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Editorial: Filme, banco e eleição

A política brasileira conseguiu transformar até cinebiografia em guerra ideológica. Bastou aparecer a notícia de que Flávio Bolsonaro pediu apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro e pronto: rádios, jornais, portais, podcasts, programas políticos e grupos de WhatsApp entraram em combustão nacional. Em Sergipe não foi diferente. Ontem e hoje praticamente toda roda política de rádio discutia o assunto como se o destino da República dependesse exclusivamente de um áudio envolvendo cinema, banco e campanha eleitoral. 

O curioso é que boa parte da cobertura já trata o episódio quase como condenação antecipada, embora até o presente momento não exista acusação formal dizendo que Flávio recebeu vantagem ilícita, dinheiro público ou praticou algum favorecimento estatal em troca de patrocínio. A própria defesa dele foi objetiva: disse que procurava investidores privados para um filme privado sobre a trajetória do pai, sem Lei Rouanet, sem verba pública e sem relação com contratos governamentais. E convenhamos: pedir patrocínio para filme político, no Brasil, está longe de ser novidade histórica. O problema é que, dependendo do sobrenome envolvido, a temperatura da cobertura muda mais rápido do que chuva na Atalaia.

Flávio Bolsonaro entrou imediatamente em modo defesa pública e gravou vídeo dizendo que conheceu Vorcaro quando ainda não havia acusações públicas contra o banqueiro. Também afirmou que o contrato do filme enfrentava atrasos de pagamento, que outros investidores foram procurados e que o longa já está praticamente concluído. Politicamente, a linha adotada por Flávio é clara: transformar o caso em narrativa de perseguição política e midiática contra a direita. E honestamente, para a base bolsonarista, esse discurso continua funcionando com enorme força emocional. O eleitor mais fiel não enxerga um escândalo. Enxerga mais um capítulo da velha guerra entre establishment político, mídia e bolsonarismo.

O petismo, claro, aproveitou a oportunidade como quem encontra ouro no quintal do adversário. Aliados de Luiz Inácio Lula da Silva passaram imediatamente a dizer que o “caso Master” agora estaria “no colo” de Flávio Bolsonaro. Só que a ironia brasileira é quase cinematográfica. O filme “Lula, o Filho do Brasil” também enfrentou polêmicas semelhantes no passado, quando delações da Lava Jato citaram supostos recursos de empresas envolvidas em corrupção para patrocínio da obra. 

O que mais chama atenção é o comportamento da imprensa e das redes sociais. Em poucas horas, rádios nacionais, comentaristas políticos e influenciadores passaram praticamente o dia inteiro repetindo o assunto, ampliando o desgaste da pré-candidatura de Flávio. Em Sergipe, muitos programas políticos reproduziram a pauta em sequência quase contínua. E aí surge um detalhe político interessante: enquanto a esquerda nacional entrou fortemente em campo contra Flávio, setores da direita sergipana ficaram relativamente silenciosos. Até agora, pelo menos publicamente, pouco se viu de defesa mais enfática de nomes locais ligados ao bolsonarismo, como Rodrigo Valadares ou Ricardo Marques.

E isso importa diretamente para Sergipe. O bolsonarismo local depende fortemente da imagem nacional de Flávio e do próprio Jair Bolsonaro. Rodrigo Valadares, Coronel Rocha e aliados do PL sabem que qualquer desgaste nacional respinga automaticamente no discurso regional. Em política, ninguém carrega o peso sozinho. A mala do problema sempre entra no mesmo ônibus da campanha. E enquanto a esquerda tenta colar a imagem do Banco Master no bolsonarismo, a direita tenta responder dizendo que não houve dinheiro público, nem vantagem estatal, nem qualquer comprovação concreta de irregularidade praticada por Flávio Bolsonaro.

No meio disso tudo, a população assiste à guerra narrativa como quem acompanha final de campeonato. Um lado grita “escândalo”. O outro responde “perseguição”. Um lado lembra Vorcaro. O outro lembra Palocci, Lava Jato e os financiamentos do filme sobre Lula. E a internet transforma tudo em meme, corte e frase de efeito antes mesmo de qualquer investigação aprofundada terminar. Hoje, no Brasil, às vezes a sentença da rede social chega muito antes da sentença judicial. E isso vale tanto para a esquerda quanto para a direita.

No fundo, talvez o caso revele algo ainda maior: o Brasil vive uma eleição permanente onde tudo vira munição política. Filme vira palanque. Áudio vira comício. Banco vira slogan eleitoral. E Sergipe acompanha tudo isso no rádio do carro, no café da manhã, no grupo da família e no bar da esquina discutindo se houve crime, perseguição ou apenas mais um capítulo da eterna novela política brasileira. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro tenta vender a versão de que buscava apenas investidores privados para homenagear o pai. Já os adversários tentam transformar o episódio num filme de terror eleitoral. E o povo, como sempre, segue tentando descobrir onde termina a notícia e onde começa o roteiro.

Respostas de 2

  1. Bom dia.!
    Aqui pra nós…que comentário vazio,mas cheio de informações e comparações distantes.
    La vi e li neste Portal,muita notícia imparcial.

  2. Minha alma treme de indignação ao ver a inocência sendo esmagada por mentiras.
    Que tipo de relatos, é esses que se alimenta de relatos ,sem se sustentar em fatos?
    A dor de ver o justo sofrendo é insuportável.”
    Onde está a certeza que o direito exige?
    Transformaram dúvida em condenação, e eu me perco na minha própria tristeza por poder mudar esse cenário de tamanho, crueldade.”

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