas mensuráveis. A transcrição integral foi disponibilizada pelo Poder360.
Nas análises de desempenho, não houve unanimidade. Igor Gielow, da Folha, avaliou que Lula levou vantagem ao pressionar o adversário em perguntas diretas, embora também tenha saído atingido. A Exame destacou mais desenvoltura do presidente e uma postura mais propositiva de Flávio. A Revista Oeste enfatizou a moderação do senador e divulgou avaliação da Quaest na qual, entre os participantes classificados como independentes, Flávio teve média 6 e Lula, 5,2. O UOL reuniu leituras divergentes de colunistas e apontou que reações em X e WhatsApp oscilaram ao longo da transmissão. São avaliações e recortes distintos, não uma medida definitiva do efeito eleitoral.
Flávio buscou impor como pauta o custo dos alimentos, a dívida das famílias, a segurança nas comunidades e a revisão de medidas tributárias e econômicas. Sua provocação “Meu concorrente prometeu picanha e entregou abóbora” condensou a crítica ao poder de compra; ao questionamento insistente de Lula sobre pesquisar na internet, respondeu: “É você ou é o Google?”. Também prometeu manter o Bolsa Família e apresentou propostas para o SUS, concessões rodoviárias e penas criminais. Ao reconhecer que errara em voto anterior contrário à ampliação da licença-maternidade, admitiu uma mudança de posição que merece ser julgada junto à sua trajetória legislativa. A viabilidade orçamentária e jurídica de suas promessas continuou exigindo explicações.
Lula recorreu à experiência de governo, à valorização do salário-mínimo e aos programas de renegociação de dívidas, cobrando detalhes do adversário. No episódio da referência de Flávio aos “nove dedos”, Lula explicou a mutilação sofrida em acidente de trabalho; o senador se desculpou. Na segurança pública, o presidente levou ao centro do debate o caso de Ana Clara, criança morta por um tiro em 2021, e questionou a atuação de Flávio na defesa de policial acusado. A defesa de um acusado, contudo, integra o exercício profissional da advocacia e não prova adesão ao crime imputado. Questões sobre milícias, denúncias patrimoniais e Daniel Vorcaro foram discutidas em tom acusatório; não se deve confundir imputação de campanha com fato judicialmente estabelecido.
No terreno da precisão factual, os dois candidatos apresentam histórico de afirmações contestadas. A Agência Lupa apontou erros de Lula sobre dados econômicos e exageros sobre criação de empregos e combate à fome; para Flávio, identificou afirmações incorretas sobre o Pix, gastos com viagens da Presidência e outras questões. A Lupa contabilizava, antes desse confronto, ao menos 64 declarações de Lula e 70 de Flávio analisadas ao longo da campanha. Esses totais não são números de mentiras nem amostras estatísticas equivalentes. Lupa e Aos Fatos fizeram verificações específicas durante a transmissão; sem consolidar critérios idênticos e o mesmo conjunto de falas, não é rigoroso declarar um “campeão das fake news” naquela noite.
O debate revelou dois estilos de persuasão: o presidente apoiou-se no currículo administrativo e na confrontação das fragilidades do opositor; o senador apresentou-se como alternativa e explorou o desconforto cotidiano com preços, dívidas e violência. A cobertura conservadora ressaltou sua contenção; outros analistas salientaram a maior desenvoltura de Lula. A reação pública nas plataformas, por sua vez, não pode ser resumida a comentários virais ou transformada em pesquisa representativa. Faltou, para ambos, detalhar custos, metas e execução de parte das propostas. Em vez de coroar um vencedor pela intensidade dos aplausos digitais, a conclusão mais útil é cobrar documentos, números verificáveis e compromissos que possam ser fiscalizados depois que as câmeras se apagarem.




