A entrevista de Emanuel Cacho ao SE2 foi curta, mas teve coragem suficiente para mexer em assuntos que muitos candidatos preferem contornar. Sem escolher palavras mornas, ele cobrou a duplicação da BR 235 e declarou não compreender como sucessivos governos deixaram de perceber a importância econômica de Itabaiana. A crítica alcança diretamente a administração de Fábio Mitidieri e toca numa reivindicação histórica. A rodovia é federal, mas o governador pode elaborar projetos, oferecer contrapartidas e pressionar Brasília. Cacho teve mérito ao colocar o problema na mesa; agora precisa apresentar custos, trechos prioritários e o caminho para executar a obra.
No transporte, foi ainda mais incisivo. Ao afirmar que Sergipe possui uma rede ferroviária “desativada criminosamente”, escolheu uma expressão pesada para denunciar o abandono dos trilhos e a dependência enfrentada pela população do interior. A coragem política está em tocar numa estrutura esquecida, mas o peso da frase também exige responsabilidade: se “criminosamente” foi empregado em sentido literal, será necessário apontar fatos, responsáveis e provas. Se foi uma força de expressão, serviu para acordar um debate que parecia dormir na estação. O trem entrou com força no discurso; faltam orçamento, cronograma e definição do modelo.
Cacho também não fugiu da crise provocada pela renúncia de Suely Barreto. Ao explicar os 30 segundos de propaganda, comparou a situação ao vice-prefeito que queria “sentar para dividir a cadeira” com a prefeita de Aracaju. A resposta foi afiada, embora não tenha enfrentado completamente a acusação de que Suely era afastada das decisões. Ainda assim, o candidato teve disposição para responder ao tema mais desconfortável da entrevista, quando seria mais fácil recorrer ao tradicional “assunto interno do partido”.
Com a entrada do vereador Fabrício Menezes como vice, a chapa tenta recuperar estabilidade e transformar turbulência em movimento. Fabrício chega com a missão de ajudar a organizar uma campanha que quase perdeu o candidato e depois perdeu a companheira de chapa. Emanuel Cacho demonstrou coragem para enfrentar o Governo do Estado, questionar prioridades e resgatar debates esquecidos. Agora precisa juntar essa ousadia aos números. Apresentou o trem, a estrada e o destino; com Fabrício ao lado, terá de mostrar o mapa e provar que sua candidatura não pretende parar na próxima estação.




