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Entre o lucro modesto e o fantasma da privatização, o Banese pede socorro

O Banese encerrou 2025 anunciando lucro líquido recorde de R$ 151,5 milhões, patrimônio de R$ 910,5 milhões e carteira de crédito de R$ 5,2 bilhões. Os números parecem vistosos quando apresentados isoladamente, mas diminuem drasticamente quando comparados à realidade do sistema bancário. O Santander Brasil, apenas para usar como referência um grande banco privado, lucrou R$ 15,615 bilhões no mesmo exercício. Isso significa que ganhou 103 vezes mais que o Banese. Em média, o Santander produziu cerca de R$ 42,8 milhões de lucro por dia, de modo que precisou de apenas três dias e meio para alcançar todo o resultado que o Banese levou um ano inteiro para construir. A comparação não pode ignorar a diferença de tamanho, evidentemente, mas revela a reduzida escala do banco sergipano e mostra que o chamado lucro recorde ainda é pequeno diante dos custos tecnológicos, regulatórios, operacionais e de segurança exigidos de qualquer instituição financeira moderna.

O maior problema, porém, não está apenas no tamanho do lucro, mas na qualidade e na estabilidade desse resultado. O Banese lucrou R$ 83,7 milhões em 2021, caiu para R$ 75,5 milhões em 2022, despencou para R$ 47,5 milhões em 2023, saltou para R$ 146,7 milhões em 2024 e chegou a R$ 151,5 milhões em 2025. É uma montanha russa incompatível com a previsibilidade esperada de um banco que pretende ser instrumento permanente de desenvolvimento. Pior ainda, parte do resultado recente foi favorecida por receitas extraordinárias provenientes do balcão de seguros, de benefício fiscal ligado à Lei do Bem e de operações de seguridade. Até setembro de 2025, o lucro acumulado estava 13,4% abaixo do registrado no mesmo período de 2024. A virada aconteceu no último trimestre, responsável por R$ 59,6 milhões, quase 40% de todo o lucro anual. Portanto, existe lucro, mas ainda falta demonstrar quanto dele é recorrente, sustentável e produzido pela atividade bancária cotidiana, e não por eventos que podem simplesmente desaparecer no balanço seguinte.

Também é necessário perguntar para quem o Banese efetivamente está emprestando. A carteira total de crédito alcançou R$ 5,2 bilhões, mas aproximadamente R$ 3 bilhões estavam concentrados em pessoas físicas, com grande peso do consignado e do relacionamento com servidores públicos. No terceiro trimestre de 2025, a carteira específica para pessoas jurídicas estava em torno de R$ 400,5 milhões, enquanto a carteira de desenvolvimento, que reúne crédito imobiliário, rural e outras modalidades, somava aproximadamente R$ 1,36 bilhão. Para um banco que se apresenta como motor da economia estadual, é pouco. Pronampe, Fungetur, ProGiro, crédito rural e financiamento de investimentos existem no catálogo, mas o empresário sergipano ainda encontra limites apertados, burocracia, exigências de garantia e valores que frequentemente não acompanham o custo real de uma máquina, de uma reforma, de um projeto turístico ou da expansão de uma pequena indústria. Não basta manter uma vitrine cheia de nomes bonitos se o crédito que chega ao balcão é pequeno demais para transformar a realidade de quem produz.

As fragilidades internas também não podem ser cobertas pelo verniz do lucro recorde. A inadimplência cresceu 1,3 ponto percentual em 2025 e chegou a aproximadamente 5% no terceiro trimestre, enquanto as despesas com provisões para créditos problemáticos aumentaram. O banco perdeu mais de 43 mil clientes em doze meses, reduziu 22 postos de trabalho e fechou unidade de atendimento no período analisado por entidades sindicais. Na Ouvidoria, foram registradas 707 demandas no segundo semestre de 2025, das quais 197 foram consideradas procedentes. Nada menos que 478 reclamações chegaram por meio do Banco Central, crescimento de 55%, sinal de que muitos clientes só encontraram caminho depois de ultrapassar os canais internos. Ao mesmo tempo, o Índice de Basileia, que mede a capacidade de absorção de riscos, caiu de 13,62% no final de 2025 para 13,31% no primeiro trimestre de 2026. Continua acima do mínimo de 10,50%, mas com uma folga de apenas 2,81 pontos percentuais, estreita para quem precisa ampliar substancialmente o crédito sem depender eternamente de novos aportes do Estado.

Há ainda uma contradição que o Governo Fábio Mitidieri precisa explicar com absoluta transparência. O Banese é controlado em aproximadamente 92% pelo Governo de Sergipe, possui apenas cerca de 8% das ações em circulação e permanece profundamente dependente das decisões do Palácio. Foram feitos aportes de capital, incluindo R$ 23 milhões em dezembro de 2024 e R$ 50 milhões em março de 2025, mas, paralelamente, o banco promoveu operação para vender imóveis onde funcionam suas agências e depois aluga-los, medida que despertou preocupação entre bancários. Circulam informações e suspeitas políticas de que esse processo de enxugamento poderia preparar uma privatização num eventual segundo mandato. Até agora, porém, não apareceu documento oficial comprovando esse plano. Pelo contrário, o governador declarou publicamente que não venderia o banco e interrompeu a negociação anteriormente mantida com o BRB. Justamente por isso, não é legítimo apresentar a privatização como fato consumado, mas é plenamente legítimo exigir compromisso formal, metas de capitalização, expansão do crédito produtivo e garantia legal de preservação do controle público.

O Banese não precisa ser desmontado, enfraquecido nem preparado silenciosamente para uma prateleira. Precisa ser profissionalizado, capitalizado e devolvido à sua finalidade histórica. O banco dos sergipanos não pode sobreviver como simples pagador de salários, vendedor de consignado e aplicador de recursos no mercado financeiro, enquanto o microempresário recebe crédito de conta gotas e o produtor rural peregrina entre documentos, garantias e limites insuficientes. O Governo Fábio Mitidieri tem o dever de explicar por que um banco presente nos 75 municípios ainda perde clientes, encolhe postos de trabalho, registra aumento de reclamações e oferece tão pouco crédito empresarial diante das necessidades do Estado. Se o projeto é fortalecer o Banese, que apareçam investimentos, tecnologia, governança independente, metas públicas e dinheiro disponível para quem produz. Se não houver esse movimento, o receio da privatização continuará crescendo, alimentado não por uma prova definitiva, mas pela ausência de uma política convincente de fortalecimento. O Banese não pode ser administrado para apenas sobreviver até a próxima eleição. Precisa ser preparado para continuar pertencendo ao povo de Sergipe depois dela.

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