Na entrevista à Globo, Lula foi enfrentar Renata Lo Prete armado com a velha habilidade de contar histórias. O problema é que a jornalista queria respostas. Ao assumir que “a responsabilidade é toda minha”, o presidente acertou na frase e tropeçou na consequência: se tudo é responsabilidade dele, também são os problemas que tenta atribuir aos outros. Renata fez perguntas diretas. Lula respondeu como quem procura uma saída de emergência no próprio palanque.
O vexame mais revelador veio no Bolsa Família. Questionado sobre a ausência prolongada de reajuste, Lula admitiu: “Eu não sabia.” Não sabia? O presidente que apresenta o programa como símbolo de sua gestão desconhecia um dado essencial sobre o benefício? É o comandante descobrindo pelo noticiário que o navio está sem combustível. Na economia, reconheceu o risco de perder o controle do orçamento, mas não ofereceu a precisão que se espera de quem pede mais quatro anos no Planalto. Preocupação sem plano é apenas discurso com gravata.
Na segurança pública, Lula passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos, contrariando sua posição histórica. Pode mudar de opinião, claro. Mas fazer essa conversão em plena disputa eleitoral exige explicação melhor do que conveniência de segundo turno. No caso Banco Master, admitiu não ter ficado convencido com a justificativa do diretor-geral da Polícia Federal para comparecer a evento ligado ao banqueiro investigado, embora tenha preservado os elogios ao subordinado. Uma curiosa fórmula de gestão: a explicação não convence, mas a confiança continua intacta.
Lula não ficou sem palavras; ficou devendo substância. Recorreu à experiência, à memória política e ao talento de campanha, mas mostrou fragilidade justamente onde um presidente precisa ser mais sólido: domínio dos fatos, coerência e prestação de contas. Renata não precisou ser agressiva. Bastou insistir no essencial. O país não precisa de um contador de causos no comando da República, e sim de alguém que conheça seus programas, explique suas escolhas e apresente soluções. Lula foi à televisão pedir confiança. Saiu deixando uma pergunta: se nem tudo no próprio governo ele sabe, por que o eleitor deveria acreditar que sabe como consertar o Brasil?




