O Banese é controlado pelo Estado de Sergipe e, por isso, não pode ser tratado como um banco qualquer. Em junho de 2026, sua carteira consolidada de empréstimos e recebíveis superava R$ 6 bilhões. Apenas os dez maiores tomadores concentravam R$ 310,5 milhões. No fim de 2025 eram R$ 250,9 milhões. Em apenas seis meses, portanto, quase R$ 60 milhões foram acrescentados à exposição do banco junto a um grupo muito pequeno de clientes.
Quando ampliamos a conta, a concentração chama ainda mais atenção. Os sessenta maiores tomadores somavam cerca de R$ 868 milhões. Isso não significa que sejam inadimplentes ou que exista alguma irregularidade. Significa apenas que uma parcela importante do dinheiro emprestado pelo banco está concentrada em poucos clientes. E o sergipano tem o direito de saber quais setores recebem esses recursos, quais garantias são exigidas e qual o risco dessas operações.
O setor imobiliário mostra bem essa relação. O próprio Banese já divulgou financiamentos milionários para construtoras e incorporadoras. Há contratos de R$ 28 milhões, R$ 20 milhões e relações de crédito que se repetem ao longo de vários empreendimentos. Financiar a construção civil é legítimo e movimenta a economia. Mas, quando um banco controlado pelo Estado mantém relações milionárias e recorrentes com determinados grupos empresariais, transparência deixa de ser favor e passa a ser obrigação institucional.
Outro ponto que merece atenção são as operações dentro do próprio conglomerado. Em junho, a Mulvi possuía R$ 25,5 milhões em operações de crédito com o Banese. As demonstrações também registravam R$ 2,2 milhões em crédito relacionado ao chamado pessoal chave da administração, categoria que inclui dirigentes e parentes. Não há prova de privilégio ou irregularidade nesses números. Justamente por isso, a melhor defesa do banco seria apresentar com clareza os controles utilizados para garantir que ninguém receba tratamento diferente do oferecido aos demais clientes.
O Banese é um patrimônio importante de Sergipe. Criticá-lo não significa enfraquece-lo. Significa exigir que seja cada vez mais seguro, transparente e responsável. A população não precisa conhecer dados protegidos por sigilo bancário, mas pode e deve saber quanto está concentrado nos grandes grupos econômicos, em quais setores, com quais garantias e qual a qualidade desses créditos. Se o banco é dos sergipanos, os sergipanos precisam compreender melhor onde estão sendo colocados os bilhões administrados em seu nome.




