Mal terminou a comemoração da reeleição de Lula e a segunda-feira, 26 de outubro, apresentou uma conta que não cabia no palanque. O dólar saltou 8,21%, fechando a R$ 5,403; o Ibovespa despencou 13,88%, acionou o mecanismo de interrupção de negócios e viveu sua pior sessão desde 2020. Uma parcela dos investidores apostava em outro resultado e precisou desmontar posições, mas a incerteza fiscal ampliou o nervosismo. Isso não prova que o Brasil já esteja quebrado, nem autoriza transformar um pregão em profecia de quatro anos. Prova, sim, que confiança não se decreta na cerimônia da vitória. A campanha terminou no domingo; a economia não ganhou folga na segunda. O presidente recebeu votos para governar, não uma autorização para tratar a aritmética do orçamento como detalhe inconveniente. O eleitor ouviu promessas; agora tem o direito de exigir uma planilha. E a planilha, ao contrário do comício, não aplaude.
Antes mesmo de o champanhe eleitoral perder o gás, surgiram notícias de discussões sobre um ajuste que inclui voltar a tributar aplicações hoje isentas, como LCI e LCA, rever sobreposições de benefícios sociais e mudar a contabilização de despesas ligadas aos pisos de saúde e educação. São propostas em estudo, não cortes consumados, mas precisam ser explicadas sem maquiagem. O Bolsa Família pode e deve funcionar como ponte para autonomia: sair do programa porque se conquistou renda estável é avanço; sair por redesenho fiscal, sem segurança, é outra história. Ao mesmo tempo, o governo deverá acomodar no orçamento de 2027 cerca de R$ 20 bilhões de iniciativas anunciadas durante a campanha, segundo estimativa do Planejamento divulgada pela imprensa nacional. É aí que o discurso da generosidade encontra a pergunta ingrata: quem paga? Não há indignação seletiva capaz de substituir fonte de custeio. Quando o governante promete com microfone e ajusta com calculadora, o cidadão merece conhecer as duas versões.
O pacote do MEI também exige menos espetáculo e mais contabilidade. A lei sancionada em 21 de outubro prevê perdão de dívidas tributárias federais, ampliação gradual do teto de faturamento e possibilidade de contratar mais empregados; são medidas concretas que podem beneficiar pequenos negócios. Já o prometido aporte de até R$ 5 mil para investimentos depende de implementação e financiamento, não nasce automaticamente na conta de cada empreendedor. A emenda constitucional que encerra gradualmente a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, abre outro debate legítimo: como pequenos estabelecimentos reorganizarão turnos, produtividade e custos? Trabalhadores merecem descanso; empresas precisam de regras exequíveis. Ignorar qualquer dos lados é transformar política pública em peça publicitária. As ações de grandes varejistas sofreram quedas expressivas no primeiro pregão após a eleição, em meio à alta dos juros futuros. Mas queda de ação não é anúncio de fechamento de lojas, e o jornalismo não deve inventar portas fechadas para deixar o editorial mais dramático. A realidade já é suficientemente séria.
Sergipe não está em uma redoma de vidro. Juros altos encarecem o capital de giro de quem vende no Centro de Aracaju, o financiamento de quem produz no interior e a prestação de quem tenta sobreviver até o fim do mês. O governo estadual de Fábio Mitidieri também deve respostas próprias: a LDO de 2027 projeta déficit primário de R$ 440,5 milhões, que a gestão atribui à expansão de investimentos financiados por crédito. A justificativa pode ser legítima, mas exige divulgar prioridades, cronogramas, custos e resultados. Brasília não pode usar o Nordeste como cenário de campanha e esquecer que aqui a inflação tem endereço, a dívida tem CPF e o pequeno comerciante fecha as contas sem um assessor para explicar o inexplicável. Nem Lula, nem Fábio devem ser condenados de antemão por cenários hipotéticos; devem ser cobrados pelos atos e pelos números que efetivamente apresentam. O “faz o L” e ou o “faz o F” pode render uma provocação de bar. O que não pode é virar substituto de responsabilidade pública. Depois da eleição, o país não precisa de mais fogos. Precisa de governo, transparência e contas que fechem.




