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Editorial: O Homem de Ferro da Câmara

Ricardo Vasconcelos resolveu apertar o botão “modo liderança” e a Câmara de Aracaju sentiu o impacto igual trovão em tarde de verão na Atalaia. Ao anunciar a CPI dos Espaços Públicos e dizer que “quem errou precisa se preocupar”, Ricardo apareceu com discurso firme, voz de presidente e jeito de quem cansou de brincadeira de grupo de WhatsApp. E convenhamos: no meio da política sergipana, onde muita gente muda de lado mais rápido que chuva muda trânsito na Hermes Fontes, falar em “deslealdade temporal” foi praticamente criar um novo artigo do Código Eleitoral do interior nordestino.

Ricardo entendeu uma coisa que muita gente demora anos para perceber: política não é condomínio de praia para o sujeito sair do grupo levando print, áudio e mágoa no bolso. Quando ele falou que há pessoas que até terça eram aliadas e na quarta já estavam criando confusão e espalhando conversa, muita gente na Câmara sentiu o golpe sem precisar nem marcar o @. Foi aquele tipo de discurso que ninguém cita nome, mas metade da plateia já começa a olhar discretamente para o lado fingindo mexer no celular.

E o mais curioso é a trajetória do próprio Ricardo. No primeiro mandato, entrou quase como quem chega quieto numa roda de dominó. Hoje, no segundo mandato, virou presidente da Câmara, homem de confiança de André Moura e peça considerada estratégica dentro do agrupamento político. Cair na confiança pessoal de André não é coisa simples. André conversa com todo mundo, escuta todo mundo, sorri para todo mundo, mas entregar espaço de primeiro suplente e abrir o cofre da confiança política é para poucos. Ricardo entendeu cedo que, na política sergipana, às vezes vale mais coerência silenciosa do que gritaria de rede social.

E aí veio o movimento mais inteligente da semana: escolher Miltinho Dantas para conduzir a relatoria da CPI. A Câmara inteira praticamente olhou e pensou: “pronto, agora o negócio vai andar sem virar guerra de circo”. Porque Miltinho é aquele sujeito raro da política que consegue conversar com governo, oposição, cartola de futebol, vereador, prefeito e ambulante do estádio tudo no mesmo dia sem criar inimigo. Presidente da Federação Sergipana de Futebol, homem ligado à CBF, figura querida e respeitada, Miltinho parece personagem daqueles filmes onde o cara resolve crise tomando café e falando baixo no bar de Zé Buraqueiro.

A escolha também teve um recado elegante. Ricardo poderia colocar alguém explosivo, alguém disposto a transformar a CPI num campeonato de lacração, mas preferiu justamente o contrário. Escolheu um vereador visto como equilibrado, técnico e de boa convivência. E isso pesa. Principalmente depois da novela dos “gabirus” do Mercado Thales Ferraz, quando Luiz Roberto foi às redes denunciar rato, sujeira e goteira enquanto Miltinho aparecia antes dialogando calmamente com Hugo Esog e ouvindo comerciantes, moradores e técnicos. Enquanto uns chegaram com lança-chamas, Miltinho apareceu com prancheta, café e conversa.

No fundo, Ricardo Vasconcelos está virando aquilo que a política gosta de fabricar em silêncio: um operador forte de bastidor com cara de sujeito tranquilo. Um “Homem de Ferro” versão cuscuz com ovo e café passado na hora. Sorri pouco, observa muito e, quando resolve mandar recado, manda completo. Ao dizer que não aceita infantilidade política e que grupo é grupo, Ricardo praticamente colocou a Câmara em modo disciplina de quartel. E Aracaju assistiu tudo como quem acompanha série política nordestina: menos House of Cards e mais “Casa de Farinha dos Poderes”.

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