Sergipe vive um daqueles momentos que a política produz de tempos em tempos: abundância de candidatos e escassez de rumo. O governador Fábio Mitidieri, ou como prefere seu entorno, o homem de sorte, conseguiu o que nenhum dos antecessores experimentou, um cardápio quase exagerado de postulantes ao Senado dentro do próprio guarda-chuva político. É como se o Estado inteiro tivesse descoberto subitamente que só existe céu político se ele passa por Brasília.
No meio desse rodízio de ambições, uma escolha o governador já cravou com a naturalidade de quem sabe onde pisa: André Moura. Não é questão de simpatia política, mas de leitura objetiva do tabuleiro. Em Sergipe, há quem ocupe espaço e há quem determine movimento e André costuma se encaixar na primeira categoria. Mesmo entre críticas e rótulos que surgem a cada ciclo eleitoral, ele segue presente nas conversas estratégicas, não por impulso, mas porque seu nome aparece recorrentemente quando o assunto é viabilidade. É um fato mais do que um juízo de valor e como falou Tia Jack: “André é necessário para Sergipe”.
Enquanto isso, do lado petista, o depoimento recente do ex-ministro Márcio Macedo adicionou tempero ao caldo já complexo. Ele relatou, com serenidade rara na política, que o presidente Lula teria recomendado sua candidatura à Câmara, não ao Senado, por uma questão prática: Rogério Carvalho já está no posto, busca reeleição e, gostemos ou não, a fila existe. A imprensa nacional preferiu focar na narrativa das dificuldades administrativas do ex-ministro, mas esse detalhe, francamente, serve mais à disputa interna do que à realidade eleitoral sergipana.
Nesse tabuleiro, o governador Fábio Mitidieri, candidato natural à reeleição e alinhado ao presidente Lula, também em busca de recondução, evita precipitar a escolha do segundo nome ao Senado. A hesitação é estratégica: enquanto a situação procura preservar coesão em torno de suas chapas, a direita, que faz oposição tanto a Mitidieri quanto a Lula, segue fragmentada e tentando reorganizar seu campo político. Antecipar definições agora poderia desestabilizar um equilíbrio que o governo ainda trabalha para manter.
Entre os pré-candidatos que circulam nos bastidores, surgem nomes como Alessandro Vieira, cuja relação com André Moura é, digamos, menos institucional e mais temperamental. O antagonismo entre ambos dispensaria até analista político: não se cumprimentam, não se toleram e, se pudessem, não dividiram sequer o mesmo mapa do Estado. André, experiente, prefere a técnica ao atrito; Alessandro prefere o atrito à construção. Estilos diferentes, resultados diferentes.
Edvaldo Nogueira também aparece no radar. Apesar de ruídos no passado, mantém hoje relação civilizada com André, prova de que, na política, a lógica quase sempre vence o fígado. Já Rogério Carvalho, embora cotado, ainda carrega feridas da última eleição, sobretudo com o governador Fábio Mitidieri, não com André. Com este, aliás, o clima recente foi de normalidade: no último encontro público, trocaram cumprimentos e até um abraço, sinal de que ali não reside o problema. As pendências de Rogério são outras e menos sentimentais do que estratégicas.
No fim das contas, Lula deverá conversar com Fábio para definir o arranjo final, não por imposição, mas por pragmatismo. Se a aliança PT–PSD avançar, o nome natural para a segunda vaga tende a ser Rogério. A configuração lembraria aqueles velhos times de várzea: no primeiro quadro, André Moura; na reserva qualificada, Rogério; no segundo quadro, Edvaldo e Alessandro ainda disputando vaga e narrativa.
Do lado da oposição, Adailto Souza, Rodrigo Valadares e até Eduardo Amorim afinam discursos. Rodrigo desponta como força real; Adailton pode surpreender e, em política, surpresa boa costuma ser aquela que ninguém conseguiu prever.
Mas, olhando o cenário com a frieza dos analistas e o calor das ruas, a disputa majoritária acabou virando quase um triatlo político: um grupo de quatro nomes do governo e outros três da oposição correndo, pedalando e nadando contra o relógio, enquanto o eleitorado assiste tudo da arquibancada, alguns com pipoca, outros com a sensação de déjà-vu. O Estado talvez nunca tenha visto tantos “atletas” alinhados na mesma largada: alguns disciplinados, outros confiando mais no improviso, e alguns que parecem apostar apenas no velho combo de fôlego curto.
O desafio agora é distinguir quem está competindo de verdade e quem só entrou na prova para aparecer na foto. No fim, toda eleição é uma maratona estranha: uns tropeçam nos próprios discursos, outros se perdem no percurso, e sempre existe aquele que tenta cortar caminho achando que ninguém vai notar. Mas a linha de chegada é teimosa, só entrega o troféu para quem aguenta o percurso inteiro sem desabar no quilômetro final.




