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Editorial: Aracaju entre água, ranking e palanque

Edvaldo Nogueira foi às redes sociais dizer que “em 2024, na minha gestão, foi uma alegria imensa quando Aracaju foi escolhida a capital da qualidade de vida do Nordeste”. A frase é bonita, tem cheiro de retrospectiva bem editada e parece ex-prefeito abrindo álbum antigo para mostrar a foto em que saiu melhor. O problema é que cidade não vive de fotografia do passado. Vive de serviço funcionando no presente. Se Aracaju perdeu brilho no ranking, é preciso olhar o filme inteiro, não apenas o enquadramento que favorece quem já ocupou a cadeira. O IPS Brasil 2026 mostra Aracaju como a terceira capital do Nordeste e a 14ª entre as capitais brasileiras, com avanço de 65,73 pontos em 2025 para 66,35 em 2026. Ou seja, não cabe foguete da Prefeitura nem velório da oposição. Cabe leitura séria. 

Quando Edvaldo afirma que “um município que não tem responsabilidade com seus gastos acaba afetando os serviços que as pessoas mais precisam”, ele toca num ponto legítimo, mas também pratica aquele esporte antigo da política: jogar a conta inteira no balcão da gestão atual. Saúde, educação, limpeza, manutenção urbana e organização da cidade são cobranças justas. Emília Corrêa tem que responder pelo que cabe à Prefeitura, como qualquer gestora pública. Mas reduzir o debate da qualidade de vida a uma pancada direta contra Emília é transformar índice técnico em panfleto de oposição. E aí o dado deixa de iluminar o problema para virar apenas lanterna de campanha.

Katarina Feitosa também entrou no palco dizendo que a Prefeitura “esqueceu de contar o resto da história” e que Aracaju teria caído para a “posição 492 no ranking nacional”. A cutucada tem veneno, ritmo de rede social e aquele tempero que faz o povo parar o dedo no celular. Mas dado público não pode ser usado como sanfona: toca-se do jeito que agrada ao freguês. Aracaju pode aparecer em 492º lugar no conjunto geral dos 5.570 municípios, mas entre capitais está em 14º lugar no país e em terceiro no Nordeste. Dependendo do recorte, o mesmo número vira troféu ou tijolo. A política adora essa mágica: muda a moldura e vende a mesma fotografia como se fosse outro quadro. 

Quando Katarina diz que “propaganda não tapa buraco, não melhora a saúde, não resolve mobilidade e nem devolve a qualidade de vida que a cidade já teve”, ela acerta no coração da insatisfação popular. Propaganda realmente não tapa buraco. Release não marca consulta. Arte de Instagram não entrega remédio. Mas também é preciso dizer que vídeo indignado de oposição, sozinho, não enche caixa d’água. E aqui está o ponto que ninguém consegue esconder: o próprio IPS apontou Água e Saneamento como indicador em queda, impactado pela irregularidade no abastecimento, com redução do percentual de domicílios com água diária de 97,7% em 2018 para 85,2% em 2025. Isso não é detalhe estatístico. É a torneira gritando dentro da casa do povo. 

Aí o debate muda de endereço. Aracaju pode ter orla bonita, praça agradável, vento bom, caranguejo famoso e pôr do sol com cara de cartão postal, mas qualidade de vida sem abastecimento regular vira discurso bonito com balde vazio. Água não é luxo, não é favor, não é mimo de governo. Água é o começo de qualquer civilização minimamente organizada. O cidadão não toma banho com ranking, não cozinha feijão com manchete e não lava roupa com discurso de ex-prefeito, deputada ou prefeita. Quando a torneira falha, a política toda fica pequena, seca e barulhenta.

Por isso, cada cobrança precisa ficar no seu lugar. A Prefeitura deve ser cobrada por saúde, educação, limpeza, obras, vias públicas e serviços urbanos. Mas abastecimento de água envolve Deso, Iguá, Governo do Estado, regulação e uma concessão vendida como promessa de eficiência, investimento e modernização. A própria Agrese precisou reunir Iguá e Deso para apresentar plano de governança, cronograma de macromedidores e diretrizes para evitar desalinhamentos que comprometessem o sistema. Traduzindo para o idioma da feira: se precisou de plano para organizar a engrenagem, é porque a engrenagem estava rangendo. 

E a regulação foi além do papel bonito. Em abril de 2026, a Agrese editou portaria diante do desabastecimento de água, registrando vazamento com impacto em bairros da capital, procedimentos por intermitência e falhas na prestação do serviço, além de suspender a cobrança por tarifa mínima nos municípios atendidos pela Iguá até comprovação de regularidade, continuidade e eficiência do abastecimento. Isso é grave. Quando o órgão regulador precisa dizer que não se admite fornecimento insuficiente ou intermitente, é porque o problema deixou de ser reclamação de morador e virou fato administrativo com carimbo oficial. 

No fim, Edvaldo e Katarina podem criticar Emília. A crítica é legítima e faz parte da democracia. Mas precisam olhar o quadro inteiro, sem escolher apenas a fatia do dado que rende aplauso. Emília pode comemorar avanço no IPS, mas precisa transformar número em serviço percebido na rua. E Governo do Estado, Deso e Iguá precisam explicar por que a água, que deveria ser o primeiro item da qualidade de vida, virou justamente o ponto que mais incomoda o aracajuano. O povo não quer guerra de vídeo, indireta de rede social nem palanque em cima de ranking. Quer abrir a torneira e ver água. O resto é espuma política onde nem abastecimento regular existe.

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