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Editorial: A Lista da Câmara

A Câmara Municipal de Aracaju já entrou naquela fase em que ninguém sabe mais se está assistindo sessão legislativa ou episódio especial de reality político nordestino. O cidadão abre a transmissão querendo saber de buraco, drenagem e ônibus, mas termina vendo debate sobre Flávio Bolsonaro, STF, fábrica de chocolate, direito de resposta e ameaça de processo. Brasília chegou oficialmente em Aracaju. Só que com calor, café forte e cuscuz. E no fundo parecia tocar A Lista perguntando: “faça uma lista de grandes amigos…”. Porque depois da sessão, quase todo mundo continua amigo no cafezinho do corredor.

O grande detonador da confusão foi Camilo Daniel, que resolveu citar a famosa história da fábrica de chocolate ligada ao debate nacional sobre Flávio Bolsonaro. Bastou a frase atravessar o microfone para o plenário sair do modo “Câmara Municipal” e entrar no modo “guerra ideológica em 4K”. Em Aracaju, hoje, basta alguém falar “Bolsonaro” que metade da Câmara pega fogo e a outra metade procura advogado. Enquanto Camilo falava, parecia ecoar no ambiente aquela frase da música: “quantos mistérios que você sondava, quantos você conseguiu entender?”. Porque entender a política brasileira já virou esporte radical.

Moana Valadares respondeu na velocidade de comentário de Instagram em postagem polêmica. Disse que o jurídico nacional do PL tomaria providências e praticamente transformou a tribuna num plantão jurídico ao vivo. Do outro lado, Elber Batalha entrou defendendo Camilo como quem já acorda lendo Constituição Federal no café da manhã. Quando Byron negou explicação pessoal, o clima esquentou tanto que por alguns segundos parecia disputa de cinturão do UFC parlamentar. E aí vinha outra frase perfeita de Oswaldo: “quantas mentiras você condenava, quantas você teve que cometer?”. Porque na política, todo mundo acusa enquanto tenta sobreviver ao próprio vídeo viral.

Irã Barbosa ainda tentou puxar o debate para ideologia, partidos e corrupção, mostrando lista de siglas e falando como professor em sala de aula. Já Sargento Byron tentava controlar o plenário sem transformar a Câmara num octógono legislativo. O problema é que a política atual não funciona mais na lógica do discurso longo. Funciona na lógica do corte rápido, da frase atravessada e do vídeo de quinze segundos. Enquanto eles discutiam, a internet provavelmente já estava editando meme.

No fim, a parte mais engraçada da política sergipana continua sendo o pós-guerra. Porque depois do dedo em riste, da acusação ideológica e da ameaça judicial, todo mundo acaba sentado na mesma mesa tomando café e falando da próxima eleição. E talvez seja exatamente isso que Oswaldo Montenegro quis dizer quando perguntou: “quantas pessoas que você amava hoje acreditam que amam você?”. Na Câmara de Aracaju, meu amigo, a resposta muda toda semana. Mas o cafezinho continua firme, forte e democraticamente servido para todos.

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