Hoje é domingo de Páscoa. Dia de paz, amor, chocolate e, principalmente, de memória curta. É impressionante como o brasileiro consegue, com uma eficiência invejável, trocar indignação por mensagem bonita em menos de 24 horas. Ontem era escândalo, hoje é “feliz páscoa pra todos”. E está tudo certo, viu. Afinal, o país entrou oficialmente no modo tranquilidade, onde nada mais incomoda, nada mais pesa e tudo parece resolvido, pelo menos até segunda-feira.
Porque veja só que maravilha. Ninguém mais fala de CPI do INSS, ninguém mais fala de contrato milionário com escritório de advocacia da esposa de ministro do STF, ninguém mais fala de escândalo do Banco Master, ninguém mais fala de nada, nem da distribuição de peixes em caçambas de lixo no Maranhão que simplesmente sumiu da conversa. Peixe tratado como descarte, entregue como se fosse favor. E na Bahia, relatos de peixe podre chegando à mesa de quem mais precisava. Situações que chocaram, revoltaram… e foram rapidamente empurradas para debaixo do tapete. O silêncio é quase espiritual. Parece até milagre de Páscoa. O que antes era urgente virou detalhe, o que era problema virou lembrança distante. É como se alguém tivesse apertado um botão invisível dizendo “pausa nos problemas, hoje é dia de foto bonita”.
Enquanto isso, na vida real, aquela que não tira feriado, o brasileiro continua fazendo conta. O gás continua caro, a gasolina continua subindo e o supermercado virou um teste de resistência emocional. E o ovo de Páscoa, ah, o ovo de Páscoa… esse virou praticamente um investimento de longo prazo. Comprar um hoje exige planejamento digno de financiamento imobiliário. Mas calma, não vamos estragar o clima, hoje é dia de celebrar.
E nas redes sociais, o espetáculo está completo. Todo mundo feliz, todo mundo em paz, todo mundo distribuindo amor em alta resolução. Só esqueceram de combinar com a realidade. Porque enquanto o feed está lindo, tem gente enfrentando problema que não cabe em legenda. Sergipe continua sem água, tem família improvisando, tem gente lidando com o básico faltando. Mas isso não rende curtida, então fica fora da vitrine.
E aí entra aquele detalhe que não dá para ignorar. Aracaju enfrentando falta d’água, bairros inteiros sofrendo, e agora mais de dez localidades com interrupção recente no abastecimento e a Iguá atrás do coelho da Páscoa. Ou seja, enquanto uns celebram com chocolate, outros estão procurando água. E isso quebra qualquer narrativa de normalidade. Porque a vida pode até tentar entrar no clima de feriado, mas a realidade insiste em aparecer.
O mais curioso é que ninguém deixou de saber dessas coisas. Todo mundo viu, todo mundo ouviu, todo mundo comentou em algum momento. Só que hoje, convenientemente, ninguém fala. E não é porque resolveu, é porque resolveu esquecer. É aquela velha estratégia nacional, se não falar, parece que não existe. Funciona até certo ponto, até a conta chegar.
Mas, mesmo com toda essa ironia, a Páscoa ainda carrega um significado forte. É sobre recomeço, é sobre esperança, é sobre tentar fazer melhor. E talvez seja exatamente isso que a gente precise lembrar. Não só hoje, mas amanhã também. Porque não adianta desejar paz no domingo e ignorar os problemas na segunda.
Então, sim, feliz Páscoa. De verdade. Com paz, com fé, com esperança. Mas, se possível, com memória também. Porque um país melhor não se constrói só com mensagem bonita. Se constrói encarando a realidade, mesmo quando ela não combina com o feriado.




