A política sergipana entrou numa fase em que até virose vira metáfora. O governador Fábio Mitidieri passou mal, foi hospitalizado, e claro que todos desejamos pronta recuperação. Saúde não se politiza. Mas é impossível ignorar que o ambiente em torno do Palácio está carregado de tensão. O estresse não nasce do nada. Ele nasce de pressão acumulada, de decisões difíceis e de um tabuleiro que começou a se mexer mais rápido do que o script previa. Sergipe deixou de ser um jogo morno e virou campeonato de blitz.
O primeiro baque veio com a elegibilidade de Valmir de Francisquinho. A volta de Valmir ao jogo alterou o eixo emocional da disputa. Em entrevistas recentes, o tom do governador foi percebido como mais contido, voz rouca, discurso mais defensivo. Política é também linguagem corporal. Quando o adversário reaparece forte, a matemática muda e o termômetro sobe. E Valmir, gostem ou não, não reapareceu como figurante. Depois veio a decisão mais delicada: optar por André Moura como primeiro nome ao Senado e retirar Alessandro Vieira da chapa majoritária. Não foi um ajuste técnico. Foi uma ruptura simbólica. Alessandro tinha laços afetivos e políticos com setores próximos ao governador. A escolha por André foi um gesto estratégico, mas que expôs fissuras internas. E política, quando racha por dentro, faz barulho maior do que ataque externo.
No meio desse cenário, surge a convocação de André para prestar esclarecimentos sobre INSS, tema levantado por deputado do PT nas redes sociais e avalizado por Alessandro Vieira. André nega qualquer ligação com o assunto e vai com tranquilidade responder. “não sou alvo de nada”, disse. Mas nos bastidores, a leitura é clara: a disputa interna ganhou temperatura. O que antes era divergência protocolar virou confronto direto. E quando aliados passam do discurso para o ataque frontal, é porque o medo deixou de ser teórico. Há quem diga que Alessandro endureceu o jogo porque identificou em André o principal obstáculo ao seu projeto. Política é simples assim: ninguém ataca quem considera irrelevante. Ataca quem representa ameaça real. E, nesse ponto, André tem mostrado resiliência. Não grita, não reage em desespero, mas permanece no tabuleiro. Em ambiente de alta tensão, quem mantém calma ganha pontos invisíveis, inclusive a a emoção de ser avô de José.
Enquanto isso, o cenário nacional começa a influenciar Sergipe como maré que sobe devagar. Flávio Bolsonaro articula no Rio de Janeiro com Cláudio Castro a sucessão estadual e consolida alianças com PP e União Brasil. O movimento é nacional, mas os reflexos descem pela cascata partidária até chegar aqui. Política brasileira funciona como dominó vertical: a peça que cai em Brasília derruba peça em Aracaju. O PP de Laércio Oliveira já sinalizou alinhamento com o palanque de Flávio Bolsonaro, logo os seus pré-canditatos ficarão com Flávio e não com Lula. Isso muda o eixo local. Se o União Brasil caminha para federação com PP e o palanque nacional se inclina à direita bolsonarista, fica difícil imaginar certas lideranças locais em palanque oposto. A coerência partidária começa a pesar mais que conveniência momentânea e o eleitor que não é besta entende. Algo pode mudar neste enredo!
Nesse contexto, André se vê em posição delicada, mas estratégica. Não cabe plenamente no bloco governista, que demonstra desconforto silencioso com sua presença. Também não é um nome descartável na oposição. A depender dos próximos 60 dias, pode emergir como peça decisiva em nova composição. Há ensaios sobre eventual chapa com Rodrigo Valadares. Há especulações sobre aproximação com Valmir e o grupo de Edivan Amorim pessoa que ainda mantém ligação estreita . O jogo está aberto. O que se percebe é que André já compreendeu que não há espaço confortável no atual bloco da situação. E político experiente não insiste onde não há acolhimento. Ele observa, calcula e espera o momento certo. Diferentemente do discurso inflamado de alguns, André tem adotado postura mais silenciosa, o que em política às vezes é sinal de maturidade estratégica e agora como avô pensará mais e mais antes de qualquer decisão.
O governador, por sua vez, tenta equilibrar máquina administrativa, alianças regionais e tensões nacionais e vírus constantes. Mas a impressão que circula nos corredores é de que o grupo perdeu a tranquilidade inicial. Prefeitos estão “à vontade”, sem orientação rígida. Quando liderança deixa aliados soltos demais, é porque não quer assumir custo da imposição. Isso revela hesitação, não comando firme. Até as convenções, há tempo. Política brasileira adora reviravolta. O que hoje parece improvável pode virar natural em julho. Mas uma coisa é certa: Sergipe deixou de ser cenário previsível. A elegibilidade de Valmir, a consolidação nacional de Flávio Bolsonaro, a movimentação de União Brasil e PP e o embate interno, hoje em tese externo, entre Alessandro e André criaram um ambiente onde qualquer descuido vira manchete.
No fim das contas, a política sergipana entrou numa fase em que os nervos estão à flor da pele e a matemática eleitoral começa a falar mais alto do que o discurso oficial. Entre viroses, entrevistas tensas e alianças desenhadas em Brasília, o tabuleiro foi redesenhado. Valmir de Francisquinho surge com força real, recall consolidado e base popular mobilizada, com chances concretas de protagonizar o segundo turno. Ao mesmo tempo, Ricardo Marques deixa de ser hipótese e passa a ser alternativa viável, carregando reconhecimento estadual e potencial de crescimento, se não for Valmir vai ser Ricardo. Nesse cenário, o governador Fábio Mitidieri pode enfrentar isolamento crescente se as dissidências se consolidarem, com movimentos independentes de André Moura, Alessandro Vieira, Laércio Oliveira, Rogério Carvalho, Edvaldo Nogueira, Rodrigo Valadares e companhia limitada, tipos aqueles que ainda não querem largar o osso do governo. Em política, quem subestima fragmentação interna costuma pagar o preço na urna. O jogo não termina quando alguém parece abatido; termina quando perde capacidade de agregar. E, pelo ritmo atual, ninguém está disposto a sair da mesa, mas nem todos sairão fortalecidos.




