O Partido dos Trabalhadores em Sergipe começa a viver um daqueles momentos que parecem reunião de condomínio depois da conta de água atrasada. Todo mundo fala ao mesmo tempo, ninguém entende o rumo e o desespero começa a bater na porta. Os números das últimas eleições para deputado federal não mentem. João Daniel teve cerca de 68 mil votos. Eliane Aquino apareceu com mais de 66 mil votos, carregando ainda aquela memória afetiva gigantesca de Marcelo Déda, único governador sergipano que morreu no exercício do cargo e que até hoje provoca emoção em parte do eleitorado. O problema é que, depois deles, o PT despenca igual elevador sem manutenção em prédio antigo do Centro. Dandara ficou abaixo de 3 mil votos, Bagadal mal passou da barreira dos mil e o professor Marival Matos virou praticamente candidato de reunião familiar. O partido saiu de uma montanha eleitoral para uma lombada de bairro em poucos nomes.
E aí mora o aperreio que começa a tirar o sono da esquerda sergipana. O PT precisa de densidade, legenda forte, musculatura eleitoral e muito voto para sobreviver competitivo. Não basta um puxador isolado carregando o piano enquanto o resto da banda procura a partitura. João Daniel ainda resiste porque construiu uma base ligada aos movimentos sociais, assentamentos e agricultura familiar. Mas o entorno do partido parece emagrecer eleitoralmente a cada eleição. É como trio elétrico funcionando com um único gerador e uma extensão emprestada. Se o gerador falhar, apaga até o microfone. E o mais curioso é que parte do PT ainda parece acreditar que o espírito eleitoral de Marcelo Déda continuará descendo dos céus politicamente a cada quatro anos para salvar a legenda nos acréscimos do segundo tempo.
Enquanto isso, Eliane Aquino tenta ajudar Márcio Macedo diretamente de Brasília, numa espécie de operação WiFi afetivo à distância. Gravou mensagem, declarou apoio, mandou carinho político por telefone, quase como quem faz ligação internacional tentando resolver campanha em Sergipe olhando o mapa pelo Google Earth. E veja que Eliane tem história, tem respeito e tem trajetória. Mas política não funciona igual controle remoto universal. Brasília fica longe demais da feira de Itabaiana, do café da manhã no Augusto Franco, da luta dos professores contra o prefeito Samuel de Socorro e da conversa de calçada em Lagarto. O eleitor mudou, o tempo passou e o PT sergipano parece cada vez mais dependente de lembranças históricas, tentando conectar o modem eleitoral numa nostalgia que já começa a oscilar sinal.
E no meio desse cenário aparece Márcio Macedo tentando sobreviver politicamente dentro de um PT onde os polos reais continuam sendo Rogério Carvalho e João Daniel. Márcio fala, grava vídeo, ocupa ministério, participa de agenda, mas continua sem aquele calor popular que transforma candidatura em movimento espontâneo. O eleitor olha, escuta, mas não sente aquela energia política que faz o povo sair de casa empolgado. E política sem empolgação vira seminário burocrático com cafezinho morno e cadeira vazia. O risco é real. Se o PT não encontrar musculatura fora do núcleo histórico, pode viver em 2026 um cenário que anos atrás parecia impossível: ficar sem deputado federal em Sergipe. E aí seria o retrato mais cruel de um partido que já governou o estado com força e hoje parece caminhar para um suicídio político em câmera lenta, embalado por discursos, nostalgia e sinal fraco de internet eleitoral.




