Emília Corrêa resolveu entrar de vez na eleição de 2026 e, quando Emília entra, dificilmente é para segurar bolsa no canto do palco. A prefeita de Aracaju assumiu a linha de frente da defesa política de Valmir de Francisquinho, repetindo que ele segue firme na disputa, sustentando que sua situação jurídica não está definitivamente resolvida contra ele e acusando adversários de tentarem antecipar no discurso aquilo que ainda depende da Justiça. A movimentação muda o ambiente porque Valmir deixa de responder sozinho a uma enxurrada de ilações. Agora há uma prefeita da capital levantando a voz e dizendo ao eleitor: calma, a eleição ainda existe. Emília percebeu uma coisa elementar que parte da política parece ter esquecido: candidato não se derrota por decreto de WhatsApp, inelegibilidade não nasce de torcida e urna não reconhece comentarista como ministro de tribunal. A campanha sequer entrou na reta final e já havia gente escolhendo até a música do velório político de Valmir. Emília apareceu quase perguntando onde estava o defunto.
E ela pode falar de enfrentamento ao chamado “sistemão” com uma experiência eleitoral bastante recente. Em 2024, Emília disputou Aracaju contra Luiz Roberto, candidato sustentado por uma ampla estrutura política, com apoio do então prefeito Edvaldo Nogueira, do governador Fábio Mitidieri e de importantes forças partidárias. Do outro lado havia governo, estrutura, grupo político, lideranças e aquela velha convicção de que quantidade de padrinho produz automaticamente quantidade de voto. Emília venceu com 165.924 votos e 57,46% dos válidos. Foi a primeira mulher eleita prefeita da capital. A urna ofereceu uma pequena aula de humildade à engenharia política: prefeito não transfere eleitor como quem transfere Pix, governador não carrega voto no porta-malas e fotografia com muita autoridade pode impressionar o Instagram sem impressionar absolutamente ninguém dentro da cabine eleitoral. Emília saiu daquela eleição com uma espécie de certificado popular de sobrevivência política. Enfrentou uma estrutura gigantesca e venceu. Agora olha para Valmir e reconhece o roteiro.
É exatamente essa memória que torna sua entrada na campanha tão relevante. Emília ajuda a construir uma narrativa simples, poderosa e perigosíssima para os adversários: “tentaram comigo e perderam; agora estão tentando com Valmir”. Evidentemente, as situações jurídicas e eleitorais são diferentes, e nenhuma vitória se transfere automaticamente de uma eleição para outra. Mas política também é emoção, identificação e memória. Valmir enfrenta Fábio Mitidieri, a estrutura do governo, grande parte da classe política tradicional e, paralelamente, uma batalha jurídica pesada que ocupa quase tanto espaço quanto suas propostas. Só que há uma diferença fundamental em relação a 2022: desta vez ele tem ao seu lado a prefeita eleita de Aracaju, justamente a mulher que derrotou uma coalizão poderosa na capital. Emília pode não carregar votos numa sacola para entregar a Valmir, porque eleitor não é mercadoria, mas oferece algo valioso: presença, discurso, capilaridade e uma história recente de quem ouviu que enfrentava forças demais e respondeu com votos. Para o governismo, é um problema. Valmir sozinho já incomodava. Valmir com Emília percorrendo Aracaju é um incômodo com microfone, gabinete e memória eleitoral.
É por isso que falar hoje em Valmir politicamente morto soa menos como análise e mais como desejo vestido de terno. As pesquisas o mantêm competitivo, e a própria disputa jurídica permanece cercada de teses, recursos e interpretações que precisarão ser resolvidos pelas instâncias competentes. Emília compreendeu que permitir aos adversários transformar controvérsia jurídica em sentença política antecipada seria entregar a eleição sem brigar. E resolveu bagunçar o velório. Enquanto alguns já distribuíam coroas de flores, ela chegou acendendo as luzes. A expectativa de aliados de que Valmir possa ultrapassar a casa dos 600 mil votos ou até buscar uma vitória em primeiro turno pertence ao território da projeção política, não da matemática consumada. Para isso, terá de crescer, consolidar interior, ampliar Aracaju e transformar indignação em voto. Mas agora existe um ingrediente novo: a maior cidade do estado possui uma prefeita politicamente engajada nessa construção. E numa eleição apertada, Aracaju não é detalhe de rodapé. É um caminhão de votos estacionado no meio da avenida.
Emília, portanto, botou ordem na casa não porque tenha poder para decidir processo, muito menos para determinar resultado de urna, mas porque recolocou a política dentro de uma disputa que começava a parecer seminário de Direito Eleitoral. Disse, em essência, que antes de sepultarem Valmir será necessário derrotá-lo onde candidato deve ser derrotado: no voto, caso a Justiça confirme sua presença na urna. E é aí que começa a parte divertida para quem já distribuía faixa de campeão antes do jogo terminar. Fábio tem governo, aliados, prefeitos e estrutura. Valmir tem força eleitoral, interior e uma narrativa popular resistente. Agora ganhou também Emília, prefeita da capital, sobrevivente de uma eleição em que lhe disseram que o “sistema” era grande demais para ser vencido. Ela venceu. Por isso, quando Emília olha para Valmir cercado por adversários políticos e batalhas judiciais e diz que é possível vencer novamente, não está apresentando uma sentença sobre outubro. Está fazendo algo politicamente mais incômodo: lembrando aos poderosos de Sergipe que ela própria já ouviu essa história de que o outro lado era invencível. E sabe exatamente como terminou.




