PUBLICIDADE

Editorial: O Clã dos Penduricalhos

O eleitor sergipano precisa botar o café no fogo, puxar a cadeira de plástico e prestar atenção, porque esse ano promete ser um arrasta-pé político daqueles. No salão principal, Fábio Mitidieri tenta vender a reeleição como projeto de governo. Mas, olhando o tabuleiro, parece mais uma quadrilha junina da família: Fábio puxa o cordão no governo, Cláudio ensaia o passo para Brasília, Maísa segura a cadeira estadual e Selma França aparece no terreiro como possível novidade na suplência do senado. É “olha a cobra”, é mentira; “olha a máquina”, é verdade.

Cláudio Mitidieri entra na dança como candidato federal vitaminado. Ex-secretário de Saúde, médico, nome conhecido e cercado de prefeitos, parece aquele sanfoneiro que chega no São João perguntando logo onde fica o palco principal. Nos bastidores, falam em votação alta, forte, musculosa. Também pudera: quando a máquina pública começa a tocar zabumba, tem político que já sente cheiro de mandato antes mesmo de o eleitor ouvir a primeira nota da proposta.

Maísa Mitidieri aparece como a continuidade estadual do projeto. Já tem voto, já tem mandato, já tem base e já conhece o caminho do salão. É a candidata que o grupo trata como patrimônio político tombado: ninguém mexe, ninguém discute muito e todo mundo finge que é renovação. No fundo, é a velha dança com vestido novo, maquiagem reforçada e santinho retocado.

E aí vem a possibilidade de Selminha França entrar na roda. Se confirmar, o eleitor vai precisar de mapa, bússola e marcador de quadrilha para entender onde termina a família e onde começa o governo. O Bolsa Família oficial tem cadastro, renda e exigência social. O Bolsa Família eleitoral tem sobrenome, prefeito, palanque, estrutura e foto sorrindo no interior. Um combate a fome. O outro combate a alternância de poder. Um exige criança na escola. O outro exige aliado na linha.

Mas nenhuma festa política fica completa sem os penduricalhos. Na política, penduricalho é aquele aliado que não é da família, mas vive agarrado no projeto como bandeirola de São João em poste de praça. Não manda na casa, mas sabe onde fica a cozinha. Não tem sobrenome Mitidieri, mas circula como se tivesse pulseira livre para o camarote.

O mais folclórico é Jorginho Araújo, o famoso Peito de Pombo, que já voou para Umbaúba em busca do apoio de Juliana do Mamão. A política sergipana é tão generosa que a piada vem pronta: o Peito de Pombo pousou no terreiro do Mamão. É quase trio pé de serra: sanfona, zabumba e emenda parlamentar. Jorginho farejou o vento, abriu as asas e foi ciscar apoio onde acha que pode render voto. Na política, pombo não voa por romantismo. Voa onde tem milho, palco e promessa de palanque.

Katarina Feitosa entra como penduricalho de autoridade: delegada, federal e discurso de ordem no coldre. Chega ao palanque com cara de operação policial, mas sabe que eleição também se ganha no miudinho, no aperto de mão e na matemática fria dos votos.

Rogério Carvalho aparece como penduricalho petista obrigatório, aquele par de dança que ninguém sabe se veio por amor, necessidade ou falta de opção na quadrilha junina. Ao lado dele, Márcio Macedo surge com crachá de Brasília e lembrança permanente de que o PT também quer seu pedaço no arraial, nem que seja segurando a bandeirola perto do palco. Os dois ficam rodopiando em volta do governo, dançando colados, mas cada um de olho na própria cadeira. Alessandro Vieira aparece como peça pesada, delegado com discurso de fiscalização e faro para ocupar espaço.

Edvaldo Nogueira é outro capítulo. Atravessou tantos governos, partidos e arranjos que já poderia ser tombado como patrimônio imaterial do forró político de Aracaju. Entra tocando zabumba, sorri para todos os lados e ainda pergunta, com a naturalidade de quem nunca sai da roda, qual é o próximo compasso.

André Moura é diferente. André não é penduricalho. André é sanfona principal no palco. Não chega pedindo licença, chega afinando o instrumento e perguntando onde está o microfone. Tem prefeito, liderança, articulação e poder de fogo. Enquanto alguns aliados balançam como bandeirola no vento, André entra como quem diz: “não me pendurem, eu mesmo puxo o xote”. Pode ser aliado, problema ou solução, mas enfeite ele não é.

No fim, o eleitor precisa olhar para 2026 com menos inocência e mais malícia de quem já viu muito forró desafinado virar propaganda oficial. Uma coisa é montar grupo para governar. Outra é transformar o Estado em arraial particular, com parente no palco, aliado no camarote e penduricalho balançando na decoração. O Bolsa Família real nasceu para socorrer quem tem fome. O Bolsa Família político serve para alimentar quem já está sentado à mesa. E a pergunta fica rodando no salão: Sergipe vai votar em projeto de Estado ou vai renovar o cadastro familiar de permanência no poder?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *