A Universidade Federal de Sergipe precisa responder a perguntas que vão muito além dos discursos sobre valorização do ensino público. Com orçamento atualizado informado de R$ 1,227 bilhão em 2026, a instituição administra uma estrutura que, ao final de 2025, reunia 1.790 docentes e 1.413 técnico-administrativos. O Relatório de Gestão revela um dado que merece atenção: na dotação inicial de 2025, pessoal e encargos representavam 82,2%, despesas correntes consumiam 16,9% e apenas 0,9% era destinado a investimentos. São números de um exercício anterior, mas expõem uma questão fundamental. Quanto sobra, efetivamente, para modernizar laboratórios, ampliar estruturas e melhorar os serviços? Uma universidade não pode ser medida apenas pelo tamanho da folha de pagamento. Precisa demonstrar o que entrega à sociedade.
Os próprios indicadores acadêmicos justificam uma investigação rigorosa. Em 2025, a UFS registrou 21.455 estudantes matriculados no segundo semestre e 2.598 concluintes no ano. A taxa de sucesso de 2024 foi de 44,04%. A situação ganha contornos preocupantes quando examinamos determinados cursos. Engenharia de Pesca apresentou taxa de sucesso de 14,89%, Engenharia Agrícola, 22,92%, e Engenharia Florestal, 25%, segundo o relatório institucional. Não se trata de confundir esses índices com evasão, mas de exigir explicações: quantos estudantes ingressam anualmente, quantos se formam no prazo, quantos abandonam os cursos e quais providências foram adotadas para enfrentar a baixa conclusão? A universidade precisa publicar essas informações por curso e por turma. Sem isso, o contribuinte conhece a despesa, mas não consegue avaliar integralmente o resultado.
Outra questão exige uma radiografia das salas de aula. Existem disciplinas funcionando regularmente com dois, quatro ou cinco estudantes? Em quais departamentos? Quantos professores são mobilizados para essas turmas? Qual a carga horária, a justificativa pedagógica e o custo correspondente? A documentação pública consultada ainda não permite confirmar esses casos individualmente, e essa ausência de dados consolidados precisa ser enfrentada. Turmas pequenas podem ser indispensáveis à pesquisa, à formação especializada ou à conclusão de cursos. Entretanto, a administração deve demonstrar quando essa opção é necessária e quando seria possível compartilhar disciplinas, horários e infraestrutura. A UFS também precisa esclarecer quantos docentes estão efetivamente em sala de aula, quantos se dedicam à pesquisa, quantos exercem funções administrativas e quantos estão afastados. O problema não é presumir que existam professores demais. É não dispor de uma demonstração suficientemente detalhada de como a força de trabalho é utilizada.
Na pesquisa científica, a cobrança precisa ser igualmente objetiva. A UFS informou 960 projetos de iniciação científica aprovados em 2025, 394 grupos de pesquisa certificados e R$ 22,68 milhões de financiamento externo aprovado pela Finep. São números expressivos, mas ainda exigem uma avaliação aprofundada dos resultados. Quais projetos foram concluídos? Quantos produziram artigos, patentes, tecnologias ou soluções aplicáveis aos problemas de Sergipe? Qual o investimento por projeto, quais recursos foram efetivamente executados e quais benefícios puderam ser demonstrados? A ciência não pode ser reduzida a retorno financeiro imediato, mas também não deve ficar dispensada de apresentar objetivos, métodos, resultados e prestação de contas. Títulos de mestre, doutor ou pós-doutor representam qualificação acadêmica. Não substituem indicadores verificáveis de atividade e produção.
A situação dos terceirizados torna a discussão ainda mais urgente. Em julho de 2026, trabalhadores da empresa Clarear protestaram por atrasos salariais e benefícios. A própria UFS reconheceu problemas recorrentes, informou pagamentos diretos e apontou os efeitos de uma decisão da Justiça do Trabalho sobre os repasses. A universidade apresentou providências, mas permanece indispensável esclarecer se todos os trabalhadores receberam, quais obrigações continuaram pendentes e quais falhas contratuais permitiram a repetição dos atrasos. É justamente aqui que a discussão sobre orçamento precisa abandonar os números abstratos. Uma coisa é possuir uma dotação bilionária, em grande parte comprometida com despesas obrigatórias. Outra é demonstrar eficiência na fiscalização dos contratos e na continuidade dos serviços essenciais.
O reitor André Maurício Conceição de Souza tem diante de si a oportunidade de apresentar uma prestação de contas ainda mais detalhada. Quantos cursos existem efetivamente em funcionamento? Quantas turmas possuem menos de cinco alunos? Qual a distribuição da carga horária dos 1.790 docentes registrados em 2025? Quanto custa manter cada curso? Quais departamentos apresentam maior retenção? Quanto do orçamento de 2026 foi empenhado, liquidado e pago em pessoal, custeio e investimentos? A Constituição protege a autonomia universitária, mas também impõe à administração pública os princípios da publicidade e da eficiência. A UFS possui resultados acadêmicos e científicos documentados que devem ser reconhecidos. Isso não elimina o dever de explicar seus custos e dificuldades. O dinheiro é público, a universidade é pública e a prestação de contas precisa estar à altura dessa responsabilidade. O contribuinte não pode receber apenas a conta. Tem direito de examinar, em detalhes, como ela foi construída.





Uma resposta
Bravíssimo! É essa discussão que precisamos ter nesse período eleitoral e não a romaria dos desesperados vagando pelos campi da maior universidade de Sergipe. 👏👏👏👏