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Editorial: Mitidieri entre obras milionárias e perguntas que não podem esperar

O governador Fábio Mitidieri parece ter descoberto a fórmula da felicidade administrativa: anunciar muito, fotografar bastante e deixar as perguntas para depois. Sergipe tem obras necessárias e investimentos que merecem reconhecimento. Mas placa de inauguração não substitui prestação de contas, assim como discurso não conserta ponte nem abre leito hospitalar. Depois de pedir à população que cobre o que ainda não funciona, o governador deveria receber as perguntas com entusiasmo. Afinal, foi ele quem distribuiu o convite.

Comecemos pelas emendas parlamentares. Em 2026, Tribunal de Contas e Ministério Público de Contas acompanharam medidas para melhorar a transparência e a rastreabilidade. O governo atualizou seu painel eletrônico, o que é positivo. Mas colocar dados na internet não significa torná-los compreensíveis. Quem indicou os recursos? Quem recebeu? Quanto foi pago? Onde estão os planos de trabalho e os resultados? Transparência não é caça ao tesouro digital, na qual o cidadão precisa de lupa, paciência e diploma de investigador para descobrir o destino do próprio dinheiro.

Na infraestrutura, a nova ponte entre Aracaju e Barra dos Coqueiros tem contrato de R$ 838.375.230,55. É obra importante, ninguém discute. A licitação estimada em R$ 43,3 milhões para gerenciamento, supervisão e fiscalização, porém, merece escrutínio rigoroso. São serviços técnicos distintos, e seu preço não prova irregularidade. Mas o contribuinte tem direito de conhecer critérios, valor efetivamente contratado e cronograma físico-financeiro. Uma ponte tão cara precisa de pilares de concreto e de transparência. Sessão de fotos com capacete novinho não sustenta nenhuma das duas coisas.

E há uma ironia que nem a iluminação colorida consegue esconder. O governo Fábio Mitidieri investiu R$ 2,96 milhões para iluminar a Ponte Construtor João Alves, inaugurando um espetáculo de luzes em agosto. Dois meses depois, suspendeu, sem nova data, a licitação de R$ 3,64 milhões destinada à recuperação estrutural da mesma ponte. A diferença entre os valores é de apenas R$ 683 mil. Iluminar custou o equivalente a 81% do orçamento previsto para recuperar a estrutura. Ninguém discute a beleza das luzes nem sua importância turística. Mas a prioridade administrativa merece explicação. Para enfeitar a ponte, houve investimento, inauguração e festa. Para recuperar sua estrutura, faltou concluir a revisão dos documentos da licitação. Isso não significa falta comprovada de dinheiro nem risco iminente de desabamento. Significa que o governo precisa explicar seus critérios. Afinal, de que adianta uma ponte iluminada como árvore de Natal se a manutenção estrutural continua esperando uma nova licitação? Em Sergipe, pelo visto, a estética chegou primeiro. A engenharia ficou aguardando a próxima cerimônia.

Na saúde, o Hospital do Câncer Governador Marcelo Déda registrou, segundo o governo, quase 16 mil atendimentos em menos de sete meses, dado relevante. Houve, entretanto, questionamentos sobre o uso dos leitos e a implantação gradual dos serviços. Etapas podem ser tecnicamente justificáveis, mas precisam ter prazo e indicadores. Quantos leitos funcionam hoje? Qual a fila por exames e tratamento? Quantos pacientes aguardam internação? Na oncologia, tempo não é detalhe estatístico. Paciente não melhora com publicidade institucional, e sofrimento não espera a próxima cerimônia.

A Zona de Expansão de Aracaju também exige atenção. Em setembro, o Ministério Público de Contas alertou para possíveis impactos de obras sobre drenagem e áreas vizinhas. As responsabilidades de Estado e município devem ser diferenciadas, sem confusão conveniente. Nos projetos estaduais, quais estudos foram realizados? Os pareceres ambientais estão disponíveis? Que medidas evitarão novos alagamentos? Obra que promete resolver um problema não pode criar outro na rua ao lado. Para quem tem água entrando em casa, a expressão ‘grande investimento’ perde rapidamente o encanto.

O ponto comum é simples: Mitidieri apresenta projetos ambiciosos, mas a grandeza de uma obra não dispensa comprovação dos resultados. Assembleia Legislativa, órgãos de controle e oposição precisam fiscalizar com seriedade, sem trocar perguntas fundamentadas por acusações sem prova. O governo, por sua vez, deveria tratar contratos, custos, prazos e indicadores com a mesma generosidade dedicada aos vídeos de divulgação. Se há tempo para editar imagens aéreas, também deve haver para publicar planilhas inteligíveis.

Reeleito, Fábio Mitidieri recebeu legitimidade das urnas, não um cheque em branco. Sergipe precisa de pontes, hospitais e infraestrutura. Precisa, sobretudo, saber quanto custam, quando funcionam e a quem beneficiam. O governador já mostrou que sabe anunciar. Chegou a hora de demonstrar. Porque, na administração pública, aplauso não é auditoria, propaganda não é entrega e o dinheiro do sergipano não pode virar figurante de campanha permanente.

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